Novembro2018

Qua21

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Revoluções: a dança múltipla dos corpos

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Por Rossana Mendes Fonseca

Há som instalado na sala onde se vai dançar Revoluções. Focos redondos de luz em ziguezague iluminam o palco e o público. No palco ainda deserto, apercebemo-nos de dois microfones de cada lado, que caem do tecto.

Ainda em meio de nos aquietarmos, desviando brevemente o olhar para a folha de sala, aparecem no corredor central corpos dançantes. Nesse corredor, invisivelmente delimitado, dançam à medida que descem lentamente as escadas. Compenetrados nesse fluxo até ao palco, que ora se suspende ora se re-activa, quase nos escapa o vislumbre de uma mancha de cor, que passamos a olhar. Alguém se move vestido com um fato de corpo inteiro cor-de-rosa. Através destes movimentos de chegada, de alcance, de suspensão, há duas vozes que se fazem ouvir em cada microfone. É dada voz àquele que dança: não a concretização de palavras definidas, mas um murmúrio ondulante, o encontro subtil entre o plano sonoro que escutamos e o corpo que vemos dançar.

Agora já todos os seis bailarinos usam figurinos que consistem em fatos de corpo inteiro, um de cada cor: vermelho, branco, azul, cinza, verde e rosa. Figurinos que nos apontam para essa abstracção que poderá ser a individualização identitária pela nacionalidade, mas também o meio operático em que se movimentam. Há esta presença visual forte de blocos de cor animados, que se conjugam, que se atraem, que se repelem, que se cruzam e se sustentam. Que dançam singular e colectivamente. Pop ecléctico. Os filamentos luminosos horizontalmente suspensos no tecto como que traçam as linhas esparsas dos seus gestos. Há ainda a sensação de um mecanismo de relógio a marcar o tempo dos corpos como um ballet mecânico que, dançando, ora sim, ora não, ao ritmo desta cadência cronometrada, parecem sentir nos entreactos, como também nós o sentimos, uma arritmia, a urgência do contratempo. O fulgor, talvez, de uma ideia, em meio de ser, uma agitação, uma procura efervescente: O caminho que sabemos sempre infinito mas para o qual somos impelidos, para o qual sentimos o impulso de nos lançar.

É nesse caminho que os seis corpos se lançam, pulsando com e através do som. A aparição de um tecido vermelho, empunhado por estes corpos de cores vibrantes, parece-nos evocar, de repente, a imagem da Liberdade de Delacroix. Ao mesmo tempo, da herança literária, sabemos que o vermelho antecipa simbolicamente o derrame de sangue, o avizinhamento de uma morte. O vermelho estende-se e é modulado à medida que a dança se desenrola, tomando uma forma mais concreta no corpo que nele mergulha e dele quer irromper. Vê-se definir uma figura humana, imersa em vermelho, como um recém-nascido, ou a imagem da matéria arquetípica em meio de se formar. Tabula rasa. Uma ideia também evocada nas telas brancas mais pequenas que cada bailarino transporta, cobrindo o seu rosto e parte do seu corpo. Cada um com a sua tela. Com o seu dispositivo. Organizam-se numa trama que as telas e, ao mesmo tempo, ecrãs fazem tornar presente. Nelas vemos fragmentadas as imagens da projecção: encontramos elementos anímicos da natureza, no seu estado selvagem. Imagens que duram e que, no seu desenrolar, nos permitem, ao mesmo tempo, um tempo de contemplação, de tactear a sua parte de sombra e a sua parte de luz, mas também, e nesse tactear, a batalha insistente de percorrer o caminho sinuoso da caverna. O caminho do auto-confronto. E, como quando saímos de um lugar escuro, piscamos rapidamente os olhos para nos adaptar à luz de fora, aqui também recebemos um feixe luminoso entrecortado — strobe — sobre nós, que nos revela imagens em catadupa, imagens fixas, que não conseguimos fixar, que nos escapam a toda a velocidade e nos criam esse desequilíbrio da memória, sem tempo de latência, sem tempo de experiência. Fragmentárias, essas imagens são projectadas nessas telas brancas, nesses ecrãs, que se movem com o mover individual daquele que o segura. Neles, vemos surgir, então, uma árvore que dança ao vento e que nos interpela, ainda outra vez, quanto a este tempo de contemplação, de duração: a árvore, ainda que pareça sempre permanecer no mesmo lugar, com as suas raízes que a fazem elevar-se ao longo do tempo, e sem qualquer deslocação no espaço, atravessa toda a nossa cronologia e assiste à nossa história. Esta imagem, que nos subtrai ao estado vertiginoso da aceleração imagética do mundo, faz-nos descer até ao solo, onde vemos ervas rasteiras, com o mesmo movimento ondulante, ao vento. Imediatamente, encontramos o seu lado de sombra. Dá-se uma mutação: subitamente, ficamos perante aquilo que nos surge como o negativo, o desenho de ondas de frequência, ao ritmo de impulsos eléctricos. Parece tratar-se da subtracção da parte de luz, também imputada aos bailarinos, que ficam reduzidos aos seus contornos projectados no fundo — silhuetas.

A tela sobe. Somos iluminados pelos mesmos focos iniciais. Em palco, um piano preparado. Há alguém que nele toca. Uma sonata. Somos novamente arrebatados: à luz, os corpos dos bailarinos assomam, desenham no espaço trajectórias de cor, pela combinação dos gestos e da dança que acontece entre si. Observamos, por momentos, a sua reorganização colectiva e, individualmente, esgares, como se pronunciassem de modo excessivo palavras isoladas, enquanto oscilam num movimento pendular. Pendular é também o deslocamento dos microfones posicionados nos quatro quadrantes do palco, que os bailarinos impulsionam e que nos devolvem o som da agitação do ar. Ainda, vento. Abandonam o palco. O som persiste.

A luz baixa. Presenciamos um novo ambiente. Numa quietude ainda tensa, dois corpos nus de mãos dadas, como se sondassem este novo solo, entram em palco. À procura, caminham em desequilíbrio, cambaleantes, expostos, dançando. Percorrem-no de um lado ao outro. Deixam-no. Devolvem-nos o palco aberto. A luz cai.

Né Barros, Haarvöl e Digitópia encontram-se nesta multiplicidade de corpus — corpos de texto, corpos coreografados, corpos sonoros, corpos imagéticos — que se intersectam, se contaminam, se confrontam, dançando-nos intimamente as suas Revoluções


Fotografia © José Caldeira / TMP
Um registo livre a partir dos espetáculos da temporada para reativar o discurso das conversas pós-espetáculo e repensar o nosso tempo.