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26 Março 2019

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BoCA - Biennial of Contemporary Arts 2019
Nesta segunda edição da BoCA - Biennial of Contemporary Arts a programação conta com 22 estreias mundiais, 15 estreias nacionais e 53 artistas. Para além disso, estende-se também a Braga. O que podemos esperar desta edição?

Esta segunda edição, basicamente, cristaliza também as nossas relações com as instituições de Lisboa e do Porto. Quisemos também iniciar um conceito que nos é caro, o da descentralização. Já estamos a operar na continuação do ano in da Bienal e na continuação do ano off anterior, mas agora remetemos também essa descentralização para a própria programação do evento da Bienal. Este ano conta com uma terceira cidade convidada, que é Braga. E esperamos que seja também uma cidade diferente em cada nova edição. Portanto, há aqui um reforço, um sublinhar nestas sinergias que já aconteciam entre territórios artísticos, entre instituições culturais, entre duas cidades, mas que agora se expandem para três cidades, permitindo que artistas portugueses e estrangeiros possam apresentar o seu trabalho em cidades onde nunca o fizeram. Por exemplo, há vários artistas a deslocarem-se a Braga e há outros artistas que apresentam o seu trabalho pela primeira vez em Lisboa. Apresentar esses artistas deslocados do seu contexto original ou recontextualizando as suas práticas em espaços que não lhes pertencem, por assim dizer, ou que estão fora da sua especialização artística, é já a identidade da BoCA. O nosso grande objetivo é, sempre, permitir que os diferentes públicos possam conhecer e descobrir uma programação em espaços diferentes, criar uma movimentação dentro de cada cidade, mas também entre cidades, porque há várias obras que são específicas em cada cidade.

O programa deste ano conta com várias temáticas, desde políticas de identidade, género, raça ou a relação do ritual e do sagrado com a contemporaneidade. De que forma se irão manifestar estas questões na linha de programação desta edição?

Há coisas às quais nós não podemos escapar (risos). E, se na primeira edição a Bienal já refletia algumas destas questões, agora quis, de alguma maneira, fazer mais um statement delas e focar, de facto, a escolha de algumas das propostas que integram a programação. Elas no seu conjunto, embora dentro das suas diferenças, referem-se a assuntos diferentes, mas, digamos, que na BoCA há e vai continuar a haver sempre uma reflexão em torno do conceito da presença do sagrado na contemporaneidade. É uma coisa que vai estar sempre a surgir. Mas, paralelamente a isso, ao longo destes dois anos as situações entre as divisões políticas que existem a nível mundial, mas também, infelizmente, algumas divisões sociais e de questões ligadas com raça e xenofóbicas. Todas as questões que assentam no conceito da divisão e da separação surgiram de uma forma muito mais evidente nestes últimos anos, através de diferentes reações reacionárias de vários países e de várias cidades e de vários sub-grupos que, infelizmente, foram acontecendo. Temos na memória recente cá em Portugal que, basicamente, condicionaram e condicionam a nossa perceção de ver a realidade e, às vezes, a história. Também me interessa muito pensar como é que o poder reconta ou escreve a história, mas em seu proveito. Aqui as artes, que já têm naturalmente essa valência e esse direito de dar voz às minorias, às injustiças, são muito importantes. Parecem fazer sempre um contrapeso com todas as grandes verdades que a política e o poder vem instruíndo. E, portanto, nesta edição há, de facto, várias propostas que, no seu conjunto, dizem respeito à identidade de uma forma geral, à identidade nacional de alguns países. Por exemplo, temos o João Pedro Rodrigues e o João Rui Guerra da Mata que apresentam a instalação, precisamente, "Identidade Nacional (Príncipe Real)" no Reservatório da Patriarcal, debaixo do Jardim do Príncipe Real, em Lisboa. Mas, também, temos os coreógrafos norte-americanos Gerard & Kelly, que vêm pela primeira vez a Portugal e que apresentam um projeto no MAAT, que é focado na dança de varão e que reflete a identidade nacional norte-americana. Temos, ainda, as INMUNE - Instituto da Mulher Negra em Portugal, que apresenta o seu trabalho pela primeira vez no Porto, com uma conferência na mala voadora e a estreia mundial de uma performance – “Gestuário 2” - nos Maus Hábitos, que reflete, precisamente, a questão da negritude, do pós-colonialismo, mas também do empoderamento das mulheres negras em Portugal. Enfim, há várias questões que refletem em torno da identidade, da identidade de género e de raça, neste caso.

O Teatro Rivoli recebe duas propostas no âmbito da BoCA 2019: o baterista Gabiel Ferrandini vai apresentar um projeto que cruza música e teatro. É uma estreia dele na encenação, de certa forma. O que nos podes contar sobre esta peça?

O Gabriel Ferrandini, quando lhe propus fazer um projeto para a BoCA, revelou-me que tinha um projeto escrito e guardado lá numa gaveta em casa há muito tempo, que achava que nunca iria realizar. Portanto, foi daqueles encontros bastante produtivos imediatamente (risos). Ele, de facto, já tinha esse desejo de fazer. Não sabia como, nem quando, nem com que texto. O que vem reforçar a importância da BoCA, que contextualiza todos esses trabalhos, mais de exceção, dentro dos percursos dos artistas. Mas, na verdade, aquilo que nos interessa refletir é que muitas vezes essas exceções, essas atividades que nós consideramos efémeras, podem realmente cristalizar-se, enraizar-se, não só nas práticas e nos discursos artísticos dos artistas em si, dos seus corpos de trabalho, mas também nas práticas performativas, neste caso. Por exemplo, o Gabriel Ferrandini vai fazer a sua primeira criação de palco, tal como a Tania Bruguera, artista e ativista cubana que esteve o ano passado no Porto, ou a Salomé Lamas, que também vão fazer a sua primeira criação de palco. Gabriel Ferrandidi é um bocadinho isso que queremos refletir, que a BoCA é uma porta de entrada para caminhos desconhecidos. Então no caso concreto desta peça – que se chama “Rosa. Espinho. Dureza” –, o Gabriel sabia perfeitamente tudo o que queria fazer, desde o primeiro momento que me falou dela. Portanto ele já tinha a coisa escrita, o título, o ator que queria fazer. Parecia uma peça que estava à espera daquele nosso café (risos). Só faltava alguém ouvir aquela ideia e dizer “tira-a lá da gaveta e vamos fazê-la”. Portanto foi muito fácil nesse sentido. Também poder falar com o Tiago Guedes, do Teatro Municipal do Porto e o Tiago Rodrigues, do Teatro Nacional Dona Maria II, falar-lhes do projeto e naturalmente com a qualidade que ele já tem enquanto artista de música, baterista, é enorme. E, portanto, aqui ele trabalha com o ator Frederico Barata, que é um amigo dele e que vai estar em cena com ele. A peça é uma espécie de tríptico: Rosa. Espinho. Dureza. Cada palavra diz respeito a um verbo, a um conceito. Trabalho, amor e sexo. E, portanto, cada palavra também diz respeito a uma ação e a uma música concreta. Portanto vamos ver três ações e três músicas ao vivo, que são exploradas através da sua repetição, da sua exaustão, do seu empenho físico e mental, quer do ator, quer do baterista, e que também acaba por ser um desafio ao próprio espectador. Será um espetáculo de cerca de 45 a 50 minutos e, portanto, um objeto bem forte concetualmente, bem claro, que vai decorrer no palco do Teatro Rivoli.

Outra das propostas a ser apresentada no Rivoli é a performance/instalação "Os Animais e o Dinheiro", de Gonçalo M. Tavares & Os Espacialistas.

O Gonçalo M. Tavares já tinha colaborado com os Espacialistas na BoCA Summer School 2017, em que dirigiram um workshop no museu do Chiado sobre pensamento e práticas contemporâneas. Foi um workshop muito interessante, mais teórico, com alguns exercícios práticos desenvolvidos pelo próprio Gonçalo M. Tavares e pelos Espacialistas. Aqui, neste projeto que vão fazer para a BoCA deste ano, a minha proposta foi permitir que trabalhassem em palcos onde ainda não tinham operado. Normalmente trabalham em suporte livro, em papel porque, na verdade, Os Espacialistas ilustram muitas vezes os livros do Gonçalo M. Tavares. Ou em museus, mais facilmente. Mas nunca tinham trabalhado em palco. Então aqui trata-se de três conferências/ performances inéditas em cada cidade, complementadas por isso. A primeira vai decorrer em Lisboa, no Teatro da Trindade, a segunda no Teatro Rivoli e a terceira no Theatro Circo, em Braga. Portanto, sobre o espectro deste conceito de “Os Animais e o Dinheiro” que estão relacionar, vão trabalhar o conceito de arte direta – o que é que é isto da arte direta; de pensar como consciencializamos práticas do quotidiano sobre uma lente artística; como é que transformamos essa ideia do uso, dos objetos; essa ideia de objetos do quotidiano que podem ser pensados de uma forma mais artística - através de uma implicação com o espectador.


Fotografia © Sara Rafael [Gabriel Ferrandini, "Rosa. Espinho. Dureza"]
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