DDD 2019


24 ABR — 12 MAI 2019

PORTO — MATOSINHOS — GAIA

WWW.FESTIVALDDD.COM


“O corpo em movimento é a matriz da comunicação e da cognição. O movimento, a ação do corpo, vai corporificando as trocas incessantes com os ambientes. Hoje, quando o corpo vem transformando a política em biopolítica, a proposta em entendê-lo como um corpomídia permite uma leitura crítica do que está em curso na nossa sociedade.”
Helena Katz (Brasil) in O papel do corpo na transformação da política 
A edição de 2019 do DDD – Festival Dias da Dança coloca em destaque a dança contemporânea brasileira e os seus coreógrafos, que se têm vindo a constituir como um forte veículo crítico da sociedade, tal como refere a ensaísta Helena Katz. Mais do que nunca, num país repleto de contradições, urge dar corpo e voz aos seus artistas, tal como importa dar a conhecer a multiplicidade dos seus discursos não hegemónicos. Fúria, de Lia Rodrigues, ou A Invenção da Maldade, de Marcelo Evelin, nomes maiores da coreografia brasileira, encerram nos seus títulos o estado de sítio que as suas obras retratam, assim como o momento que o Brasil atravessa. As tensões que advêm dos seus trabalhos resultam em manifestos políticos e sociais, que extravasam a estética coreográfica. Também Alice Ripoll deambula entre as raízes culturais e identitárias múltiplas, que caracterizam o povo brasileiro; em Cria transporta para o palco os ritmos tradicionais das favelas e questiona o sentido de comunidade, e em Acordo centrase no racismo, confrontando o público com ele próprio, e vincando que o preconceito, directa ou indirectamente influído sobre quem é diferente, continua a ferir a sociedade e o respeito pelo outro.

O DDD 2019 foca-se assim nos corpos em tensão que nos chegam do nosso país irmão - dos coreógrafos já aqui mencionados mas também de muitos outros que apresentam os seus trabalhos no Festival -, mas não deixa igualmente de continuar a apresentar um conjunto de espectáculos oriundos de outras diferentes geografias e representativos de múltiplas estéticas da dança (muitos deles em estreia nacional ou absoluta), que nos interrogam e demonstram o quão crítica pode ser a dança contemporânea.
O DDD mantem a sua dinâmica e o seu formato de base, estruturado nos segmentos DDD IN - espectáculos em sala, DDDOUT/CORPO + CIDADE – espectáculos no espaço público, DDD EXTRA - actividades paralelas e projectos especiais e DDD PRO - workshops para profissionais. E este ano quer ir ainda mais além na sua missão, alargando a montra da diversidade do que se faz além-fronteiras e reforçando a condição do Festival enquanto plataforma e veículo de promoção do trabalho de artistas nacionais.
Christian Rizzo (França), Wu-Kang Chen e Pichet Klunchun (Tailândia e Taiwan), Tao Ye e o seu Tao Dance Theater (China), a companhia de dança contemporânea GöteborgsOperans Danskompani com peças de Sharon Eyal e Damien Jallet (Suécia, Israel e Bélgica/França), Amalia Fernández (Espanha), Marco D'Agostin (Itália), Thomas Steyaert (Bélgica) em colaboração com Raul Maia e Willi Dorner (Áustria) em colaboração com a companhia Instável, são os nossos convidados internacionais, para além do circuito brasileiro, todos eles com espectáculos que nos interpelam quer pela geometria cirúrgica (Tao Ye, em 4&8), pela crítica burlesca familiar (Amalia Fernández, em Hilo Musical…), ou pela construção possível de um espaço social colectivo (Christian Rizzo, em Une Maison).
A dança portuguesa nunca esteve tão forte, e são disso exemplo as criações de coreógrafos-faróis como Vera Mantero, que apresenta um espectáculo-homenagem a Ernesto de Sousa; de Tânia Carvalho, que traz ao DDD uma nova criação com bailarinas com mais de 45 anos; ou de Clara Andermatt, numa colaboração multidisciplinar com o pianista e compositor João Lucas. Por outro lado, jovens coreógrafos como Flávio Rodrigues, Ana Isabel Castro, Anaísa Lopes ou Ana Rita Teodoro desvendam ao público as suas novas ou mais recentes criações, certamente demonstrativas da inventividade do seu trabalho.

Na última semana do DDD, entre 8 e 12 de maio (semana+), alguns destes e muitos outros artistas nacionais poderão ser descobertos pelo público, mas também por uma centena de programadores de todo o mundo, que nesses dias se deslocam ao Porto para acompanharem a particularidade e diversidade da dança portuguesa, promovendo-a além-fronteiras.
São 42 espectáculos a descobrir dentro e fora de portas, 21 actividades extra para todos os públicos e 6 workshops intensivos para profissionais, que fazem do DDD um dos maiores encontros de dança da Europa, e um Festival único no panorama artístico nacional.

Algo apenas possível devido a uma crescente coesão e cumplicidade entre os seus organizadores e coprodutores, mas também entre os demais parceiros e apoios que compõem a extensa lista de aliados, dos quais me permito destacar: os Municípios do Porto, Matosinhos e Gaia - Frente Atlântica na génese do Festival -, a recém-criada Dias da Dança - Associação de Artes Performativas, o Teatro Municipal do Porto – dínamo das artes performativas da região -, o Teatro Nacional São João - que ano após ano tem vindo a reforçar o seu envolvimento artístico e financeiro no Festival -, o Coliseu Porto Ageas – que ousa continuar a desafiar-nos a encher a plateia desta sala mítica do Porto no espectáculo de encerramento do DDD -, a Fundação Serralves - cujo papel crucial e trabalho continuado na representação das artes performativas é em muito responsável pelo sucesso de públicos do Festival -, o balleteatro – fundador do Corpo + Cidade, que derivou para o DDD OUT, enorme promotor da dança em diálogo com o espaço público – e o Armazém 22 – espaço vibrante e preponderante de formação e criação.

O DDD 2019 é tudo isto. São 3 semanas onde o corpo reclama o seu lugar numa sociedade que se quer crítica e atenta.
E como o corpo nunca se engana, descubramos o que ele tem para nos dizer.