Modos de Ocupar

11 Fevereiro 2020

Modos de Ocupar

2ª Parte — Tiago Guedes


Entre março e julho de 2020 continuamos a desenvolver a nossa programação, dando foco aos diferentes modos de ocupar que os artistas, através dos seus discursos artísticos e posicionamentos políticos e sociais, trazem à nossa cidade. No Rivoli e no Campo Alegre vamos poder descobrir espetáculos que são verdadeiras “lupas sobre o mundo”, o mundo de hoje mas também os tempos que já passaram e o legado histórico deixado.

ANNE TERESA DE KEERSMAEKER regressa ao Rivoli revisitando uma das suas mais emblemáticas peças, Achterland, de 1990. Nesta coreografia seminal, pela primeira vez, Anne Teresa de Keersmaeker atribui aos músicos uma posição central no palco dando à partitura de György Ligeti o estatuto de intérprete. A dança e a música são aqui tratadas de forma completamente horizontal, o que tem sido apanágio desta coreógrafa maior.

O TEATRO EXPERIMENTAL DO PORTO (TEP) apresentará Estro / Watts peça-concerto idealizada em parceria com Paulo Furtado, The Legendary Tigerman, na qual se procurará entender o lugar da palavra na música, palavra essa carregada de significados e ativada como veículo de mensagem política. Será que, através da música, ainda se conseguem passar ideias e ideologias? Nos dias de hoje, que papel ocupa a palavra, enquanto letra, quando geralmente apenas ouvimos a melodia? 

Pela primeira vez no Teatro Municipal do Porto, o multidisciplinar artista suíço MARTIN ZIMMERMANN traz-nos a sua mais recente criação Eins Zwei Drei que conta com a presença do bailarino português Romeu Runa. Nesta criação, utilizando o novo circo, a dança, a música e o teatro, Zimmermann explora as tensões de três personagens num mundo tendencialmente asséptico e cooptado por convenções e códigos sociais precisos. Através da figura do clown assistiremos a uma peça que explora os limites do corpo e a tensão entre o instituído, a derrisão, as relações humanas e a luta de poder.

Continuando o nosso programa de legado da dança apresentaremos duas peças emblemáticas de MERCE CUNNINGHAM, dançadas pelo CCN - BALLET DE LORRAINE. Na senda das comemorações do centenário do seu nascimento teremos a oportunidade de ver remontagens de duas das mais importantes peças de Cunningham: Sounddance e RainForest, esta última com cenografia de Andy Warhol.

Numa estreita parceria com o Teatro Nacional São João iniciaremos o programa UNIÃO DE FACTO, programa de coapresentação de espetáculos que permitirá trazer ao Porto nomes maiores da dramaturgia e da coreografia mundial, no intuito de promover o cruzamento de públicos das duas instituições e de otimizar recursos envolvidos. Para começar esta parceria apresentaremos FRANK CASTORF, encenador alemão que dirigiu até 2015 a Volksbühne de Berlim, tido como um dos maiores encenadores da atualidade. A sua mais recente criação, Bajazet, considerando o Teatro e a Peste explora os universos de Racine e de Artaud com um elenco composto em exclusivo por atores e atrizes francófonos. Será certamente um prazer descobrir o teatro radical deste dramaturgo e ver Jeanne Balibar em cena. Uma conferência cia integrada no ciclo Modos de Ocupar, coordenado pelo jornalista Pedro Santos Guerreiro, acompanha este espectáculo e dá a conhecer o universo deste encenador em profundidade.

No Teatro Municipal do Porto a segunda parte da temporada é sempre marcada pelos festivais da cidade, o DDD - Festival Dias da Dança e o e o FITEI – Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica, que ocupam não só os espaços municipais, mas também grande parte dos espaços performativos do Porto, Matosinhos e Gaia. A parceria DDD+FITEI veio para ficar e nas três semanas e meia dedicadas à dança e ao teatro, entre 18 de abril e 10 de maio, teremos oportunidade de ver o que de mais pertinente se anda a fazer em artes performativas, em Portugal e um pouco por todo o mundo.

A terminar a temporada ocuparemos a Praça D. João I, terreiro do Rivoli, com um projeto inusitado que convoca a população da cidade a construir em conjunto um dos edifícios emblemáticos do Porto. Iniciamos assim a ocupação anual desta praça da cidade que, a partir deste ano, em julho, receberá o Teatro Municipal do Porto possibilitando a todos a experiência de participar em projetos que, de forma partilhada, encerram a nossa temporada. Ocupar em conjunto, construir de forma reflexiva e descobrir o mundo através da lupa dos artistas é o que propomos nestes meses de programação.

Contamos com todos!