Novembro2018

Dom4

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... Perguntas a Martim Pedroso

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Este é um espetáculo inspirado na “Filosofia de Alcova”, da autoria de Marquês de Sade, que, na sua época, ousou escrever este texto para prevaricar ostensivamente a aristocracia e a igreja católica. Qual o motivo da escolha deste texto para apresentar em palco? Será por se manter atual nos dias de hoje e por poder funcionar como uma espécie de critica à sociedade em que vivemos?

Sim, este texto é um dos maiores manifestos que foram escritos e um dos textos filosóficos mais arrojados, não só por ser uma filosofia que tem muito sexo e de ser uma espécie de guião de como se constrói uma nova ordem mundial através da sexualidade, mas também por ser uma reflexão sobre os diferentes gostos sexuais, sobre as diferentes práticas sexuais. Obviamente que isto é uma marca do Marquês de Sade, assumido como um libertino que através deste texto procurava na altura, acho eu, fazer despertar toda a doutrina da libertinagem nos leitores. E isso é também o que me interessa neste texto, que consegue ser ainda muito atual nos seus temas e na forma prevaricadora com que aborda a questão do sexo.

De que forma é que “Boudoir – 7 diálogos libertinos” celebra a liberdade de pensamento da sociedade contemporânea?

Este texto promove a liberdade do pensamento porque, como qualquer texto filosófico, apela ao pensamento e à reflexão da sociedade. E, na verdade, é um texto filosófico que coloca em cena toda uma disponibilidade física e uma liberdade sobre o corpo. É um trabalho sobre a liberdade de pensamento e sobre a liberdade do corpo, física, pois só desta forma é que a sociedade pode desagregar-se da hipocrisia e das ideias que prendem o ser humano.

De que forma é que este espetáculo se enquadra na linha programática do teu trabalho e do trabalho da Nova Companhia e quais as características que são já visíveis neste espetáculo que possam criar pontes, desde já, para próximos trabalhos?

Eu faço coisas muito diferentes, não me preocupo muito com uma linha. O que me move no meu trabalho é quase sempre o desafio de qualquer coisa ser impossível de fazer, à partida. E acho que este texto é um texto impossível, mas nada é impossível, tudo é possível desde que se tenha visão sobre as coisas, desde que haja uma disponibilidade também para errar e para poder pensar sobre aquilo que se está a fazer. É um texto filosófico que tem um registo também muito teatral. Portanto são 7 diálogos, toda a doutrina do Sade, é exposta em forma de diálogo. E existe aqui qualquer coisa que me impele a construir um espetáculo sobre esta obra, não só pela obra, mas por todas as cenas. Pelo que ele diz, por aquilo que ele representa, mas por outro lado há essa possibilidade que acho que é transversal a todos os meus trabalhos, essa ideia de impossibilidade. De como é que vou fazer isto? Não me interessa fazer coisas fáceis, que sei que à partida vou fazer bem! São tudo mundos que vou descobrindo no meu trabalho, não só dos meus, como os do João [Telmo, ator neste espetáculo], dos nossos convidados. Portanto, na Nova Companhia, nós queremos ter essa ideia adjacente: nada está escrito como fazer! No teatro não há uma forma de fazer as coisas. Cada coisa, cada objeto é algo que levanta muitas questões nas quais o erro é uma das características pelas quais nós podemos passar.


Fotografia © Alípio Padilha
Nova Companhia