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Curtas de Cena Portuguesa 
Como surgiu o “Curtas de Cena Portuguesa” e qual o balanço após cinco meses desta iniciativa?

Este projeto, o “Curtas de Cena Portuguesa”, surge de um projeto maior que é a AMANDA Associação Medida Anónima - Núcleo Dramaturgia Ação, onde vários dramaturgos portugueses se juntam, em residência, para produzir peças curtas, que depois podem ser desenvolvidas em peças longas. Cada um regressa para a sua própria companhia para desenvolver o texto e depois o apresentar ao público.
O nosso objetivo – meu e do Nuno M Cardoso, que assume a direção artística deste projeto comigo – é, no fundo, dar a conhecer a dramaturgia portuguesa e, portanto, todas as diferentes vozes que estão a surgir: gente nova com uma escrita que se foca em temas contemporâneos, temas que nos preocupam a todos.
A ideia era poder apresentar as curtas ao público, antes de espetáculos. Portanto, fazer mesmo como no cinema: apresentar uma curta antes do espetáculo. São seis espetáculos no total e cada espetáculo tem um autor associado. Decidimos também trabalhar desta vez o tema da “Metástrofe”, como uma necessidade ou sensação de uma mudança eminente presente no coração da humanidade. Ou seja, esta sensação que todos nós temos de que há coisas que vão ter de mudar; e é aqui vamos buscar vários temas, um para cada autor: o capitalismo, a tecnologia, os desastres ambientais, a ameaça nuclear, o terrorismo e a desumanização.
Portanto, cada um dos seis autores trabalhou um destes temas.

Qual tem sido a reação do público?

Nestes últimos cinco meses – tendo sido apresentada uma curta por mês – o balanço que faço é positivo. O público não está habituado a ver “curtas” de dança e então chegamos a assistir a pessoas que vinham apenas ver a curta. Claro que a maior parte das pessoas vinha ver o espetáculo – e esse também era o principal objetivo. Mas esta possibilidade de poderem entrar no teatro e assistir a algo que acontece num espaço pouco convencional, como a bilheteira, a escadaria ou o quarto de banho, acho que teve impacto.
O público se seguisse todos as curtas – e há quem tenha seguido – percebia que todos os pequenos temas faziam parte de um grande tema geral, o da “Metástrofe” - esta ideia de que o futuro está em aberto para uma necessidade de mudança. E creio que mesmo esta questão temática terá tido um certo impacto nos espectadores.

Em que consiste “Instruções para dançar agarrado – Uma balada triste de Rui Pina Coelho”a última curta que será apresentada no próximo fim-de-semana?

A próxima curta relaciona-se com a temática dos Desastres Ambientais e é escrita pelo Rui Pina Coelho. É uma curta que fala do amor enquanto o mundo arde. Ou seja, a ideia de que, ao nível ambiental, assistimos a um mundo que está a pegar fogo (às vezes até literalmente). Isto passa-se com um casal que apesar do mundo estar a arder lá fora, tem como reação não ir apagar o fogo, mas sim dançar um tango e, no fundo, celebrar o amor. Portanto, é como se este tango correspondesse a uma interrupção do real; uma fuga ao real. Eu vou ler três linhas do texto:

Lá fora está um calor que não se aguenta. O ar arde. O céu derrete sobre as peles já gastas. Quando tudo parece começar a pegar fogo, que resta fazer? Que pode o amor fazer contra um mundo a desmaiar? Dar as mãos, dançar e esperar pelo melhor? Que estratégias podem os amantes usar contra o desfalecimento da vida?

Esta curta, como já referi, é do Rui Pina Coelho, a encenação e interpretação é da Ana Moreira e do Pedro Almendra e a voz – porque há um texto gravado que se ouve – é da Marta Bernardes.


Fotografia © José Caldeira / TMP
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