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... Perguntas a António Durães (Quarteto Contratempus)

Qua 12 Junho 2019

"Simplex"
"Simplex" é a nova ópera cómica do Quarteto Contratempus, com estreia no dia 15 de junho no Teatro Campo Alegre. É possível defini-lo como uma visão humorística das problemáticas contemporâneas do nosso país?

“Simplex” é um projeto do Quarteto Contratempus. Como sempre acontece na prática que tenho com eles, eles lançaram um desafio a um libertista para que este escrevesse uma história, com total liberdade e que tivesse alguma comicidade. Enfim, que de alguma maneira nos possa divertir. Ao mesmo tempo em que era construído esse libreto fez-se a encomenda também a um compositor, neste caso, o José Topa e o Carlos Tê, e o compositor, o Telmo Marques. O que é que nós esperávamos quando a encomenda foi realizada? Bom, esperávamos uma coisa divertida, evidentemente. Agora, não estávamos à espera que de repente nós pudéssemos estar a refletir sobre esta nova moda da simplificação de procedimentos comportamentais e civilizacionais. A regra de que é necessário facilitar tudo, mesmo que isso muitas vezes signifique complicar. Então o que é que podemos esperar? Uma história divertida sobre uma espécie de conflito entre a ruralidade de um lugar – no caso concreto Vila Velha de Pinheiro, uma coisa que fica não se sabe muito bem onde, mas que agora já tem página na internet e tudo, já tem Instagram e tudo, porque isto é um projeto para a frentex – versus uma espécie de revolução tecnológica que essa vila sofreu com a chegada de um habitante muito importante que vem de Silicon Valley, e que de repente traz uma espécie de revolução. É uma espécie de anjo caído naquele paraíso que dizem ser Silicon Valley – se calhar um inferno, não sei, agora já não há purgatório, portanto já não temos essa premissa – e que vai parar a Vila Velha de Pinheiro. E a história é um bocadinho este conflito. Tudo começa com a chegada de uma repórter à terra, porque, entretanto, na revista para a qual ela trabalha, para onde escreve umas peças, terá chegado a informação de que alguma coisa estava a acontecer de diferente naquele sítio. E, portanto, ela vai tentar descobrir o que está a acontecer naquele sítio e depara-se com um mundo completamente diferente daquele que existe no resto do país. Vila Velha do Pinheiro não é apenas uma terra com bons ares como, aliás, o próprio nome deixa entender – cheia de pinheiros frondosos, muito aroma a pinho, muito ar puro –, mas é também qualquer coisa de complicado do ponto de vista do uso do espaço comum. Eu não vou dizer o que há lá assim de espetacular, mas é tudo muito para a frente, está tudo muito informatizado. O melhor é irem ver a ópera, para perceberem que mundo é este de tão diferente que foi criado. 

Estiveram, recentemente, em residência artística em Paredes de Coura. O que nos pode dizer sobre o processo criativo de Simplex?

Do ponto de vista do processo criativo desta peça, ela foi um bocado mais radicalizada do que costuma ser o trabalho com o Quarteto Contratempus. É importante dizer que o Quarteto Contratempus é um quarteto que existe há vários anos e já tem uma série de pequenas óperas. E o que temos feito, normalmente, é juntarmo-nos, vamos ensaiando e, depois, no final, concentramo-nos bastante mais, em três ou quatro semanas, e fechamos o espetáculo. Neste projeto foi um bocado diferente. Porque começámos por fazer residências artísticas, e fizemos duas, ou melhor, uma grande, mas em dois momentos. Ou seja, juntamo-nos durante uma semana em Venade (Paredes de Coura). Utilizámos, também, a Caixa de Música de Paredes de Coura, mas estivemos basicamente em Venade, no Centro Mário Cláudio que, generosamente, a autarquia e o próprio presidente nos forneceram as instalações e estivemos lá a pensar nesta ópera. Durante uma semana estivemos lá, investimos o nosso tempo, a nossa disponibilidade, a nossa criatividade no levantamento e na compreensão, sobretudo, desta estrutura. E depois viemos para as nossas vidas, cada um para o seu sítio. Eventualmente íamo-nos encontrando com ensaios pré-marcados para rever as conclusões a que tínhamos chegado. E depois voltamos a Paredes de Coura, num segundo momento, para “terminar” o espetáculo. E nessas residências estiveram praticamente todas as pessoas que estão envolvidas no processo criativo. Ou seja, esteve a designer de luz, a Mariana, que acompanha sempre os processos. Convidou-se também a Sara Feio para fazer a ilustração, porque queríamos que tivesse cenários digitais, animados, ilustrados. E ela esteve nesse processo também, a tentar perceber o que iria acontecer para transformar os desenhos em vídeo mapeado, tal como o manipulador, o Hugo. Esteve também a figurinista, para perceber que universo era esse e para começar a pensar nos tecidos, nas roupas, nas cores, na paleta de cores, enfim, tudo isso. E, finalmente, depois dessas duas residências, chegamos a este momento em que estamos. Já não direi a fechar o espetáculo, porque ele já vinha muito resolvido de Paredes de Coura, mas estamos a introduzir algumas coisas que entretanto tiveram que ser modificadas. Entretanto fomos ao Teatro Campo Alegre fazer testes e ver as projeções, os ângulos, as cores, a resposta dos projetores ao traço da Sara. Enfim, todas essas questões que nós quisemos antecipar o melhor possível. E, finalmente, em função desses testes agora estamos a ultimar as coisas, já com algumas alterações introduzidas de maneira a que tenhamos as respostas já quase todas encontradas e fazer o milagre da junção de todas as peças. Estas residências, por outro lado, demonstram-nos que este processo talvez seja o mais interessante porque nos permite chegar agora a este momento de maior aperto mais calmos e relaxados porque temos um espectáculo já bastante construído, consolidado até na sua forma, na sua encenação, na maneira como está lido em cena e, portanto, chegamos mais disponíveis para sofrermos alguma mudança que é necessário introduzir, porque agora o espetáculo vai fazer-nos outro tipo de perguntas e nós vamos ter que responder o mais sensatamente possível para não perdermos aquilo que entretanto ganhamos.

Depois da “Querela dos Grilos”, de “Os Dilemas Dietéticos De Uma Matrioska Do Meio” e “As Sete Mulheres de Jeremias Epicentro”, como foi voltar a trabalhar com o Quarteto Contratempus? Quais são as expectativas para este espetáculo?

O trabalho com esta estrutura já é uma recorrência, nesses espectáculos e em anteriores. Tenho sentido que temos crescido juntos a partir deste diálogo. Eu acho que eles hoje são intérpretes, são músicos que não eram há quatro ou cinco anos atrás quando começamos a colaborar. Não tenho nenhum mérito especial nisso porque nós modificamos, vamos tirando do sítio uns aos outros. A verdade é que temos crescido juntos e olhando para aquilo que começamos a fazer há uns anos atrás, é bastante diferente ao que estamos a fazer atualmente. Tem outro léxico, outro grau diferente. Eles estão mais preparados do que há quatro ou cinco anos atrás (e eu também na relação que tenho com eles), estamos mais disponíveis para ver as coisas que estão à nossa volta e para somarmos ao trabalho que estamos a fazer. Por exemplo, em Paredes de Coura deparamo-nos com esta imagem, e de repente esta imagem serve também como leitmotiv para o trabalho que queremos fazer. Em Venade [freguesia de Paredes de Coura] fizemos uma apresentação para os locais (onde esteve presente o Presidente da Junta de Venada, a Vereadora da Cultura de Paredes de Coura e outros quadros da autarquia), onde mostramos apenas musicalmente aquilo que tínhamos concluído. Portanto, em Paredes de Coura deparamo-nos com esta imagem – que é também um pouco a metáfora e o leitmotiv para o que acabamos por fazer, sendo influenciados pelos sítios onde estamos. De repente, na estrada recolhia-se um rebanho, onde o pastor – e é aqui que entra a experiência “Simplex”, não de uma forma tecnologicamente avançada mas de alguma maneira há um avanço nas técnicas de transumância dos rebanhos. O pastor ia no seu carro, com as portas abertas e buzinava atrás do rebanho, para que este seguisse na direção que ele queria que seguisse e estávamos num caminho. E este diálogo entre o antigo, o tradicional e esta modernice de ir dentro do carro, de portas abertas a buzinar e aos berros para que as ovelhas seguissem mais rápido ou mais lento pelo caminho que ele queria que elas seguissem, é um bocado a metáfora deste espetáculo. E é aí que nós somos muito permeáveis, porque de repente já olhamos uns para os outros e já nos entendemos, respiramos e percebemos: “Está aqui qualquer coisa, está aqui o início de uma coisa qualquer, está aqui um bom ponto de partida”. E, desse ponto de vista, já fizemos um grande caminho juntos. Hoje somos muito mais capazes do que éramos há uns anos atrás.


Fotografia © Pedro Sardinha
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