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18 Novembro 2019

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... Perguntas a Sereias

O “País a Arder” foi lançado no dia 5 de novembro e é o vosso disco de estreia. Lemos que é uma espécie de música de intervenção. Estando ou não confortáveis com esta designação, a vossa música acaba por ser uma resposta à sociedade atual, ao modelo de governação e ao sistema político. Porquê esta opção e que temáticas abordam neste disco?

António Pedro Ribeiro (APR) Isso tem a ver com a situação mundial e com a situação portuguesa. Penso que se assiste, neste momento, a uma situação em que há uma espécie de máquina global que controla e vigia a consciência das pessoas, o seu pensamento e comportamento via meios informáticos, televisão e outros media. Isto leva as pessoas a enveredarem por determinados comportamentos e a ficarem muitas vezes doentes psicologicamente, com depressões, ou outro tipo de doenças mentais. Sobem cada vez mais as taxas de suicídio e há também uma espécie de esquizofrenia global com todo este caos que se gera a nível mundial com o [Donald] Trump, com o [Jair] Bolsonaro, mesmo com estes líderes supostamente moderados como o [Emanuel] Macron, a [Angela] Merkel, o [António] Costa – que no fundo acabam por ser todos eles capitalistas. E há todo um perigo disto descambar... Ainda por cima com todo um fascismo que cresce cada vez mais e que pode, de facto, destruir o planeta. Felizmente, têm aparecido movimentos contrários a isso como por exemplo a Greta Thunberg... Estes movimentos ecologistas pela salvação do mundo são uma urgência. O mundo está de facto em perigo. A humanidade está de facto em perigo. Depois há outros movimentos de reação em Barcelona e isso não acontece por acaso. Estão também a acontecer em França e mesmo na América Latina. Parece que há um novo movimento à esquerda e tudo isso vem acontecendo. Isto porque há uma clara redução da sociedade à economia – as pessoas são tratadas como coisas, como mercadorias. Tudo é visto como economia. O “Deus-Dinheiro”, o dinheiro e o poder. Depois há também a luta pela vida. “Os macacos que trepam uns para cima dos outros”, como dizia o Nietzsche. Porque as pessoas também não são inocentes, também têm culpas, também se deixam levar e envolvem-se numa luta pela vida e uma luta pela sobrevivência – por isso trepam umas por cima das outras em luta pelo dinheiro, pelo lugar, pela carreira. E isso é quase animalesco.

Consideram então que a música pode ter um papel ativo nestas questões?

APR Eu penso que a música já há muitos anos que tem este papel ativo. Em Portugal, desde o tempo do Zeca Afonso e do Adriano Correia de Oliveira, do José Mário Branco, e depois dos Mão Morta ou dos UHF… Aqui em Portugal, a música sempre teve esse papel importante, e no estrangeiro também. Mesmo os Rolling Stones na sua fase inicial denunciavam o status quo, ou os The Doors. Portanto, a música sempre teve um papel importante na denúncia do capitalismo e dos seus abusos.

Este tema do caos generalizado também acaba por transparecer na vossa música. Vocês utilizam jazz, punk, kraut – há toda uma mistura de sons. Esta utilização de várias texturas sonoras resulta primeiro da palavra e das letras que incluem nas músicas ou surge de improvisação e da experimentação, durante os ensaios?

Tommy Luther Hughes (TLH) É assim, planeado não é! (risos) Nunca é planeado! Mas sim, muitas vezes nasce das letras e nasce do texto – vamos “atrás” da poesia do António Pedro –, mas por vezes acontece o contrário também e nasce primeiro a música através da improvisação. Em termos de estilos, se é jazz ou se é punk, também não é planeado. Nós fazemos barulho – e barulhos muito esquisitos – e é uma coisa de caos e depois… não há regras, quase que não há disciplina musical. Tal como os ensaios, os concertos são totalmente improvisados – não temos músicas, não temos estrutura, não temos setlist. E se tentarmos controlar aquilo, ou manipular demasiado, acaba por não funcionar. Já tivemos ensaios com músicos com muito talento e técnica que diziam “vamos agora repetir esta parte” e “agora tu tenta fazer isto ou aquilo”, ou seja a tentar estruturar e por alguma razão as Sereias não funcionam… é verdade! Já experimentamos criar estrutura, criar regras, mas não funciona mesmo.

Essa liberdade – sem estrutura, sem regras – é também uma resposta a este caos atual.

TLH Sim, completamente! E não digo que a estrutura e as regras sejam más ou que não funcionem. Eu tenho imenso respeito por isso e acho que as regras ajudam em certos aspetos, e que na maioria das vezes as regras estão lá para serem quebradas. Mas para nós aquilo não funciona. Ou então ainda não descobrimos como é que isso resulta! (risos)

Falavam que os vossos concertos nunca são iguais aos ensaios, os ensaios não são iguais aos discos, o que está no disco não é o que se encontra nos concertos. Como é que se conseguem encontrar neste caos aparente? Há pontos de ligação? A voz vai atrás dos instrumentos? O que guia o quê?

APR Acho que é tudo muito espontâneo… é a tal liberdade. Uma liberdade quase absoluta, é passar para o reino mais puro. É um caos, mas ao mesmo tempo passas para um reino mais puro, mais livre.

Quanto tempo demorou o processo de composição/criação do disco? Houve uma vontade de não forçar nada e de deixar respirar as músicas?

TLH A gravação do disco foi feita por nós, no estúdio do Theatro Circo, em Braga, – um sítio fantástico! – e foi da mesma forma: um dia inteiro de improvisação. No fim do dia tínhamos 7 horas de material que tivemos depois de editar. A razão pelo qual demorou imenso tempo a lançar o disco foi porque fomos nós próprios a fazê-lo. Foi o Nils [Meisel], o João [Pires], nós… É um processo que demora muito tempo! Condensar material de 8 horas para menos de 1 hora com 10 músicas, e sem fazer overdub nem nada disso e utilizar mesmo matéria crua… demora algum tempo. Por outro lado, também achamos que há um certo tempo para se fazer as coisas. A própria Lovers & Lollypops também tem uma agenda e depois ainda há a criação da parte visual e do artwork do Francisco Laranjeira – isso tudo demora tempo. Podíamos ter feito antes, mas há muita gente envolvida.

O Francisco Laranjeira vai também participar neste concerto no Understage, no dia 29 de novembro, com uma série de vídeos a partir dos filmes de José Alves de Sousa relacionados com a altura do PREC. Como será a junção destas imagens com o ambiente do Understage e a vossa música?

TLH O espaço é fantástico! É um espaço muito fixe e acho que tudo vai encaixar muito bem. O Laranjeira é um grande maluco e gosta de desafios, de chegar a um sítio e manipulá-lo. E se fosse muito fácil era aborrecido! Ele conhece muito bem e gosta muito da banda e acho que os visuais dele, o estilo de arte e o caos que ele também emite que encaixa mesmo bem com a nossa música e com os textos.


Fotografia © DR
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