Outubro2018

Qua3

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... Perguntas a João Ferreira

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O Queer Porto deste ano é bastante transversal relativamente aos temas abordados. Este tem sido um ponto presente em todas as edições. Mas porquê relacionar temas tão diferentes numa só edição? 

Eu diria que é quase inevitável e salutar misturar tantos temas, porque a cultura queer atravessa vários assuntos e culturas. Quando falamos do cinema queer enquanto género, podemos considerar que ele tem um pouco de todos os tipos de cinema: o melodrama, o drama, a comédia, o experimental e, para nós, é fundamental focar esses diferentes elementos. O VIH/SIDA, por exemplo, é um tema que sempre tivemos muito presente – aliás, neste ano, lançamos um livro sobre a relação do cinema com o VIH/SIDA e a importância que a epidemia teve, na própria transformação de um certo cinema independente, particularmente nos Estados Unidos. Sendo um tema que ainda está muito presente hoje, vamos dar a ver o filme “1985”, que nos vai fazer reviver esse período negro da epidemia, dos meados dos anos 80. Depois existem outros temas, como a moda. É impossível pensar a moda sem a cultura queer, porque a forma de vestir também faz parte da nossa identidade. E vamos ter um exemplo de um caso muito particular, o do Maison Margiela, uma figura que ninguém conhece, existindo apenas uma fotografia dele, embora esteja ainda vivo. Neste documentário, vamos ver como é que esta casa é completamente queer, no sentido em que desconstruiu tudo aquilo que existia enquanto noção de moda, nas fronteiras entre o que é masculino e o que é feminino.

Esta é já a quarta edição do projeto no Porto. Como tens encarado esta evolução e a introdução de um festival desta dimensão no calendário de festivais na cidade?

Mantivemos sempre esta ideia de uma competição mista, que mistura ficção e documentário. Achamos que faz sentido na filosofia do que é o festival. Vamos percebendo o público, procurando o que lhe interessa. Dessa forma, fomos percebendo que há questões funcionam bem com um público mais universitário. O Porto tem esta vantagem, de ter várias universidades de Artes no centro e isso é muito bom para o festival, pois podemos e devemos trabalhar com essas escolas e com esse público. E devemos estar atentos, de uma edição para a outra, porque assim também se torna mais interessante para nós. Sendo sempre um processo em evolução.

Sendo cada edição feita de dezenas de filmes, fazemos-te um desafio: em poucas palavras, consegues destacar dois ou três momentos imperdíveis desta edição?

É sempre difícil destacar porque tentamos ir ao encontro dos gostos de diferentes públicos. Um documentário que eu acho magnifico, e que vamos apresentar, é aquele que vai falar sobre a dramaturga norte-americana Maria Irene Fornés, o “The Rest I Make Up”, que conta a forma como uma jovem realizadora americana vai ter com Maria Fornés, que já se encontra bastante debilitada, com muitos problemas de memória, depois de ter sido obrigada a deixar de trabalhar. E é muito engraçado ver como este encontro entre as duas, que a vai espevitar e incentivar a reviver a sua vida e a sua obra. Aliás, o festival deste ano fala muito sobre a questão do feminino e em particular do feminismo, através de uma série de vozes que foram fundamentais para a causa. A de Maria Fornés foi uma delas, da mesma forma que a Caroline Chedimen também a foi. Vai ser uma sessão única sobre esta performer americana, que nos faz pensar na importância desse radicalismo que é mostrar o corpo da mulher ou o seu próprio corpo, como é o caso da Chedimen. Penso que ainda faz sentido hoje fazer essa revindicação, mostrar o corpo e mostrar o que é isto de ser feminista.

Fotografia © Queer Porto

Queer Porto