Estrutura - © Cátia Pinheiro

© Cátia Pinheiro

Setembro

28 Sáb 19.00h 29 Dom 17.00h

CAMPO ALEGRE Auditório

7.00€ • ≈1.00h • >12

Estrutura

(Cátia Pinheiro & José Nunes)
Party

Teatro
Estreia
Estrutura - © Cátia Pinheiro

© Cátia Pinheiro

 
“Party” é uma celebração, uma festa em família, um espetáculo-prenda. São dez anos de caminho condensados e partilhados com aqueles que lhes são próximos. Querem questionar direções, sentidos, velocidades e também celebrar, dançar, gritar a plenos pulmões e beber uns copos. A Estrutura faz dez anos e por isso querem pensar sobre o caminho que percorreram e aquele que ainda está para vir. Para isso, convidam alguns dos colaboradores que ao longo dos anos partilharam criações com a Estrutura e que de certa forma se tornaram na “sua família”.


A Estrutura foi fundada em 2009 por Cátia Pinheiro e José Nunes e tem desenvolvido a criação e produção de espetáculos de teatro e atividades de formação que dialogam com a realidade do pensamento contemporâneo, promovendo a experimentação artística e a lógica colaborativa. No seu percurso, destacam-se as últimas criações “Uma Gaivota” (2016), “Geocide” (2017), “The End” (2017), “M’18” (2018), “Pathos” (2019) e o programa de formação “Recurso” (2018). Ao longo da sua existência, colaborou com instituições como o Teatro Municipal do Porto, Teatro Nacional São João, São Luiz Teatro Municipal, Teatro Nacional Dona Maria II, entre outros. A Estrutura é financiada pela Direção-Geral das Artes e é uma das companhias residentes no Teatro Campo Alegre, ao abrigo do programa Campo Aberto.

Criação Cátia Pinheiro, José Nunes
Colaboração José Maria Vieira Mendes, Rogério Nuno Costa, André Godinho, Vasco Rodrigues, Daniel Worm d’Assumpção, Jordann Santos, Pedro Nabais, Mafalda Banquart
Produção Ana Lopes
Residências O Espaço do Tempo, Teatro Campo Alegre
Apoio República Portuguesa - Cultura I DGARTES – Direção-Geral das Artes
Coprodução Teatro Municipal do Porto, Estrutura



Estrutura
Cátia Pinheiro & José Nunes
encenadores e atores


“Party”, espetáculo de comemoração dos dez anos da Estrutura, propõe uma festa em família. Depois de uma série de espetáculos que propõe um olhar crítico sobre a humanidade, recorrendo a realidades futuras apocalíticas (“Geocide”), a questões de identidade mediatizada (“The End”), à herança do maio de 68 (“M’18”) e à antiguidade clássica (“Pathos”), que questões é que “Party” pretende provocar? O que procuraram explorar a partir de um tema mais leviano, de festa?


José Nunes (JN) De facto, nós encerramos uma tetralogia com o último espetáculo que fizemos e “Party” é uma espécie de interlúdio entre os próximos que virão. Escolhemos, precisamente, este espetáculo para fazer essa transição, entre dois focos temáticos e porque não queremos ignorar o “elefante na sala”, que é o facto de fazermos 10 anos de atividade neste ano. Para este espetáculo partimos da ideia de festa para criarmos um espetáculo que pode não ser, necessariamente, uma coisa mais leve. Estamos aqui a dar uma ideia de celebração, mas também a dar continuidade a esse trabalho de reflexão sobre determinados temas. Propomo-nos a pensar sobre o que é esta ideia de celebração, de festa, de partilha, de comunidade, de família. E como é que se constroem estes marcos temporais, porque o conceito de tempo foi inventado por nós, humanos, e temos uma fixação por eles, em registá-los. Por isso, esta ideia de celebração não é apenas uma coisa leviana, mas sim uma oportunidade para refletir sobre o que é fazer uma festa, o que é celebrar um evento ou um marco temporal.
Cátia Pinheiro (CP) E celebrar a família, questionar o que é isso de família. Neste caso, é uma família artística, que nos escolheu e que nós escolhemos, que nos tem vindo a acompanhar nestes dez anos. O espetáculo pretende perceber o que é isso de caminharmos juntos, como vemos os dez anos que estão para trás, como é que víamos os dez anos que vinham pela frente. Queremos refletir sobre o que é isso de conviver em família, construir a família, de criar, de olhar para o objeto artístico de uma forma familiar.

A identidade é um tema muito presente no vosso trabalho. Sendo um espetáculo sobre o percurso da Estrutura, em “Party” esta temática é explorada a fundo? De que forma é que a identidade da Estrutura é transposta para o palco?

JN Partimos dessa ideia, deste marco autobiográfico de fazermos 10 anos em 2019. De alguma forma, a nossa identidade também vai estar presente, porque nos propomos a refletir sobre isso, e pela presença de elementos autobiográficos, da própria história da Estrutura e dos colaboradores que costumam trabalhar connosco. Queremos transpor alguns desses elementos para o espetáculo que vamos criar. Interessa-nos que esse seja um ponto de partida que, depois, se expande para falar de coisas maiores do que este aniversário da Estrutura.
CP Sim, senão trazíamos um bolo, soprávamos as velas e, pronto, ficávamos bêbados, que é também um clássico dos aniversários (risos). Queremos mesmo questionar a nossa identidade, que é algo que fazemos em todos os projetos, quer seja a nível de pensamento, quer seja plasticamente. Colocamo-nos sempre em causa. Não partimos do zero, isso era impossível. Mas vai ser inevitável abordarmos a identidade como o grande tema, porque ela também nos anda na cabeça há alguns anos. E vai ser divertido olhar para trás e ver como é que fomos construindo a identidade, ou aquilo que poderá ser a nossa identidade. Mas também como é agarrar uma coisa que não está propriamente cristalizada nas nossas cabeças.
JN E, como qualquer identidade, muitas vezes é mais fácil para quem observa fazer essa construção, do que propriamente para quem a tem. Porque, muitas vezes, não somos aquilo que achamos que somos e que definimos. Somos, sim, a construção que os outros fazem de nós. Essa é uma ideia que está sempre presente, não apenas nos espetáculos, mas em nós como indivíduos.

Tendo, por norma, o objetivo de fugir aos cânones do teatro e de recorrer a dispositivos multimédia, o que podemos esperar de “Party”?

CP Gostava que este espetáculo fizesse uma espécie de revisitação de tudo o que está para trás, mesmo ainda não sabendo se vai ser transposta cenicamente.
JN Há um conjunto de elementos plásticos que temos vontade de convocar para este espetáculo. E isso relaciona-se também com essa ideia de identidade da Estrutura, de a tentarmos transpor para palco, de poder olhar para o percurso. E isso faz parte da proposta do próprio projeto, que tem esta premissa de olharmos para os dez anos de trabalho e de convidarmos um grupo de artistas para colaborar no trabalho da Estrutura.
CP A ideia com é que eles possam oferecer-nos uma prenda, a ser trabalhada cenicamente. Isso, de certa forma, vai também estipular a plasticidade da peça. Porque estamos a convocar prendas de luz, prendas de texto, prendas de vídeo. O nosso trabalho tem sempre uma premissa bastante plástica, damos tanto valor ao texto como à imagem ou a um vídeo. Para nós, nenhum elemento tem mais valor do que outro. Nenhum ator é mais importante que um projetor, na medida em que tudo concorre para o mesmo objeto artístico.
JN Não há uma hierarquização dramatúrgica, digamos assim. O texto, a encenação ou o trabalho dos atores têm o mesmo significado que os restantes elementos do espetáculo. Ou seja, tudo pode ser uma produção conjunta em que não existe, de facto, hierarquia na construção de sentidos e de significados.

Numa lógica de experimentação, ao longo do percurso da Estrutura realizaram diversas colaborações. De que forma é que os artistas escolhidos (José Maria Vieira Mendes, Rogério Nuno Costa, André Godinho, Vasco Rodrigues, Daniel Worm d’Assumpção, Jordann Santos, Pedro Nabais) contribuíram para a criação de “Party”? As prendas dos artistas acabam por ser o ponto de partida do espetáculo?

CP Sim, é mesmo uma proposta relacional. Chegarem e proporem, em vez de sermos nós a apresentar o tema sobre o qual gostaríamos de pensar. Temos um tema, claro que sim, mas é uma forma de eles poderem injetar pensamento e de nos provocarem. Esse pedido de provocação é muito importante e vai definir a resposta que vamos dar.
JN A partilha dos colaboradores é também um dos pontos de partida essenciais deste projeto. Pensar a nossa identidade, até reciclar alguns materiais cénicos de alguns espetáculos e convidarmos um conjunto de colaboradores que são a nossa “família”. Esta ideia que tínhamos do espetáculo-prenda é, então, convidarmos esses colaboradores para fazer uma residência connosco e depois eles nos oferecerem uma prenda, a partir do trabalho que é feito nessa residência. O projeto será o resultado de uma junção de todos esses períodos de trabalho. E, por isso, convidamos um conjunto de colaboradores com quem temos trabalhado ao longo dos tempos, e outros que vão também participar e colaborar. E o público!

Entrevista realizada a 28 de maio de 2019 no Foyer do Teatro Campo Alegre, por Ana Luísa Sousa, estagiária do Gabinete de Comunicação do TMP
Fotografia © José Caldeira / TMP