Novembro2021

Qui11

Entrevista

Gonçalo Amorim (TEP) e Alexis Moreno (Teatro La María)

Entrevista

© José Caldeira

Encenadores de Estreito/Estrecho, a ser apresentado entre os dias 17 e 20 de novembro no Auditório do Teatro Campo Alegre, e no dia 21 de novembro no âmbito do TMP Online

Quase um ano depois da transmissão online do registo de abertura do processo de criação de Estreito/Estrecho (em janeiro de 2021), a peça será, finalmente, apresentada no Teatro Campo Alegre. Tendo em conta esta distância temporal, de que forma evoluiu o desenvolvimento deste trabalho? Estão no mesmo universo de partida ou o objeto artístico sofreu alterações?

Gonçalo Amorim (GA): Penso que estamos no mesmo universo. Aliás, essa foi uma das coisas que fomos discutindo. Num processo tão longo, tentar nunca deitar para o lixo o que vamos fazendo. Um pouco como os pintores, fomos acrescentando camadas.
Claro que, neste momento, o Alexis [Moreno] já escreveu um texto e a obra está praticamente fechada – do ponto de vista do que se diz, do que se ouve, da montagem das cenas. Nesse sentido, estamos mais avançados. Muitos dos princípios que estavam nessa abertura de processo continuam.
Alexis Moreno (AM): A essência do projeto mantém-se. O ponto central do work in progress é o mesmo deste processo. É um encontro entre duas companhias – uma latino-americana, outra europeia –, que se juntam para trabalhar um tema comum, de forma horizontal. E todo o imaginário que se abre nesta relação. Parece-me que isso mantém-se e é fundamental nesta criação.
GA: A nossa abordagem sempre pretendeu ser decolonial, ácida. Só que esta abordagem – como nós sabemos –, transporta em si mesmo também uma quantidade imensa de tensões. Pelo próprio processo artístico e pela desconfiança que existe entre pessoas que vivem em territórios diferentes na contemporaneidade.
Por mais que sejamos amigos ou que tenhamos um território comum, nós (o Teatro Experimental do Porto e o Teatro La María) trabalhamos sempre em zonas de desconforto. Esse é o motor do nosso trabalho. Não gostamos de fechar as questões, queremos que se mantenham abertas. Então, quando nos propomos a trabalhar uma visão decolonial e satírica, isso é matéria de trabalho. E a obra reflete – tal como o Alexis dizia – esse encontro entre as duas companhias enquanto matéria de trabalho. A partir das temáticas, também multiplicamos o número de tensões e de perplexidades perante a realidade, aquilo que sentimos e queremos transmitir. O que acaba por se refletir na obra.

Tendo em conta estas múltiplas camadas e visões que incluem na peça, de que forma o mito de Fernão de Magalhães, o imaginário da sua passagem pelo Estreito de Magalhães (em 1520, durante a sua viagem de circum-navegação) será retratado? Falam em desconstruir a figura, profanar a narrativa...

GA: Logo à partida, foi tentar perceber que imaginário era esse, porque também não é muito claro (risos). Para os portugueses, por vezes, Magalhães é apresentado como um traidor, por ter prestado os seus serviços a Espanha. Claro que agora Portugal também faz parte das comemorações dos 500 anos, porque Fernão de Magalhães é português. Depois, há a própria visão de Espanha, que tenta incluir Elcano como figura central desta narrativa e história. E depois há a visão dos chilenos, dos povos dos lugares por onde passou Magalhães. E todos esses países têm uma visão diferente. Por exemplo, em Mactan, nas Filipinas, celebra-se o dia em que Lapu-Lapu [último governador da ilha] matou Magalhães. E não o dia em que ele lá chegou. (risos) As visões dessa mesma história são amplas em todo o mundo. Logo, à partida, nem precisámos de inventar muito; bastou perceber as visões que cada território tem sobre Fernão de Magalhães, para termos material para uma teatralidade e criarmos uma história falsa.
AM: O que se passa com figuras como Fernão de Magalhães é que há sempre uma provocação, múltiplas visões sobre a sua imagem – e tudo o que ela representa. Portanto, estas questões estão também presentes na obra: a desconfiança, a manipulação, a ignorância.
Na peça, focamo-nos no momento em que Magalhães passa pelo Estreito. Decidimos inventar uma história falsa a partir dessa viagem. Geramos um mito a partir do mito de Magalhães: Diogo Alves, o Xamã Branco da Patagónia. Com uma linguagem muito provocadora, ácida e insolente...
GA: Imaginamos uma figura... Um português que decidiu sair da nau de Magalhães e ficar a viver na Patagónia, junto dos indígenas – os selk'nam, povo originário desse território (da Terra do Fogo). E, a partir daí, cria-se a narrativa-base: uma viagem de uma comitiva portuguesa à Patagónia chilena, onde vão tentar organizar as comemorações dos 500 anos da circum-navegação, em conjunto, obviamente, com a municipalidade de Punta Arenas, capital da Região Magalhânica.
E há uma cultura que é uma mescla... Ou já não é, porque na verdade a colonização persistente desse território fez com que os selk'nam deixassem de existir. Foram condicionados em campos de concentração na Terra do Fogo, onde eram obrigados a cumprir um horário para acordar, a andarem vestidos, a aprenderem a rezar. E, progressivamente, foram desaparecendo. Neste momento, não há resquícios dessa cultura.
As várias camadas dos processos de colonização estão presentes na peça, mas também a própria violência do governo chileno perante essas regiões e os povos originários com grande atividade política, como são por exemplo os mapuches. Toda a hipocrisia e violência do governo chileno na relação com esses povos originários, tudo isso está presente na obra, de forma politicamente incorreta. São várias camadas... Parece que os modelos de colonização são reproduzidos pelos próprios governos – muitas vezes cheios de brancos. E o texto tenta ir jogando com estas camadas, sem nos esquecermos que estamos a fazer teatro. O principal é o jogo do teatro, o que se diz e o que não se diz, combinando um registo mais paródico com um registo mais violento, sério e profundo. Nós somos duas companhias de teatro, tentamos dar conta desses temas todos, mas temos consciência da nossa fragilidade como artistas. Estamos focados no jogo teatral, que o impacto criativo possa gerar reflexão e entusiasmo sobre os temas que estamos a trabalhar. Mas sabendo que só podemos tratar de criar uma história.

O vídeo – formato central no registo do processo de abertura da peça – também estará presente na obra que é agora apresentada.

AM: A ideia da utilização dos vídeos é que também respeitem a observação do processo de criação da obra. A textura dos vídeos que vão ser apresentados fazem parte do processo, não são criações independentes, nem são imagens muito produzidas. Têm como objetivo acrescentar camadas ao trabalho coletivo. Os vídeos geram teatralidade à obra. É um conceito fundamental: o processo de trabalho e de pensamento enquanto processo teatral. Então, todos os elementos cénicos confluem na obra final, respeitam essa mesma linha – a do processo. Há vídeos que são dos nossos ensaios, ou com elementos que significam parte do processo. Não são uma criação à parte, nem procuram uma linguagem simbólica, cinematográfica...
GA: Utilizamos os vídeos não como um adereço, mas para dar conta do embate de materiais. São muito brutos. Estão presentes para transmitir essa tensão entre companhias, entre materiais, narrativas, que se sente ao longo da obra.