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3 Junho 2019

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B’lheq

Um registo livre a partir dos espetáculos da temporada para reativar o discurso das conversas pós-espetáculo e repensar o nosso tempo. 
Por Raquel S.

Quando alguém fazia anos em minha casa – ainda éramos todos crianças, há vinte mil anos atrás – havia sempre uma festa. Durava até tarde, e havia sempre uma altura em que se via um filme: ou Quem Tramou Roger Rabbit? ou Indiana Jones e o Templo Perdido. Independentemente das muitas questões colocadas à ética festivo-parental pelo filme do Robert Zemeckis – deixo essa recordação para outro dia –, o Indiana Jones era garantidamente, como se diria na língua inglesa, um crowd-pleaser. Tinha corações arrancados que continuavam a bater ao som de cânticos em línguas misteriosas; tinha o Indiana Jones – em si mesmo uma instituição; tinha uma criança engraçada; tinha uma mulher loira, bonita e insuportável, que gritava muitas vezes e punha perfume em elefantes; tinha um chicote, cobras, escaravelhos – e, claro, a mulher desmaiava; havia um chapéu de aba larga salvo no último segundo, quase em sacrifício de um braço.
Em todas as festas havia um momento de concentração máxima em que os nossos olhos esbugalhados se franziam, o sobrolho se concentrava, o nariz se tensionava e se ouviam coisas que soavam mais ou menos como “b’lheq”, ou silêncios com caras afundadas em almofadas, ou gritinhos-risos de nojo e admiração: tudo isto porque, do lado de dentro da televisão, atafulhadas numa VHS, havia pessoas que comiam cobras, olhos, cérebros de macaco.

Uníamo-nos todas num só pensamento:

Quem come isto?

Quem, a negrito. Não é bem quando, não é bem onde. Quer dizer, na verdade é quando e onde: é num jantar de cerimónia, é na Índia, é longe da Europa, dos Estados Unidos da América – nesse território longínquo, do outro lado do mundo, ainda que não nos antípodas do planeta, num desses sítios inapreensíveis, povoados por homens de turbante, por marajás, por pessoas que não são nós e se tornam na mesa irremediavelmente outros, com outras comidas, com outros hábitos, com outras religiões – que sacrificam pessoas, que arrancam corações. As pessoas do filme são estrangeiras. São exóticas. Têm hábitos inacreditáveis. São interessantes, usam roupas invulgares, falam línguas que não entendemos, sentam-se no chão. Era assim que as víamos.

Nas festas de aniversário ficava muito claro para todas nós: Que nojo! Eu nunca comeria aquilo! Eu: que não estou lá, que não sou outro. A cena do jantar confirmava: não somos iguais. Definíamos que aquela comida era nojenta, enquanto pegávamos em mais uma goma, uma sanduíche de queijo e fiambre num pão de forma muito branco, enquanto bebíamos groselha.
Naquelas festas soubemos: a nossa comida de festa é gomas, não cérebros de macaco.

Nós, não. Eles, claro!


Entre o Indiana Jones e relatos de canibalismo, Diet Plan for the Western Man conta algumas histórias. Coloca algumas das formas como, ao longo da historiografia, a comida foi sendo usada como dispositivo de representação, acentuando o seu significado político. A performance é quase uma conferência: na verdade, ouvimos histórias e comemos. Cria-se um atrito, um entrave à relação imediatista com o ato de comer: o que temos à frente não é comida para degustar, mas para pensar.

No fim, todos nós comemos crianças: ou representações de crianças. Todos nós partimos os dedos das mãos dos outros enquanto tentávamos fazer sentido da presença de ex-votos numa mesa-quase-de-jantar, mas-não-exatamente-de-jantar. Saímos do espetáculo sabendo que comemos moleja, uma espécie de co-relação cénica com o cérebro de macaco no Indiana Jones. A comida não é alimento. Comida é representação. Comida é auto-representação. Comida é hetero-representação. Comida é alteridade. Comida é significado. Comida é identidade. Comida é discurso.


Fotografia © José Caldeira / TMP
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