Jorge Andrade

20 Fevereiro 2019

Jorge Andrade

Entrevista

sobre "A manual on work and happiness"
Jorge Andrade • 45 anos • Ator e encenador

Em março, é apresentado o espetáculo “A manual on work and happiness”, no âmbito do Paralelo — Programa de Aproximação às Artes Performativas. Como se aborda a questão do trabalho e da felicidade no mesmo espetáculo? E como é trabalhar com uma comunidade que não tem qualquer relação com o campo artístico?

A proposta deste projeto tem o nome em inglês, “A manual on work and happiness”, simplesmente porque é uma colaboração europeia, entre vários países. Para este projeto, colaborámos com o autor e encenador espanhol Pablo Gisbert, que já tem vindo a apresentar o seu trabalho no Rivoli, nomeadamente com os El Conde de Torrefiel. O Pablo escreveu o texto após termos estado em residência durante 15 dias — eu, o José Capela e o Pablo — em Itália. A proposta do trabalho consiste em estarmos um mês em residência numa cidade e, neste caso, será aqui na nossa cidade, no Porto, a trabalhar com indivíduos que não tenham qualquer relação com o teatro. E nós obrigamo-los a trabalhar muito para fazer este espetáculo (risos). É um espetáculo que dá mesmo muito, muito, muito trabalho e aparentemente sem propósito nenhum: as pessoas andam para trás e para a frente, a mover umas letras que dizem “trabalho” para fazerem umas paisagens e na verdade não existe outro propósito que não o deleite estético de conseguir realizar a paisagem. É uma condicionante as pessoas não serem pagas para fazer este trabalho porque aquilo que queremos é que venham ensaiar connosco ao final do dia, depois de terem estado nos seus trabalhos. O nosso objetivo é que depois deste mês, ao apresentar o trabalho final, que as pessoas sejam felizes num trabalho que aparentemente — que é o nosso, o teatro — não serve para nada. E explorar como é que se consegue essa felicidade, trabalhando para nada.

O que é que podemos aprender com a maneira de trabalhar dos artistas? E como é ser um artista que trabalha sobre o modo de trabalho de um artista?

Aquilo que eu quero partilhar é o nosso trabalho. Normalmente, o público tem acesso ao nosso trabalho quando os espetáculos já estão feitos. E esta proposta é, de facto, estar com um conjunto de indivíduos — que serão cerca de 20 — que serão introduzidos ao nosso trabalho: como é que trabalhamos e quais são as nossas rotinas, porque, no fundo, é um trabalho como outro qualquer, só que chegando ao final do dia, nós não produzimos um par de sapatos, nem fizemos uma camisola, nem conseguimos não sei quanto de lucro com especulação imobiliária na bolsa ou não conseguimos angariar mais meia dúzia de turistas aqui para a Baixa... Nós fazemos uma coisa em que depois não sobra nada, tirando aquilo que as pessoas possam levar com elas, de uma forma não palpável, depois de assistirem ao espetáculo. E é isso que nós queremos: tentar que as pessoas que não têm hábitos de trabalho artístico possam partilhar connosco o nosso trabalho. E não tenho qualquer pretensão de ensinar o que quer que seja às pessoas. Queremos simplesmente passar um bom bocado e ser felizes enquanto fazemos este trabalho que... não serve para nada.

Neste semestre de programação, e ainda no decorrer desta agenda, encontraremos a apresentação de um outro espetáculo da mala voadora no Teatro Municipal do Porto. Não será uma estreia, mas a reposição de um espetáculo já com alguns anos. Sobre o “Wilde”, que será apresentado em maio, no âmbito do DDD — Festival Dias da Dança, como se misturam os universos do Oscar Wilde, do coreógrafo Miguel Pereira, que colabora no espetáculo, e da própria mala voadora?

Esta é uma reposição de um espetáculo que a mala voadora fez com o Miguel Pereira em 2013 e que parte de um texto de Oscar Wilde, o “Leque de Lady Windermere”. Na mala voadora, se ultimamente tenho escrito mais os textos dos nossos espetáculos, muitos outros textos partem de materiais que não são propriamente os textos dramáticos já escritos para esse efeito. Aqui, quisemos mergulhar num clássico. E não foi um clássico qualquer. Este texto é-me bastante querido porque foi o primeiro espetáculo que fiz profissionalmente quando estava no 1º ano de Conservatório e estava a ensaiar esse espetáculo no Teatro Nacional [D. Maria II] e, infelizmente, desisti a meio desse processo por variadíssimas razões, mas sempre gostei muito daquele texto. Na altura, quando decidimos pegar nesse texto, estávamos a atravessar um período muito conturbado política, económica e socialmente no nosso país e, então, quisemos fazer algo que fosse uma espécie de “espetáculo-bombom”, algo festivo. E, como tal, não encontrávamos referências aqui nas nossas proximidades e resolvemos mergulhar na época vitoriana e irmos ao encontro do Oscar Wilde.
A particularidade deste espetáculo é que nós não partimos do texto propriamente dito do Wilde, mas sim de uma gravação feita pela BBC. No espetáculo, fazemos uma apropriação dessa gravação, salvo erro, dos anos 40. Todos os atores, performers e bailarinos são portugueses, mas apropriamo-nos daquele registo e fomos construindo o nosso discurso com base em algo que nos era distante. No texto do Oscar Wilde o leitmotiv para a intriga do espetáculo é apontar a diferença ou como a sociedade avalia os outros com base na aparência e o que isso pode esconder; aqui, decidimos vestirmo-nos todos de igual: todos com a mesma peruca e todos com o mesmo vestidinho. Isto porque a protagonista era a Lady Windermere e assim somos todos Ladies Windermere na aparência, apesar de sermos o marido, o pai e a vizinha.

Estamos a chegar ao final de duas temporadas de programação em que foste um dos artistas associados do Teatro Municipal do Porto [temporadas 17/18 e 18/19]. Em género de balanço, e percorrendo as duas temporadas, como encaraste o convite e qual a importância desta figura e trabalho nos dois últimos anos?

Quando o Tiago Guedes me falou de ser Artista Associado do TMP, obviamente que recebi a notícia com bastante agrado e ficamos [mala voadora] muito felizes com o convite. Como é sabido, há alguma dificuldade associada à estabilidade para os artistas poderem criar com todas as condições. O TMP dá o exemplo, contribuindo para essa estabilidade com dois artistas da cidade. Criámos uma relação com o TMP que, na verdade, foi mais um aprofundar da relação, porque, desde que o Tiago Guedes passou a ser o diretor do Teatro, começamos a colaborar com o TMP com maior regularidade. E isto foi uma coincidência feliz porque paralelamente nós tínhamos aberto a mala voadora aqui no Porto e passamos a estar aqui mais tempo — a nossa sede passou a ser no Porto. Foi o culminar de uma relação que foi sendo estabelecida ao longos destes anos e estamos obviamente muito contentes com isso, que ainda nem acabou! Na verdade, nem sei a partir daqui para onde é que vamos! (risos).


Entrevista realizada a 26 de setembro de 2018, na mala voadora (Rua do Almada), por Leonor Tudela, assessora de imprensa do TMP 
Imagem © José Caldeira / TMP
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