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"O Dia da matança na história de Hamlet"
Nos dias 15, 16 e 17 de março, o Teatro Experimental do Porto (TEP) apresenta "O Dia da matança na história de Hamlet" no Teatro Rivoli – um novo trabalho que conta com a tua encenação. Que relação tens com a obra de Shakespeare e, mais particularmente, com Koltès?

Em primeiro lugar, a minha relação mais próxima - ainda que conheça e tenha trabalhado Shakespeare anteriormente – é com a obra do Koltès e é esse o meu interesse particular no levantamento deste texto, “O Dia da Matança na história de Hamlet”. Portanto, é via Koltès que procuro chegar a Hamlet e à sua história. Interessa-me em particular o que o autor fez na sua vida, na sua curta vida, e pareceu-me que no contexto da colaboração com o Teatro Experimental do Porto esta abordagem a esta versão do Hamlet me parecia a mais adequada para propor e para desenvolver. 

Em "O Dia da matança na história de Hamlet", BernardMarie Koltès apresenta uma versão mais contemporânea de "Hamlet". Quais são as principais diferenças deste texto reescrito para o original de Shakespeare e, de que forma, as personagens se transformam nesta peça? O que pode o público esperar desta abordagem a "Hamlet"?

Em primeiro lugar, como o próprio título diz, é o “O Dia da matança na história de Hamlet”, portanto é o último dia da história. Toda a trama, toda a história, é condensada num só dia e o Koltès só usa quatro das cinquenta personagens existentes na obra de Shakespeare e são essas Hamlet, Ofélia, Gertrud e Claudius – que compõem o núcleo familiar. Parece-me que Koltès procura centrar toda a trama à volta deste núcleo e dessa forma evidencia as relações que existem entre os seus elementos e põe a nu a violência dos atos. O que ele faz na verdade é muito livremente, creio eu, verter todas as outras personagens – ou muitas delas – e as suas palavras e coloca-las na boca de cada uma destas outras personagens. Podemos reconhecer discurso de Laertes em Hamlet, podemos descobrir Polónio na boca de Claudius ou de Gertrud. Há uma utilização bastante livre que serve um objetivo muito particular que o Koltès tem em contar esta história desta maneira. Creio que ele também quer evidenciar a velocidade dos acontecimentos, as coisas todas acontecem num dia, precipitam-se, e por serem rápidas obrigam à reação imediata sobre alguma situação. As coisas parecem mais evidentes à flor da pele, mais brutas também.
Relativamente ao público há duas possibilidades: os que conhecem a versão do Shakespeare, os que conhecem algumas frases dessa versão de Shakespeare – é daquelas que muitas pessoas conhecem como o “ser ou não ser, eis a questão” – e os que não conhecem toda a história de "Hamlet". Portanto, os que a conhecem relacionar-se-ão com esta versão de uma forma particular e vão reconhecer eventualmente as trocas de papéis ou a confusão das palavras. Os que não conhecem verão ou conhecerão pela primeira vez esta história e aproveitá-la-ão de qualquer das formas. Ambos os grupos estarão perante uma situação de jogo entre o que é a exploração do autor em palco, em cena, perante uma situação e o que acontece às personagens nesta rápida evolução dos acontecimentos.

Como surgiu a ideia desta colaboração com o Teatro Experimental do Porto e da encenação de "O Dia da matança na história de Hamlet"?

Na altura de se definir o que seriam os quatro anos seguintes da produção do Teatro Experimental do Porto, o Gonçalo Amorim, da Direção Artística, convidou-me a mim, entre outras pessoas, para fazer parte de um conjunto de artistas que iria colaborar durante esses quatro anos. Não é a primeira vez que colaboro com o TEP enquanto encenador ou ator, mas desta vez foi particular porque estava para se escrever o que seriam os próximos quatro anos e o que conteriam. Portanto, foi assim que aconteceu.


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