O que soubemos ler

Tiago Bartolomeu Costa
 
Nas páginas finais do livro que dedicou à história deste teatro, Rivoli 1989-2006 (Edições Afrontamento, 2008), Isabel Alves Costa (1946-2009) lembrava que a direção de então decidira que a edição do quinto número da publicação Cadernos do Rivoli “não fazia sentido”, pela “situação que se vivia no Rivoli”. Se recordo esta passagem é porque me lembro bem da importância que os Cadernos do Rivoli tiveram na história das publicações especializadas em artes performativas e no impacto para a gestão e programação cultural.

Em 2017, quando o projeto foi retomado, Nuno Coelho produziu uma belíssima e justa homenagem a Isabel Alves Costa e Paulo Eduardo Carvalho (1965-2010), editando, tal como haviam imaginado, um número dedicado à inventividade da cenografia teatral que passara pelo Pequeno Auditório do Rivoli. Foi como se, ainda que tardiamente, alguma história pudesse ser resgatada da perda lamentável de que falava a então diretora. Não é, assim, inocente que, na sequência do gesto da atual direção, continuado em 2018 num número sobre o corpo e o espaço, coordenado por Gabriela Vaz-Pinheiro, este volume que agora reinicia a coleção continue a numeração lógica. O sétimo volume de Cadernos do Rivoli é, desse modo, o reestabelecer de uma coleção que, partindo da programação do Teatro Municipal do Porto (TMP), procura criar pistas de leitura certamente especulativas, sobre o que foi apresentado na temporada que antecede a sua publicação, no caso a de 2019-2020. Sucede que essa foi a temporada de todos os desafios.
Preparada com o desvelo a que o TMP nos habitou — numa profusão de cruzamentos mais ou menos previstos e outros tantos da inteira responsabilidade de quem se vai fazendo espectador — foi atropelada pela pandemia que suspendeu o país e questionou o lugar do próprio teatro na sociedade.

O lugar do próprio teatro na sociedade. O lugar de onde se vê passou a virtual, as presenças transformaram-se em visionamentos e, quando o regresso começava a ser possível, as condicionantes provaram-se, sempre, contrárias à intensa liberdade de ação e circulação que a vida num teatro pede. E, no entanto, continuaram.

Abandonando a dimensão temática que caracterizava o Cadernos do Rivoli, construiu-se uma publicação híbrida, na qual convivem o conto, o ensaio, a análise de espetáculos e fílmica, o texto dramático, a poesia, a performance, a imagem e a cenografia.

Aos autores foi pedido que escrevessem, ou daí partissem, sobre como viram — e o que gostavam de guardar — da mais enevoada das temporadas. Mais do que reflexões sobre o que há de ser, distantes que estamos do tanto que ainda temos para aprender, estas são respostas desenvolvidas na total liberdade inventiva da escrita, do desenho, da observação, na conceção e na transformação da palavra dita em imagem escrita. São propostas de análise das múltiplas realidades que os palcos e os ecrãs do TMP puderam mostrar até março, e tiveram de inventar novas formas de pertença depois disso. É a resposta imaginada ao tempo em que estivemos separados, criando brechas na história oficial da suspensão e, no limite do possível, fazer da sua publicação um exercício de programação e de reflexão sobre como pode um teatro continuar a existir para fora das suas paredes e para lá da efemeridade dos espetáculos que apresenta. Ou na ausência destes.

São hipóteses de leitura do mundo, pensadas para ecoar o tempo que passou no presente que voltámos a reganhar. 

São desafios à imaginação, tanto quanto é possível prolongar a experiência da memória.

São objetos de escrita e objetos visuais que trazem o teatro, e o que o rodeia, para dentro dos limites das páginas e, na leitura, se podem relacionar com aquelas que sejam referências dos leitores.

São oportunidades para tornar o espectador em leitor, transformando a experiência e a presença físicas em tempos imateriais de leitura.

São rimas sugestionadas pela realidade e pelos questionamentos das verdades que damos por absolutas e adquiridas. São hipóteses de reescrita da história.

No início do poema em prosa Final, Luís Miguel Nava (1957-1995) escreve: “Não foi sem dificuldade que este livro rompeu através dos interstícios do mundo até chegar às tuas mãos, leitor, como um deserto a abrir outros desertos, criar uma irradiação simbólica, magnética, onde o branco do papel e o negro das palavras, essas cores que segundo Borges se odeiam, pudessem fundir-se e converter-se nessa outra a que, na enigmática expressão de Sá-Carneiro, a saudade se trava”. O poema termina apelando à forma como sempre imaginei que deveria ser a relação com espetáculos e, neste caso, se esta publicação os substitui, aceitemo-lo como princípio: “Acolhe-o, pois, com benevolência, que chegada a altura, havemos de arder juntos”.


Tiago Bartolomeu Costa
Foi crítico no jornal Público (2006-2014) e fundou e dirigiu a publicação OBSCENA - revista de artes performativas (2007-2010), desenvolvendo o seu trabalho de análise de espetáculos em diversas revistas especializadas. É autor dos livros Tiago Guedes - Valse à cinq temps (Centre Pompidou-Metz, 2011) e O cego que atravessou montanhas (Orfeu Negro, 2016), e organizou a obra coletiva Uma coisa concreta (Companhia Paulo Ribeiro, 2015), para além de assinar regularmente capítulos ou ensaios em publicações dedicadas às artes performativas. Para além dos ciclos e programas que comissariou em diversas instituições, foi adjunto para a internacionalização do São Luiz Teatro Municipal e consultor para a programação do festival Chantiers d'Europe, do Théâtre de la Ville-Paris. Entre 2016 e 2019 foi assessor dos gabinetes do Secretário de Estado da Cultura e da Ministra da Cultura.