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"W - Concerto encenado para orquestra robótica e marionetas"

Como é que surgiu a ideia desta colaboração entre o Teatro de Ferro e a Sonoscopia, que se traduz na apresentação de “W” nos dias 29 e 30 de março no Teatro Campo Alegre?

Igor Gandra (IG) O convite foi-nos feito pela Sonoscopia. É um projeto que a Sonoscopia já está a desenvolver há alguns anos...
Gustavo Costa (GC) Sim, nós começámos a trabalhar com este grande instrumento que está aqui atrás [no local de ensaios] e que se chama Phobos – Orquestra Robótica Disfuncional e, a partir desse grande instrumento, depois fomos pensando em espetáculos e em composições musicais que pudessem ser exploradas através deste dispositivo. Nós pensámos que, como na altura a conceção já tinha sido feita pelo Teatro de Ferro, seria bom continuarmos esta colaboração e fazermos algo mais elaborado, um espetáculo mais denso, mais rico, com mais áreas artísticas envolvidas. O “W” surge dessa necessidade.
IG Sim, é isso! O “W” é, simultaneamente, para nós o aprofundamento desta relação de colaboração artística, mas também é uma oportunidade para pôr em prática uma espécie de obra de arte total que este concerto encenado acaba por ser. Porque estão aqui presentes uma série de experiências que convocam linguagens muito diferentes. A música, evidentemente, que é uma música muito especial, com artistas muito particulares que parte, em grande medida, dos instrumentos que eles foram construindo ou deste grande instrumento que foi sendo construído ao longo destes últimos anos, que é um processo já longo. Mas também o canto, a marioneta ou o vídeo, que também está presente numa medida muito interessante na peça. E é também interessante para nós pensarmos como é que um tema como este – o trabalho – nos pode permitir falar sobre certas coisas. É um tema muito complexo e acabamos por sentir que é uma dimensão central das nossas vidas. O instrumento, por exemplo, tem horas e horas de trabalho de cada um deles. O trabalho é uma coisa que não nos é estranha na nossa própria prática quotidiana. Eu penso que a peça vive um pouco nesse espaço entre aquilo que são as nossas práticas de criação e, numa visão mais geral, do que é o trabalho no mundo atual. Não temos uma resposta para esta questão, evidentemente, mas temos uma questão a partilhar com os espectadores. E é interessante pensar que a peça vai colocando essas questões de uma forma muito poética mas, ao mesmo tempo, aguda, assertiva.

De que forma se irá percecionar a temática do trabalho na própria dramaturgia da peça, no cruzamento das disciplinas e nos instrumentos utilizados? A questão do trabalho e da tecnologia fará sentir-se na repetição dos movimentos, da música ou na sequência das ações ao longo de “W”?

IG Acho que sim! Eu penso que aí há uma abordagem musical que tem um pouco a ver e que a resposta é o modo como nós nos fomos entendendo ao nível do que são propostas musicais e a relação com propostas dramatúrgicas e de encadeamento de situações. Neste momento, sinto que a peça é muito diversa e muito rica em termos de modos de estar e de convocar o público, o espectador, o ouvinte.
GC Como isto é uma questão tão complexa, nós não temos uma resposta clara nem podemos dar uma resposta para as questões que são levantadas. Mas é interessante reparar como é que nós colocamos as nossas preocupações aqui, através destes instrumentos. Não deixa de ser irónico termos de contruir um instrumento automático, que é esta orquestra, e termos tido muito mais trabalho do que teríamos se tocássemos um a um, por exemplo. Esta questão da máquina, de construirmos máquinas e desenvolvermos tecnologia para nos libertar de um trabalho, acaba por ser também uma forma de nos escravizar. Portanto, há aqui várias leituras que podemos ter. Encarar o trabalho como forma de escravidão que obviamente também o é, mas também temos aqui várias perspetivas sobre o trabalho, o ócio, o lazer, o prazer ou a escravidão.
IG Sim, essa questão da tecnologia e a promessa de libertação que a tecnologia traz acaba por ser um pouco transversal à peça toda. Eu penso que o momento presente é muito claro na forma como essa questão nos coloca porque se, por um lado, todo este processo é atravessado por ela, ao mesmo tempo, nós temos uma série de dispositivos que nos acompanham, que foram supostamente inventados para nos libertar de certas tarefas, mas a verdade é que exigem uma atenção constante e toda-poderosa sobre as nossas vidas. E, no fundo, transformam o nosso tempo livre, o nosso ócio, o nosso direito à preguiça numa forma nova de trabalho. Estamos a contribuir, a partilhar.
GC E estas novas formas de controlo são exploradas também para nos manter neste ciclo de produção e consumo, domínio e submissão. No fundo, estas tecnologias libertam-nos de trabalhos aparentemente mais duros. A visão que tínhamos do operário como o elemento que está na fábrica a sofrer, tem-se vindo a transformar muitas vezes em formas muito subtis de escravidão, que é isso que temos hoje em dia. Supostamente um pouco mais libertos de algumas pressões, mas por outro lado continuamos a ter a pressão do dinheiro, de ter que trabalhar por obrigação, ter que sobreviver.
IG E, ao mesmo tempo, também sujeitos a formas de controlo muito mais sofisticadas, muito mais delicadas, muito mais profundas na maneira como se entranham no nosso modo de viver. Daí essa ideia de que o que nós entendemos como tempo livre ser cada vez menos um tempo livre, na medida que está integrado numa cadeia de produção qualquer.

A um mês da estreia no Teatro Campo Alegre, quais são as vossas expectativas para o concerto? O processo criativo está totalmente fechado?

GC Há cabos para soldar até à última, isto é uma promessa que nós fazemos sempre (risos). Marionetas para reparar até à última. Mas acho que grande parte da estrutura está fechada e temos um processo já bastante avançado. Mas há aqui uma série de pequenos pormenores. Acho que é um dos aspetos mais fascinantes desta peça é ter imensos pormenores e ser muito rica a esse nível. Tem elementos muito pequeninos, que vivem de detalhes muito preciosos, detalhes esses que vão estar sempre a ser aprimorados até ao fim, sem dúvida nenhuma.
IG Acho que há descobertas que se fazem todos os dias. São materiais muito ricos e nós coletivamente temos de cultivar essa atenção ao detalhe e esta tensão entre as linhas gerais da peça – que são mais fortes, mais claras à partida – e aquilo que depois se vai revelando em cada ensaio e que acaba por ser também importante. Até à estreia há muito trabalho a fazer!


Fotografia © José Caldeira / TMP

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