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12 Fevereiro 2019

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Sobre Unwanted, de Dorothée Munyaneza

Um registo livre a partir dos espetáculos da temporada para reativar o discurso das conversas pós-espetáculo e repensar o nosso tempo.
Por Raquel S.

Ao longo dos tempos foram perguntando o que é uma mulher, como é uma mulher, que corpo, carácter, que biologia, como se define uma mulher, pela identificação com um corpo tão sensível, tão intuitivo, tão forte para governar casas e pequenos sistemas, escondida em sombras de homens, grandes, enormes, que não são definidos pelo corpo a não ser pelo poder, que se impõem ao corpo fértil das mulheres, que dominam, que organizam, que mandam, que são maridos, irmãos, pais, que são homens atrás de secretárias que decidem coisas por outros homens, que assinam papéis, que criam distâncias, que inventam etnias, que estimulam guerras para terem lucro, que criam fações, que criam guerrilhas, que matam os outros, que tomam territórios, que tomam corpos de mulheres, que não têm hipótese, que sabem que não há nada a fazer, que a seguir vem outro e faz o mesmo, e as doenças, e os maridos mortos e os irmãos mortos e as mães mortas e as filhas e os filhos mortos
E quando acaba é só uma linha na História, uma linha que não respira, uma linha que não responde, uma linha que exclui, uma linha que esconde, uma linha escrita por cima de outras linhas, uma linha que esquece as linhas que tinham sido escritas antes, uma linha em que a palavra “genocídio” é igual à palavra “mas” ou “quando” ou “negócio”, que se atravessa sobre tempos e espaços e corpos de homens e mulheres e que se resolve com um ponto final
Mães que se espera que fossem mães e por isso mulheres e por isso mães, que se espera que amem, que se espera que gerem, que giram, que carreguem dentro o filho do agressor, filho de um homem que guerreia, que guerreou, ou do que veio a seguir, não sabem, as mães que se espera que amem, que amamentem, porque se espera que uma mulher seja uma biologia, não um contexto, e que tenha útero e coração e lágrimas, e que seja determinada por essa doçura, por esse amor incondicional, esse amor biológico concretizado pela maternidade, mulheres que são definidas como mulheres, que se espera que se submetam aos filhos, que amamentem, que se submetam aos dentes dos filhos como aos dentes dos pais, como às mãos dos homens, às mãos dos filhos, mulheres que foram postas em linha, as mães ao lado das filhas ao lado das mães ao lado das filhas
O trauma dos outros não custa, o trauma dos outros não dói, o trauma dos outros que se lamenta, que espera em páginas de jornal, que se lê à lareira, o trauma de que se foge corre esquece corre, corre para não se ser colonizado também por dentro, como um buraco no cérebro que pertence a um agressor, o trauma que é de cada mulher individualmente, mas o mesmo repetido até ao impossível, um trauma que é de todas, repetido como as rotinas, um trauma que separa as mulheres do mundo dos vivos, as esconde, que as afasta, um trauma que se transforma em pessoa no corpo do filho, no corpo da filha, no corpo daquele bebé que já é uma hiena, no corpo de uma criança que já tem os olhos do agressor, que morde, que grita, que bate, um trauma que não deixa as mães verem os filhos, só sucedâneos do homem que, ou será o outro, ou será o outro a seguir, uma criança que carrega doenças, que carrega o pai, que dorme separada das outras, separada da mãe, do corpo da mãe, que carrega as ideias dos outros, o que é ser-se mulher, mãe, tutsi, um corpo que vive das histórias dos outros, dou-te um conselho: mata essa criança antes de que abra os olhos, um corpo usado para a guerra dos outros, como arma dos outros, invadido por outros, que gera um corpo impossível de amar, impossível de existir, gera hienas, gera um corpo sem culpa que carrega a culpa dos outros, a história dos outros, a guerra dos outros, o pai que nunca viu, um corpo que não assina papéis, que não comanda guerras de longe, que não coloniza, e só padece
Se se ouvir bem esta história, esta história não acaba
 

Fotografia © José Caldeira / TMP
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