Junho2021

Qua9

Entrevista

Euripides Laskaridis

Entrevista

© Marilena Stafylidou

Criador de ELENIT, apresentado nos dias 11 e 12 de junho, no Teatro Rivoli.

Embora a direção de ELENIT pareça remeter para uma “urgência” do momento, do presente, a caracterização dos personagens e as suas ações parecem assentar num outro tempo, por vezes futurista, por vezes ancestral. Houve intenção de fundir épocas e de fazer coexistir esses cenários?


Nos meus trabalhos, tendo a criar a partir de um centro – e esse centro costuma ser uma personagem que começa a assombrar-me a partir de determinado momento. Neste caso, era uma criatura baixa e maníaca que se permitia tudo, até mesmo ajustar a sua própria altura.
Então, aos poucos, mas de forma consistente, começa a revelar-se todo um universo em torno desse centro. Esse universo é muito específico e, assim sendo, consigo perceber facilmente que coisas cabem ou não dentro dele. Nos ensaios, trabalhamos muito para formular e moldar aquela sensação inicial que eu tinha tido e, em poucos meses, o espetáculo começa a ganhar forma. Não há qualquer calculismo predeterminado nesse processo em termos de tempo. O tempo é, no entanto, mais uma constante relativa e fluida, como a linguagem, o movimento, o som e a luz que deixo, tal como tudo o resto, impor-se de forma orgânica nos meus trabalhos.
Não gosto de balizar isto, tal como não gosto de balizar o significado. A minha intenção é explorar combinações que me toquem enquanto performer e diretor, e não impor significados específicos e restritos.


No documentário Here not here, que surgiu na sequência do adiamento das apresentações do espetáculo, assistimos a uma banda sonora experimental e abstrata tocada ao vivo durante os ensaios e a performance. Qual a inspiração por trás destas peças sonoras e que papel desempenham elas em palco?

Os sons do universo que é criado em palco são extramente importantes. E quando digo sons, refiro-me à soma total da música, das paisagens sonoras, dos sons pré-gravados e dos sons emitidos pelos objetos em palco – amplificados ou não -, das vozes, dos gritos, dos risos e até mesmo dos silêncios que podem vir à tona. É uma rica paleta de tecidos sonoros que tem o mesmo peso que as outras paletas com as quais jogamos, como a paleta de movimentos, a paleta de cores e por aí em diante. Mas são tão somente as ferramentas que possuo para criar o meu trabalho artístico; tal como um construtor precisa de tijolos e cimento para construir uma casa na qual alguém se vai abrigar. Para mim, a inspiração parece advir de um desejo profundo de instigar a imaginação humana.


Caos, mistério e choque são palavras-chave no universo de ELENIT. Tendo isso em conta, como vê este trabalho depois de um cenário pandémico completamente imprevisível?
Que impacto teve este hiato na sua interpretação do espetáculo?


É demasiado cedo para responder a essa questão. Conseguimos que o espetáculo fosse apresentado fora da Grécia, mas apenas uma vez, em fevereiro de 2020, em Bruxelas, logo depois da estreia mundial em Atenas. Em março chegou o confinamento. Estamos a voltar à estrada pela primeira vez depois do espetáculo ter ficado adormecido todos estes meses. Ele cresceu dentro de nós durante os meses da pandemia, tal como nós também crescemos dentro da pandemia. Estou ansioso por descobrir como é que esta pagarem imprevista se manifestará em ELENIT – uma peça destemida que, no seu cerne, queria desvendar as grandes questões e os grandes mistérios da nossa existência.




Entrevista realizada a 8 de junho de 2021 por Pedro Sousa, elemento do Gabinete de Comunicação do TMP.