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"A importância de ser Georges Bataille"
Nos dias 7 e 8 de junho, o Teatro Rivoli recebe dupla apresentação de "A importância de ser Georges Bataille". A peça integra a série “A Importância de Ser” (2013). Depois de António de Macedo, Simone de Beauvoir, Agustina Bessa-Luís e Paul B. Preciado, o que pretendes explorar com Georges Bataille? Qual a ligação entre o teu trabalho e o de Georges Bataille?

Não há só um aspeto que me interessa na obra e na vida do Georges Bataille. Acho que há imensos paralelos entre aquilo que lhe interessava a ele explorar e aquilo que me interessa a mim. Sobretudo no que diz respeito a temas como a mortalidade, a identidade, a sexualidade, o erotismo. Portanto, o Bataille foi uma espécie de pretexto para eu poder aprofundar estas questões que já tenho vindo a aprofundar noutros trabalhos. Mas acho que é sempre cada uma destas personagens, destes artistas ou pensadores, que me permitem ir um bocadinho mais longe na minha pesquisa à volta destes temas, ou melhor, destas questões em aberto que estão constantemente presentes no meu trabalho. E não é só nas questões da identidade, sexualidade e do género que encontro uma ligação com o trabalho de Georges Bataille, mas na própria forma como ele investigava e se entregava a estes temas. Mesmo sendo filósofo, nunca fez filosofia de uma maneira ortodoxa, nunca quis fazer um esquema, nunca quis ser académico. Portanto, há uma pesquisa individual e muito própria de um universo filosófico que não pretende ser académico, esquemático e que pretende entrar no lugar do desconhecido e da poesia. E isso interessa-me bastante. Poder sair de um lugar mais racional, ou daquilo a que estamos habituados que seja esse lugar racional.

A peça explora o desconhecido e o obscuro, evocando o luto da “Figura humana”. De que forma é que isso se traduz em palco?

O próprio espetáculo acontece numa semiobscuridade. Portanto, há um jogo com a luz que é muito importante e que tem a ver com esse lado do escuro nos possibilitar ver para além daquilo que estamos habituados a ver. A partir do momento em que estamos no escuro, a nossa imaginação fica mais aguçada, mais apurada, precisamente porque não vemos tudo. E o caminho deste espetáculo foi esse: sairmos deste excesso de luz para irmos em direção a recantos mais obscuros onde a imaginação possa ter mais liberdade.

Em entrevista ao PÚBLICO, antes da estreia no São Luiz Teatro Municipal, referes que as criações artísticas de hoje em dia são “demasiado explicadas”. Como é que o público interpretou a tua peça?

A reação do público à peça é sempre muito variada. Há sempre pessoas que ficaram extasiadas, pessoas que gostaram mais de uns elementos do que de outros. Mas há um consenso com a parte musical que é muito forte e é, no fundo, aquilo que conduz o espetáculo. Mas é sempre muito diferente e isso é algo que me agrada. Não haver propriamente um consenso do que é o espetáculo e do que ele pode significar. Mas cada pessoa tem a sua história com aquela hora de espetáculo e é isso que essencialmente me interessa, que cada pessoa possa descobrir em si alguma coisa a partir daquela proposta. E acho que isso tem acontecido. Em relação à interpretação, eu preferia que o público não interpretasse nada. Aliás, é uma das coisas que está muito presente em todo o processo deste trabalho. É uma procura de não explicação, de não tornar óbvio aquilo que são as propostas da criação. Portanto, é aquilo que Georges Bataille e outros autores, como, por exemplo, Genet, diziam sobre esta questão da entrada na noite. Ou seja, uma entrada num lugar desconhecido, em que as questões estão lá, mais do que as respostas. E espero que este espetáculo possa ir nesse caminho, de fazer com que as pessoas entrem connosco nessa noite, nesse desconhecido.


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