Carta branca


Quem são, o que dizem e como querem ser vistos aqueles que encontraram, no início do seu percurso profissional, um espaço de trabalho que é, também, um lugar de pesquisa e conhecimento muito para lá da dimensão autoral, no Teatro Municipal do Porto?

Ana Isabel Castro e a dupla Guilherme de Sousa e Pedro Azevedo, JAA! Jovens Artistas Associados, cujo trabalho ficou invisível em grande parte da temporada, criaram, a partir das matérias que os ocupam – o espaço e o desaparecimento, a interdisciplinaridade e descoberta das fronteiras e das formas, o discurso artístico e criativo e o que deixam por adivinhar – projetos que rasgam as fronteiras de uma publicação e convidam a olhar para a prática performativa como um verbo, ao mesmo tempo, de ação e de suspensão.

São olhares distintos sobre o processo de criação e a afirmação de uma identidade artística e pessoal, captados como se fosse um tomar de pulso ao que, definindo-os, pertence já ao passado.

BICHO

Ana Isabel Castro
© José Caldeira

© José Caldeira

1. 
O teatro fechou as portas, os auditórios mergulharam no silêncio, as cadeiras ficaram vazias.

2.
As cadeiras dos teatros são locais inusitados que acolhem movimentos íntimos, interpretados por espectadores durante performances alheias. Se os teatros fechassem e o público não mais pudesse assistir a espetáculos, as cadeiras perderiam a sua função. Acabariam por envelhecer sozinhas e gastas; converter-se-iam, paradoxalmente talvez, num espólio digno de exibição museológica. O público, esse, continuaria a ser público. Não poderia sentar-se e “coreografar-se” a si próprio numa cadeira, mas poderia voltar ao teatro para assistir às marcas do seu desgaste. E registar essas marcas, talvez, para quando a memória, corroída pelo tempo, lhe falhar.

3.
Têm várias designações: caruncho, gorgulho, termite, broca das árvores... Mas tratamo-los genérica e carinhosamente por bicho da madeira. São vermes indesejáveis que se instalam nos móveis e que os corroem ao longo dos anos, num processo moroso de perfuração e sobrevivência. O bicho come a madeira para sobreviver. Instala-se e contagia, como um vírus, outras madeiras das redondezas (outros móveis, outros soalhos). E deixa o rastro da sua ação antiga e implacável.

4.
Não sei como recordarei estes tempos tão memoravelmente atípicos, mas quis que a memória estivesse, uma vez mais, presente. Mais do que criar uma memória, interessou-me forjar os seus despojos. Quis afastar-me, ainda que apenas aparentemente, da escrita coreográfica para criar um objeto que imprimisse, nos seus contornos, a passagem do tempo. Decidi criar a cadeira in situ, em colaboração criativa com o Francisco Choupina, que trabalha na manutenção deste teatro desde 1997. Até agora, todos os meus trabalhos partiram da memória – ou abordaram-na de alguma maneira. Em vez de apostarmos na construção de uma cadeira de raiz, reciclámos peças de cadeiras antigas e danificadas do Grande Auditório. Juntos, executámos uma nova cadeira velha – que é, também, uma velha cadeira nova. A sua deterioração foi coreografada; o seu envelhecimento ficcionado. A cadeira foi devidamente manipulada, lixada, envernizada e perfurada por brocas travestidas de bichos, que deixaram o lastro do seu trabalho na base da cadeira.

5.
O bicho alimenta-se da cadeira em madeira do teatro. Eu alimento-me do teatro. A cadeira que criámos para o 89º aniversário do Rivoli foi confinada. Está isolada em acrílico. Pode ser vista, mas não pode ser tocada. Deixou de ser uma cadeira, perdeu a sua função, tornou-se memória e está fadada a transformar-se em pó. Nada há de pessimista nisso. Outros bichos virão. Outros artistas também.
  • 1/6 (© José Caldeira)

    1/6 (© José Caldeira)

  • 2/6 (© José Caldeira)

    2/6 (© José Caldeira)

  • 3/6 (© José Caldeira)

    3/6 (© José Caldeira)

  • 4/6 (© José Caldeira)

    4/6 (© José Caldeira)

  • 5/6 (© José Caldeira)

    5/6 (© José Caldeira)

  • 6/6 (© José Caldeira)

    6/6 (© José Caldeira)

Ana Isabel Castro 
É licenciada pela Escola Superior de Dança e frequentou o FAICC – Formação Avançada em Interpretação e Criação Coreográfica da Companhia Instável. Como bolseira Erasmus no MUk, em Viena, trabalhou com Esther Balfe, Saju Hari e Georg Blaschke. Colaborou como intérprete com Compagnie 7273, Circolando, Companhia Instável, KALE Companhia de Dança e Joclécio Azevedo. Em 2019, apresentou Marengo no DDD – Festival Dias da Dança. Integra o programa Jovens Artistas Associados (JAA!) do Teatro Municipal do Porto para as temporadas 2019/2020 e 2020/2021.

D.I.Y. - Do It Yourself

Guilherme de Sousa & Pedro Azevedo

Ao longo do nosso percurso temos procurado trabalhar na fusão de diferentes disciplinas artísticas, como o teatro, a dança, a performance ou a instalação. 

A natureza dos projetos e as respetivas abordagens têm promovido uma fusão de diferentes metodologias de abordagem artísticas, relacionando, frequentemente, o universo das artes plásticas com o das artes performativas, de forma natural e “quase” involuntária, a que não é alheio o facto de assinarmos o trabalho em conjunto. O nosso trabalho é, também, o resultado das influências nos percursos de cada um. Esta simultaneidade situa o trabalho num lugar de convergências interdisciplinares.

Numa análise influenciada pela pandemia que nos afetou em 2020, quisemos responder à participação no Cadernos do Rivoli com uma reflexão sobre o que já realizámos, refletindo sobre o modo como a plasticidade do trabalho performativo se equivale à dimensão performativa do trabalho plástico. 

Questionámo-nos sobre como tornar o conteúdo de um caderno, ou o seu manuseamento, num acto “performativo”. Tal como nas instalações que temos vindo a desenvolver, onde o público é convidado a interagir directamente com o objecto, propomos ao leitor transformar-se no agente de transformação deste processo editorial, através de um Faça você mesmo (D.I.Y., Do It Yourself). É uma espécie de colaboração artística para os tempos em que não pudemos estar juntos. 

A proposta é simples: vamos construir/ compor uma imagem. Neste desdobrável poderá encontrar uma composição de imagens e, junto com a publicação, alguns marcadores preenchidos por diversos autocolantes - personagens, elementos de referência ou objectos cenográficos, resultantes do registo fotográfico dos nossos projectos. Tudo isto — a imagem-base e os autocolantes — constitui-se como material de trabalho do leitor. 

O que propomos é um exercício semelhante ao do artista: organizar elementos de natureza diversa, criar uma composição e escolher. Sobretudo escolher. Ou editar. E isto através de uma ação tão banal como colar um autocolante. “Escolher”, neste caso, pode ser decidir ignorar a composição, colar o autocolante no vidro do carro, na porta do frigorifico ou onde bem entender.

IMAGEM-BASE



AUTOCOLANTE 1



AUTOCOLANTE 2



AUTOCOLANTE 3



AUTOCOLANTE 4



Guilherme de Sousa & Pedro Azevedo
Conheceram-se em 2014 e têm vindo a colaborar profissionalmente desde 2016. A sua atividade divide-se entre as artes plásticas e performativas, desenvolvendo um especial interesse pelo teatro, pela dança e pela instalação. No seu percurso destacam-se It takes two to TangoVANISH - projeto vencedor da 2ª edição do programa Campo de Batalha, promovido pelo Teatro Municipal do Porto -, e Horto - Uma forma que vem do toque, vencedor da 3ª edição da bolsa Happy Together, promovida pela Mala Voadora em parceria com a Câmara Municipal do Porto/Fórum do Futuro, em 2017. Integram o programa Jovens Artistas Associados (JAA!) do Teatro Municipal do Porto para as temporadas 2019/2020 e 2020/2021.