Fevereiro2022

Qua9

Entrevista

Diana Sá

Entrevista

© José Caldeira / TMP

Criadora de Descanso na tua voz, em cena entre os dias 10 e 12 de fevereiro no palco do Grande Auditório do Teatro Rivoli

Nesta peça, os atores e os espectadores encontram-se no próprio palco. É uma representação autorreferencial, uma representação do próprio teatro? O que pretendem representar?

Na verdade, não sei bem se isto é teatro. Se eu pensar nos moldes tradicionais de teatro isto não pertence a essa linguagem. Pertencerá a essa família... É uma performance, uma instalação performativa, qualquer coisa desse género. Mas tenho um pouco de pudor em dizer que encenei um espetáculo, ou que esta peça é um espetáculo de teatro. Surgiu de uma ideia, de um impulso meu relacionado com todas as questões que temos vivido nos últimos anos... De questionar como nós – atores, criadores, encenadores – vamos resolver algumas questões: como vamos trabalhar os públicos, os objetos artísticos, de outra forma... Longe de mim dizer que estou a criar algo que nunca foi feito, não é isso que estou a dizer... (risos). A ideia foi repensar o texto escrito, o texto teatral, a palavra (que me agrada também). Pensar como poderia fazer um espetáculo com palavra e aproximar o público, mas de uma forma em que este não ficasse na sua posição cómoda ou incómoda – dadas as circunstâncias de estar numa plateia rodeada de centenas de pessoas durante várias horas (e todas as questões inerentes). Quis criar um objeto para o público vir visitar. Um espaço criado para receber não apenas os espectadores e espectadoras, mas também os atores e atrizes. É um local de encontro e de visita.

O que significa Descanso na tua voz? A quem se direciona?

Eu acho que se direciona a todos: a quem está a fazer a peça e a quem está a assistir. Nestes últimos tempos – e não só por causa da pandemia – há uma dificuldade em ouvir... Ouvir no sentido de ser um prazer e não para obter uma infomação que é importante, uma regra que tem que ser aplicada. Acho que esta forma de ouvirmos, sem estarmos relaxados, provoca uma falsa sensação de controlo e de estabilidade. Mas, na verdade, vai distanciar-nos a todos ainda mais, vamos ficar fechados na nossa ideologia, na nossa perspetiva e maneira de ver o mundo. E tudo o que eu ouço ou serve para aumentar essa perspetiva ou serve para contrariá-la. E não há um relaxamento... Acho que é mesmo a questão de descansar na voz do outro. Sem estarmos com uma atitude de alerta, de questionar o porquê de estarem a dizer-me isto, ou de mais uma regra para aplicar.
Por isso é que os textos são assim: promovem um encontro entre duas pessoas. O tom de interpretação é bastante pessoal. E o próprio escritor (o Eduardo Brito) trabalhou os textos em paralelo aos ensaios e deu a possibilidade de os atores se apropriarem, de alterarem as palavras. Tudo o que facilitasse essa apropriação e a oferta da experiência.

Tendo em conta esta experiência, consideras que é uma chamada de atenção, ou apenas um exercício de escuta mais relaxada? Ou as duas coisas?

Não é uma chamada de atenção, não tenho esse tipo de superioridade ou moral para tal (risos). É mesmo um espaço em que se as pessoas quiserem podem experimentar, simplesmente ouvir um texto escrito e dito por atores. Se algumas pessoas disserem: "gostei mais daquele porque me fez rir", ou então "gostei mais daquele porque é muito trágico". É uma experiência... É só uma experiência, que espero que seja positiva a nível sensorial – de alguém que ouve, de alguém que vê, de alguém que baloiça, como é que o movimento do outro se repercute no meu corpo... Em vez de ser um exercício intelectual, mais uma vez, de tentar tirar uma moral ou uma conclusão de uma história, ou um posicionamento em relação a alguma coisa.

De que forma os elementos cénicos, de luz e som se relacionam com o texto?

O que proponho são várias experiências, a vários níveis, que não têm que se alimentar umas às outras. Uma coisa é a parte visual que as pessoas vêem... Quis, juntamente com o Patrick Hubmann e o Pedro Cavaco Leitão (cenógrafos), que houvesse baloiços, um espaço limitado pela própria estrutura. Queria que as luzes se aproximassem de um arraial, de uma festa popular. O som (do João Guimarães) funciona mais para limpar o palato do texto. Foi tudo pensado de uma forma separada. Não há uma unidade nos textos, à exceção de terem sido escritos pelo mesmo autor – que tem um estilo próprio. O que unifica os textos é o facto de as pessoas estarem a partilhar o mesmo espaço.
Estou muito curiosa com esta experiência... Não tenho a certeza, e talvez nunca terei a certeza, de como funcionará para cada um e para cada uma. Estou expectante para ver como irão correr os próximos dias.