Novembro2021

Qui4

Entrevista

Diogo Freitas

Entrevista

© DR

Encenador de Como perder um país, a ser apresentado nos dias 12 e 13 de novembro, no palco do Grande Auditório do Teatro Rivoli

De que forma é que Como perder um país se relaciona com a História e com o passado?

Temos duas narrativas que decorrem em paralelo. Por um lado, há o passado. Contamos a história da Guerra de Tróia, uma guerra que começou por causa de um amor. Em Tróia, havia uma muralha que, segundo dizem, era impenetrável e que acabou destruída através da artimanha do cavalo.
Por outro lado, há uma narrativa que tem uma relação mais direta com a política. Perante uma nação destruída e a precisar de eleições, há dois governantes em constante ação para perceberem quem irá governar o país. Esta relação que quisemos criar com o passado e com a história a que chamamos “História do Futuro” está cheia de analogias, metáforas e comparações com o presente.
Queremos alertar que isto também está a acontecer à nossa democracia. Ela também está constantemente a ser derrubada sem que o percebamos. Ou então não queremos perceber – o que ainda é mais grave. Há várias analogias que fazemos com a democracia atual e com esta história que está a acontecer ao mesmo tempo – e a ser contada ao público.

Existe uma espécie de futuro distópico, próximo da ficção científica?

Sim, é próximo da ficção científica. Quisemos colocar ainda mais veracidade neste discurso sobre a aliança da tecnologia e da ciência para propormos um jogo distópico e absurdo na forma como a população vai escolher estes dois governantes; ou seja, já não temos a campanha eleitoral. Estes dois políticos entram numa espécie de simulação de realidade virtual sem terem consciência disso, apagando completamente a questão da realidade, mas, para eles, a realidade continua, como se cada um deles tivesse vencido as eleições.
O povo vai ver imagens destes dois homens a tomarem decisões consoante cada uma das situações. Só que é tudo obsceno. A vida pessoal e a profissional começam a misturar-se. Há um limbo… Por exemplo, um dos governadores tem um grande amor pela sua mulher e quer ser pai. Uma das perguntas que lhe fazem é: “E quando for pai, qual será a sua prioridade, a nação ou o seu filho?”. Parece que estão constantemente à prova. Há estes dois campos que se misturam e que são perigosos.

Que tipo de referências e inquietações estiveram na base deste espetáculo?

O título foi roubado a um livro de Ece Temelkuran [How to lose a country], uma escritora e jornalista turca que identificou, no discurso de alguns governadores populistas, sete formas de manipular o discurso para se chegar ao poder. Este livro deu-me esta ideia de como, cada vez mais, podemos manipular as formas de nos exprimirmos para alcançar um objetivo – e isso foi uma espécie de guia para o nosso trabalho.
Mas durante as residências também lemos a Constituição, vimos vários documentários e séries como Years and Years e Black Mirror.

Democracy has been detected foi a primeira parte de uma trilogia. Até que ponto Como perder um país representa uma evolução estética relativamente ao espetáculo anterior e em que medida aponta para o próximo?

Esteticamente, são muito diferentes. O Democracy has been detected estava num sítio mais frio, mais cru. Tínhamos ali o Parlamento representado. Apesar da cenografia ser móvel, toda ela híbrida também, nunca deixa de ser um espaço frio: é um escritório e a praça principal onde se faz a manifestação. Como perder um país está num sítio mais metafórico, onde fazemos constantemente analogias com Tróia e com a nossa democracia… É tudo muito mais poético e há uma ambiência mais fresca neste espetáculo.
Mas ambos são formas de pensar e de organizar o mundo. Queremos que o terceiro, Sétimo Céu, também aponte para maneiras de organizar o mundo, queremos que os personagens em cena pensem numa nova Constituição.
Sendo a democracia um dos temas do espetáculo, este é também um projeto artisticamente democrático. Conta com os contributos das diferentes disciplinas…
Tenho uma relação muito grande com a música em cena e com as vozes – a voz falada e a voz cantada. Como perder um país situa-se algures no jogo do teatro, da dança e da música. Interessa-me perceber até que ponto este “espetáculo de variedades” é possível e em que fase estou enquanto criador.

Como perder um país pode ler-se quase como uma interrogação. Perguntava-te o que é que nos faz faltar perder, ou encontrar, como país?

Faz falta percebermos em que estado está a nossa democracia e restaurarmos a confiança nos governantes. Claro que não se trata de uma confiança cega, claro que o questionamento vai estar lá sempre, mas temos de perceber que aquele discurso populista de que são todos iguais é redutor e injusto. As coisas não são assim, binárias, existem mais lados, existem mais cores.