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28 Janeiro 2020

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... Perguntas a Tiago Correia (A Turma)

 “Turismo”, que estreia esta sexta-feira e no sábado – 31 de janeiro e 1 de fevereiro – no Teatro Campo Alegre, aborda a temática do turismo. De que ponto de vista é abordado este tema?

Tiago Correia (TC) Este trabalho é sobre “Turismo”, a partir de vários pontos de vista. Fala de turismo como que uma obsessão, como uma espécie de doença do nosso quotidiano. É impossível passar um dia sem haver uma conversa sobre um despejo ou sobre o ruído que se passa nas ruas, sobre não conseguires mexer-te na Estação de S. Bento ou ainda sobre estares sempre a ser fotografado. Mas, acima de tudo, é da perspetiva de quem é da cidade e de quem sofre realmente com isto - com esta obsessão e pressão imobiliária. A questão da habitação é central nesta peça.

Este espetáculo é coproduzido pelo Teatro Municipal do Porto e pelo Cine-Teatro Louletano, e nasce de um processo de investigação e experimentação transdisciplinar, desenvolvido entre Porto, Loulé e Barcelona…

TC Isso era a premissa inicial, mas na verdade esta peça é muito mais abrangente do que isso e acaba por não estar focada em grandes cidades como Paris, Londres, Veneza. Foca-se mais em cidades de média dimensão que estão a sofrer com isto há poucos anos e que não sabem lidar com esta situação. Ainda têm a possibilidade de lidar bem ou de criar regras, que ajudem a que não aconteça o mesmo que aconteceu em Barcelona e Veneza - e que é traumático!
Porque vivo aqui - o Porto é a minha residência permanente – foi uma pesquisa constante. Este projeto está a ser pensado desde 2017 e, ao longo destes dois anos, vi pessoas a ser despejadas à minha volta e eu com medo de ser despejado também, um prédio a ser destruído há um ano e meio… Mas não é só no Porto, também fomos a outros sítios. Este espetáculo é uma coprodução com o Cine-Teatro Louletano e, por isso, também estive em Loulé, em residência. No Algarve a temática do turismo também é muito pertinente, apesar de ser de uma maneira completamente diferente. Aquilo que aconteceu no Algarve já foi há 30 anos – ou seja, a grande transformação já aconteceu há muito tempo. Neste momento, toda a gente vive do turismo. Quem lá está precisa do turismo. Enquanto que aqui ainda há outras possibilidades de existência. No entanto, podemos caminhar para aquilo, não é? Isso é uma das questões centrais: as perspetivas de futuro. Aqui escrevi uma cidade anónima, criei uma geografia que é um misto de várias cidades, em que consigo ver referências concretas do Porto, de Aveiro e de Faro.

Como serão as personagens, tendo em conta que o espetáculo aborda a turismo de diferentes perspetivas?

TC Todas estas personagens não têm nome. Aqui falamos de teatro psicológico, completamente assumido, e falamos de vidas completas e não de tipos sociais.
Temos uma rapariga, que é uma das personagens centrais da peça e que é uma sobrevivente. É uma jovem que quer ser artista, mas na verdade só trabalha no turismo – o que é muito comum! Trabalha num quiosque de manhã, à tarde faz visitas guiadas, por vezes ainda faz uns jantares AirBnB para turistas e, quando consegue, ainda aluga a sua casa ilegalmente – e esta vai ser a questão da peça. Depois temos o seu senhorio, que é um polícia e que também tem uma vida decadente: trabalha de noite e o seu trabalho resume-se a limpar das ruas aquilo que pode manchar a imagem da cidade. O polícia tem uma mãe - que é uma outra personagem - que é uma senhora de idade muito doente. Estas duas personagens são os senhorios da rapariga. Vão para os subúrbios para tentar que a renda do centro lhes dê uma margem para viver. No entanto, a grande vontade da senhora idosa é morrer na casa dela e, portanto, vive um final de vida muito infeliz nos subúrbios.
Tudo isto serve para percebermos que são efetivamente questões complexas. Vejamos, esse polícia precisa mesmo que a rapariga pague a renda. E a rapariga faz tudo o que pode, mas ainda assim atrasa-se no pagamento. E cada vez que ela se atrasa isso cria um caos na vida da outra família. Existem ainda outras personagens. Existe uma mulher, que é uma sem-abrigo, mas que nem sempre viveu assim e nem é uma ressaca. É apenas uma pessoa que perdeu a casa e é uma mulher que vai lutar pela justiça na peça. Temos um jovem turista, que é francês (e que fala sempre francês). Este turista é também um fotojornalista, que trabalha em missões no Mediterrâneo e que vem com um trauma que se relaciona com o ato de fotografar e de não poder intervir nas situações. Aqui cria-se também uma reflexão sobre o ato de fotografar: o que é isto de andarmos todos a tirarmos fotografias uns aos outros?
Portanto, há também um trabalho sobre a imagem. Aliás, o próprio espetáculo integra isso – há um trabalho interdisciplinar, com vídeo no espetáculo. Esse jovem vai ser então envolvido nesta comunidade de pessoas locais – a rapariga, a mulher, o polícia e a sua mãe – devido a um acidente e vai criar uma relação com essa rapariga, que vai ser uma espécie de milagre para ele. A verdade é que depois vai embora. Por fim, temos a última personagem que é um investidor estrangeiro.
Este assunto do turismo é complexo, e aqui tentamos não julgar. Tentamos criar circunstâncias para que cada personagem que tornasse legítimos os seus objetivos. As personagens guerreiam-se, digladiam-se. Ninguém quer fazer mal a ninguém, mas é quase como se a única forma de sobreviverem fosse fazer mal aos outros, inevitavelmente. Das duas uma: ou a rapariga paga a renda a tempo ou então a outra família sofre e, portanto, terá de lhe pedir a renda. É um jogo de forças. E é um bocadinho esta sensação que nós temos de ser estrangeiro na nossa própria cidade.

Como foi o processo de criação para este espetáculo?

TC Neste processo específico em que andei dois anos a namorar e a pensar no tema, acabei por decidir que os atores seriam a última coisa a chegar e acabei por decidir também que antes de partir para o texto – visto que já tinha uma equipa artística convidada, o Rui Monteiro, o Rui Lima e o Sérgio Martins, a Ana Gormicho, o Francisco Lobo, a Sara Miro – ia partir para um laboratório, em julho. Falamos sobre esta temática e colocamos ideias em cima da mesa, partimos do que nos interessava trabalhar, até porque não é só a questão do turismo, é também a questão artística, tendo em conta estamos aqui para fazer teatro e para crescer como criadores e artistas e tentei que isto partisse da equipa plástica do espetáculo. Depois desse laboratório fui para o Algarve em residência e foi depois dessa pesquisa, dessa recolha de imagens, dessa recolha de entrevistas e também de pesquisa bibliográfica e das inúmeras notícias que saem diariamente por todo o mundo sobre isto e a peça não pode falar sobre tudo; e ainda assim é gigante. Havia tantas situações difíceis que também era difícil ser superficial no assunto. No final houve uma longa fase de escrita minha sozinho, a tentar integrar todas essas premissas. E pensar que tenho um espetáculo para fazer, mas que acima de tudo tenho um texto para escrever e que também me interessa lutar pela arte dramática, pela literatura dramática e acreditar que é possível ler uma peça, que não temos de trabalhar só em guiões ou dramaturgias. É possível pensar que um texto de teatro – porque o é – é de facto literatura e que pode existir independentemente do espetáculo e isto como dramaturgo interessa-me. E este processo culminou na edição do livro, sim.
Depois iniciamos um processo maravilhoso de estudo do texto – no fundo é uma prática nova que estou a usar como encenador. No fundo é trabalhar o texto não pela superfície, mas a partir das situações. Portanto, os atores é que criam, eles é que propõem, com improvisações muito precisas que partem do texto, mas não das palavras. Durante um mês lemos o texto em conjunto uma vez e todas as improvisações eram feitas nas suas próprias palavras. A procura foca-se na verdade, do jogo e da situação e da conexão entre os atores. Tudo isso para depois de forma muito precisa chegar ao texto. Já não é só este texto, já é um outro texto, que é o da ação. É o texto deles. Portanto estes atores são os criadores desta metamorfose que é passar do papel para o palco. Também aqui não estamos na ditadura do texto.
Queria apenas referir que a tradução do francês é da Regina Guimarães, que fez consultoria artística do projeto - não queria deixar de o dizer.
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