Novembro2020

Qua4

Entrevista

Gonçalo Amorim & Paulo Furtado/Teatro Experimental do Porto (TEP)

Entrevista

© Luísa Sequeira

Entre os dias 6 e 8 de novembro, o Teatro Rivoli recebe a estreia de “ESTRO/WATTS – Poesia da idade do rock”. Uma peça que resulta de uma nova colaboração entre os dois [Gonçalo Amorim e Paulo Furtado] e o Teatro Experimental do Porto (TEP). Como é que surgiu este trabalho conjunto? Quais foram os principais desafios?

Gonçalo Amorim (GA) Há uma aproximação ainda em Lisboa, no período em que ainda trabalhava lá. Fizemos um espetáculo épico, uma adaptação de "O Jogador", de Dostoiévski. Era um espetáculo em quatro capítulos, uma espécie de blockbuster. O Paulo [Furtado] fartou-se de produzir música para esse espetáculo, com a Rita [Redshoes]. Foi uma experiência muito profícua para os dois. E quando aceitei o convite de trabalhar aqui no TEP e, fixar-me assim no Porto para sempre – espero eu (risos) –, comecei recorrentemente a convocar o Paulo para projetos. Neste período de oito anos é o terceiro projeto que fazemos juntos. Temos aqui uns espaços mas volta e meia voltamos a trabalhar juntos. Aconteceu com o “Nós somos os Rolling Stones”, com “O Animador”, de John Osborne, e agora o “ESTRO/WATTS”. Só que aqui o desafio foi ligeiramente diferente. Como estávamos a trabalhar a partir da poesia do rock e ainda por cima a partir de uma antologia do João de Menezes-Ferreira – que reúne textos poéticos relacionados com o rock e escritos para serem canções ou para, pelo menos, fazerem farte de um certo movimento. Mesmo quando não eram canções eram textos escritos para recitais ou para momentos de performance live. Muito na linha da beat generation. E o João de Menezes-Ferreira acaba por compilar num livro aquilo que ele chama “A poesia da idade do rock”, entre 1957 e 1980. E, perante esse material, pensei que seria o projeto ideal para a colaboração ser um bocadinho diferente e o Paulo assumir-se também como fazendo parte da direção artística do projeto. Não só ter a direção musical do projeto mas também ter uma visão que me pudesse acompanhar, uma visão cénica do que pode ser esta “Poesia da idade do rock”.

Partindo da compilação do João de Menezes-Ferreira, da antologia “Poesia da idade do rock”, quais foram os caminhos artísticos seguidos? Que textos escolheram trabalhar e integrar nesta peça?

Paulo Furtado (PF) Nós partimos de uma espécie de compilação, que nos pareceu bem pensada e bem-feita, equilibrada, de uma determinada altura. Havia alguns pressupostos interessantes do João. A maior parte da poesia foi escrita nos anos jovens destes criadores, a grande fatia, a mais importante é até aos 30 anos...
GA Com algumas exceções, por exemplo o Leonard Cohen começa a escrever tarde para as suas músicas. Já era escritor antes…
PF Normalmente, nós fazemos coisas com muita música. E, aqui, o meu primeiro movimento foi exatamente retirar a música a estes poemas. Tentar criar ambientes e sonoridades que pudessem intercalar, de alguma forma, a poesia. Ou às vezes tentar, de alguma maneira, criar mais do que notas… Já sou um bocado daltónico musical e aqui tentei levar isso a um extremo maior. Tentei pensar não em notas, melodias, canções mas sim em sensações, em o que me pode sonoramente oprimir, o que me pode alegrar, o que me pode ajudar a escutar, o que me pode fazer realçar a palavras. E, numa primeira fase, o meu trabalho foi esse! Ignorar as melodias, as canções... O que é difícil… Há canções incríveis ali, que eu estou habituado desde que nasci quase, e esse é que foi o primeiro grande desafio. Retirar a poesia desse contexto e depois voltar a encontrar o contexto de onde vem. Não é por acaso que o Gonçalo fala no beat e como a maior parte desta geração é influenciada pelo beat. O beat serve-nos para dizer a poesia sem melodia, sem as canções mas mantendo um ritmo e uma cadência que ajuda ao poema. E, de alguma forma, encontrar como é que o beat pode ser feito em português ou como é que podemos depois reenquadrar com o contexto em que estas coisas foram criadas. Ou como é que nós nos relacionamos com esse contexto. O início do rock and roll foi já há 70 anos. De repente, quando éramos mais jovens parecia que era uma coisa que nos dizia… Uma coisa que estava relacionada com a nossa adolescência e, de repente, a sonoridade da adolescência é outra, de repente o rock é uma coisa que já quase que é tratada como uma instituição. Mas depois também a palavra em inglês foi uma coisa que, de alguma maneira, se calhar nunca foi totalmente compreendida ou apreendida em Portugal. Depois há todos estes primeiros contextos de onde tu tentas retirar a poesia e tentas voltar a entregá-la de uma maneira que seja válida e funcional também ao mesmo tempo, para tu compreenderes as palavras.
GA Esta dimensão da relação entre o “ESTRO” – uma palavra já utilizada até pelo Camões –, ou seja, a dimensão poética e o “WATTS”, ou seja, a eletricidade. Esta potência que existe entre a palavra e a música elétrica. E a forma como esta electricidade amplificou os conteúdos daquela palavra, daquela potência poética daqueles autores que tinham uma relação com a poesia muito visceral. E, não foi por acaso que o Allen Ginsberg seguiu como um autêntico groupie o Bob Dylan. Um poeta consagrado da beat que percebe que naqueles jovens há uma potência poética que é de seguir como um fã. Nós temos trabalhado nesse binómio, é quase um exercício de anatomia em várias dimensões. Talvez, pela primeira vez, entregar estes textos, traduzidos, num espetáculo ao vivo… O que levará muita gente a descobrir a potência da palavra. A potência da electricidade já a conheciam… E dos refrões, eventualmente. A potência da estrutura poética acho que para muita gente vai ser a primeira vez. Depois também há a capacidade que no passado estas palavras tiveram de substituir, de alguma forma, o espaço que o teatro tinha, o espaço político e comunitário que o teatro já teve na Grécia Antiga, por exemplo. E o rock, de meio do século XX para a frente, serviu esse propósito… Já não é assim, já é de outra maneira. Por isso, este exercício de anatomia é também pegar em algo que parece estar mais debilitado e começar, então, a abrir esse corpo, desenraizar e separar essa potência. Esse trabalho que temos vindo a desenvolver tem sido muito exigente porque, inicialmente, queríamos perceber como é que estas palavras seriam escutadas agora. No início havia muitas ideias de atualização daquelas palavras e, neste momento, estamos cada vez mais na apropriação… Num certo classicismo contemporâneo. E perceber como é que esses textos chegam agora a nós. Em 2020, aqueles textos estão aqui connosco. Portanto, eles estão a sobreviver como outros clássicos sobreviveram. Estão a sobreviver e por si só dialogam connosco. Então como é que conseguimos encontrar uma forma de, num espectáculo que é de palavra e música, comunicar, de dá-los ao público.

A palavra é então um elemento fulcral na dramaturgia de “ESTRO/WATTS – Poesia da idade do rock”. É uma peça de teatro, de música. Como é que definiriam?

GA É um espetáculo que não é um musical. Não é um espetáculo de teatro. Também não é um concerto…
PF Também não é um recital de poesia. Mas tem um bocadinho disso tudo.
GA Sim! Tem um bocadinho disso tudo, aproximar-se-á de algo operático. Mas também é forçado esse termo, do ponto de vista formal. Tem uma elegância qualquer na forma como se combina a palavra dita com a música, com as sonoridades, com o espaço sonoro, com a sonoplastia. Tem teatro, tem música, tem palavra.
PF E é um espetáculo muito imersivo também. Há muito essa ideia de colocar o espectador num sítio e entregar-lhe muitas coisas, muitos estímulos, muita palavra. Ao mesmo tempo, todos os estímulos a servirem a palavra. Foi pelo menos a minha ideia sonora para o espectáculo. Nada deve existir se não for para servir a palavra. E, muitas vezes, existem coisas que não são exatamente musicais porque estamos a trabalhar canções e a tirá-las do contexto de canção. Algumas voltamos a colocar nesse contexto, depois, pontualmente, como uma espécie de boias de salvação para o espectador, no oceano de tanta coisa que está a acontecer. É um espetáculo também muito contido, no sentido em que acho que não há nada que se não for necessário mesmo estar na sua relação com a palavra, será riscado.


Entrevista realizada no dia 4 de março de 2020, no Foyer do Teatro Campo Alegre (a próposito das apresentações, inicialmente, previstas para os dias 20 e 21 de março, adiadas para 6 e 8 de novembro devido à pandemia de Covid-19).