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1 Outubro 2019

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... Perguntas a Joana Providência & Maria do Céu Ribeiro

O novo espetáculo do Teatro do Bolhão, "Auto-acusação", a partir de uma das intituladas “Peças Faladas”, de Peter Handke, estreia nos próximos dias 4 e 5 de outubo, no Teatro Rivoli. Como é que surgiu esta colaboração e o que vos interessa explorar no texto do Peter Handke? Como irão cruzar e relacionar a dança e o teatro nesta peça?

Joana Providência (JP) O trabalho, na verdade, surgiu porque eu tinha uma enorme vontade de trabalhar este texto, por achar que era um texto pertinente, interessante e que me fazia todo o sentido explorar. Este texto trabalha a palavra – é o foco do trabalho – e eu já conhecia a Maria do Céu, já tínhamos trabalhado juntas e, porque era mesmo muito importante a palavra, só faria sentido trabalhar com ela. Por isso, propus à Maria do Céu construir comigo este trabalho, que vive naturalmente dessa vontade e desse partilhar contínuo na construção do espetáculo.
Maria do Céu Ribeiro (MCR) É um texto que a Joana já queria fazer há uns anos, acho eu. Eu lembro-me de em 2000 a Joana já falar deste texto como um dos textos que ela gostaria muito de fazer. E agora parece que está a ser possível! Sobre o equilíbrio, ou a relação do texto com o movimento... eu não sei se me consigo pronunciar muito bem sobre isso... Está a ser um processo muito experimental, estamos a descobrir o que o texto é, como lidar com ele, como o dizer – o que é uma tarefa bastante árdua. Portanto, estamos ainda numa fase de quase escavação a esse nível. No início dos ensaios montou-se uma espécie de estrutura de espetáculo para corresponder a uma necessidade que a Joana tinha de “dar ouvir o texto”. Ela tem dito nos ensaios, já por várias vezes, “isto são só estratégias para dar ouvir o texto” – e é isso que estamos a tentar fazer. Nesta fase, já conseguimos ter uma noção da direção em que queremos ir com a palavra, com a intencionalidade, enfim… Mas ainda é preciso desenvolver mais esse trabalho para agora equilibrar nessa estrutura mais de movimento que foi construída.

Num texto tão confessional, instrospetivo e pessoal, como pensam transformar a voz individual, o "eu", numa voz coletiva através dos diferentes intérpretes?

MCR A minha esperança é essa, é por aí que eu aposto, precisamente. Que as vozes sejam plurais. A raíz onde nós queremos chegar – não é de onde nós partimos, é onde nós queremos chegar - é precisamente aí: a pluralidade das vozes e dos seres, tanto no singular como no plural.
JP Sim, até porque nos identificamos muitas vezes com ele [texto], com a nossa própria história, mas muitas vezes também nos identificamos com ele através da história da humanidade. Há sempre esse plural também. Ou seja, é um percurso individual e é um percurso coletivo.
MCR Sim, às vezes quando se diz “eu”, na verdade, estamos a dizer “nós”. Podemos estar a dizer “nós”, podemos estar a dizer “vós”, podemos estar a dizer “eles”, podemos estar a dizer “tu”. Este “eu” é muitíssimo abrangente.

Ao lermos a sinopse de "Auto-acusação", percebe-se que vos interessa reavaliar a intenção de Handke no momento em que escreveu a peça e na relação com o público. De que forma poderá o público encontrar o seu "eu" neste texto e interpretar esta peça hoje?

JP
Sim, o contexto político é outro. Não é o da altura em que foi escrito, embora muitas vezes no processo nós falemos desse contexto – aquele em que Peter Handke estaria quando escreveu este texto. Mas há muitas frases que se encaixam perfeitamente na atualidade! E que se calhar fazem hoje ainda outro sentido.
MCR –
Sim, o “eu falsifiquei a opinião pública”, por exemplo…