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23 Dezembro 2019

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ORDINARY PEOPLE: a voz singular da dança colectiva

Um registo livre a partir dos espetáculos da temporada para reativar o discurso das conversas pós-espetáculo e repensar o nosso tempo.

Por Rossana Mendes Fonseca

Vláda nasceu no período do pós-guerra e trabalhou numa fábrica a vida toda. Foi também, ao lado do pai, figurante no Teatro Nacional. E dançava rock n’ roll em Praga, quando o regime político o proibia.

Wen Hui nasceu durante a Grande Fome na China. Não cresceu muito, talvez por isso.

Na penumbra, por entre caixas de papelão empilhadas, em cujas faces se fragmenta a projecção daquilo que  parecem ser máquinas cheias de botões, duas figuras humanas, duas mulheres, aparecem e desaparecem atrás das caixas, uma outra move os braços ao ritmo preciso de ponteiros de relógio, enquanto um homem as  opera, ora escondendo as duas primeiras, ora deslocando o corpo da terceira, numa cadência maquinal de fábrica.

Em ​Ordinary People, há um constante fazer e desfazer do palco. As caixas, a maquinaria audiovisual, um par de grades, são deslocados, mudados de lugar para constituir os vários cenários, sem nunca o pano cair. Objectos  funcionais, ordinários, utilitários à própria peça. Camadas operativas da peça. A ficção escreve-se nos entreactos da biografia de cada um. A história é colectiva. Os objectos, como os corpos, são também objectos-arquivo. Entre a luz alta e a penumbra, observamos as personagens moverem-se e comporem metodicamente todo o palco. A dança como excesso da rotina mecânica do trabalho. A dança como gesto vital político.

Uma condutora de carros que é mulher. O gesto de conduzir inscrito no corpo. O mesmo corpo que dança através e por entre grades. Uma mulher, nascida sob a Política do Filho Único, que não quer casar com um  homem. ‘Não falar, sobretudo não falar’. São as instruções a respeitar, passadas de pais para filhas, para evitar problemas em público.

Com um ​background ​ político idêntico e uma filosofia semelhantes, Wen Hui, fundadora da primeira companhia independente de dança e teatro em Beijing, em 1994, o Living Dance Studio, e Jana Svobodová, directora artística do Archa.lab, um programa educativo, de treino e residências no seio do Archa Theater em Praga, nascido em 2004, uniram forças para criar ​Ordinary People.

Sobre o fundo de teatro-documentário, ​Ordinary People ​ é a dança da intersecção de acontecimentos notáveis da história e da política mundiais e momentos biográficas da vida de cada personagem, como acções que se inscrevem nessa mesma cronologia partilhada.

«Porque se trata de teatro, há que ter várias camadas de expressão. Por isso, falamos de nós próprios de modo  a cruzarmos a História. Para compreendermos o Mundo, para falarmos da grande política, temos que o fazer através das nossas próprias experiências, da nossa história pessoal, através da qual também nos relacionamos com o público», explica Jana.

1968. China. Revolução Cultural sob a influência de Mao.
1968. Europa. Revolução estudantil, com a mesma influência estratégica.
1968. Checoslováquia. Invasão do país pela União Soviética, ficando sob o seu domínio político.

Reencenar constantemente estas histórias reais, é revivê-las. É passar outra e outra vez pela história colectiva, enquanto é intersectada pela duração biográfica de cada um. Mas é também viver essa atemporalidade, o passado que retorna no presente, ao mesmo tempo que o presente é eco do passado.

O desenho da silhueta de cada um é gravado no fundo durante o testemunho de um episódio ordinário. Wen-Hui visita cada uma dessas silhuetas como se as pudesse habitar, sentir, viver, esse corpo-arquivo de cada qual.

1989. China. Revolução Estudantil. Protestos estudantis em Beijing, na Praça de Tiananmen. «Os estudantes formavam um corredor higiénico para as ambulâncias passarem». Greve de fome. Resistência.
1989. Europa. Queda do Muro de Berlim.
1989. Checoslováquia. Revolução de Veludo e fim do regime comunista no país.

«Actualmente, quando criamos, pensamos no Mundo, em como está todo ligado, e aos momentos da História. Não há só uma História. São as relações no tempo que trabalhamos», comenta Wen Hui. «Falamos  de coisas muito simples, alguém rebola no chão, alguém conduz um carro, focamo-nos nesses momentos nos quais nos podemos encontrar», afirma Jana.

Laboriosamente, é construída uma torre feita de caixas, no centro do palco. Obelisco. Vláda empurra-o, fazendo-o desmoronar-se. Caixas voam por todo o lado, inclusive na nossa direcção. Momento de vertigem. Provocação.

Entretanto chegou a era da globalização e, no entanto, as questões permanecem as mesmas. Há alguém que, finalmente, pergunta: «Mudou alguma coisa»? Wen Hui responde: «Não. A arte não consegue mudar a sociedade. É por isso que continuamos a fazer aquilo que fazemos».


Fotografia © José Caldeira / TMP
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