Sara Carinhas

15 Novembro 2019

Sara Carinhas

Entrevista

atriz e encenadora 

Um novo espetáculo marca o teu regresso ao Teatro Municipal do Porto, depois de teres apresentado “Orlando”, em 2015. Este novo espetáculo, “Limbo”, uma coprodução do TMP, estreou já no início de 2019 [no São Luiz Teatro Municipal], e foi apresentado no espaço da Voz do Operário. Quase um ano depois, será apresentado no Porto. De lá para cá, como olhas o espetáculo? Há mudanças, o tempo traz um novo olhar sobre este espetáculo?


Sara Carinhas (SC) Eu acho que vai sempre surpreender-me e essa ideia de o revisitar vai modificar totalmente o espetáculo. E ainda para mais, depende do sítio onde é realizado, porque é de facto muito feito para o espaço que se ocupa. Portanto, uma das primeiras coisas que poderá acontecer é o guião ter de ser adaptado ao espaço. E isso pode, em última análise, modificar mesmo a ordem do que tínhamos construído para a Voz do Operário, ou então acrescentar mesmo coisas que não existiam no original. A ideia é suficientemente aberta para se modificar consoante o que aparecer. Há determinadas visões do espetáculo que eu própria não consigo ter. O guião brinca com várias narrativas mas, na verdade, não tem uma só, tanto que pode haver essa dificuldade de se estar sempre a tentar encontrar um tema, quando na verdade são vários que se cruzam. E por mais que pareça que tem um caminho, não é um espetáculo que eu ache que possa dizer apenas uma coisa. Quanto mais tempo passar, mais facilmente vou ver coisas que ainda não tinha visto e que estavam lá ao início.

Recuando a esse início. Como surgiu esta ideia?

SC Surgiu numa viagem a Atenas, há cerca de três anos, quando fui ver um pouco da realidade dos refugiados que lá chegavam. Não fiz grande coisa enquanto ser humano, a não ser ver como funcionava e ter algum diálogo com o embaixador, que nos ajudou a perceber os pontos onde as pessoas se encontravam e o que acontecia nesses sítios, quantos voluntários existiam, qual o sítio mais problemático… muitas coisas nunca vão aparecer no telejornal e isso é o mais interessante e o mais assustador quando se regressa. Isso criou em mim uma espécie de epidemia de ter que falar sobre este assunto com várias pessoas. Porque sou um bocado tonta (risos) e não aproveitei para registar muitas conversas que tive. Hoje em dia arrependo-me, mas consegui falar com pessoas que estavam mesmo muito longe de mim e que só falavam por Skype e pessoas que trabalhavam na ONU – foi um assunto que me interessou durante uma parte do tempo e eu nunca pensei que pudesse fazer um espetáculo sobre aquilo. Acho que é muito difícil fazer um espetáculo sobre aquela realidade ou pôr-se atores a fazer de refugiados… ia chegar-se a um momento em que o assunto ia fica completamente maltratado e frágil. Mas havia ali qualquer coisa. Havia uns temas que surgiam nestas conversas, principalmente sobre este sítio – que não é sítio nenhum – onde as pessoas passam o resto da vida, quer seja centros de refugiados, quer seja campos, quer sejam fronteiras. Foi o que me tocou mais porque era o mais angustiante. A palavra “Limbo” apareceu assim, mas ficou mais carregada depois de uma conversa que ouvi do Castelucci que aconteceu cá no Porto. Ele falou nessa palavra, porque ele gostava do “limbo”, o limbo de consciência, o limbo clínico, e ele gostava de trabalhar nesse sítio. E eu já tinha pensado nessa palavra, mas foi aí que surgiu o título. O título obviamente alimenta tudo o que se constrói porque ele está sempre em cima das nossas cabeças, é muito forte e existe em mais do que uma língua, ainda por cima. E no meio disto tudo, a outra ideia que acho que foi mais importante que todas as outras, foi a ideia de eu pensar em autores da minha geração, porque era importante haver uma geração para mim – e pensar neles sem fronteiras. E arrisquei, assim, uma junção de gente muito diferente e com escolas artísticas totalmente diferentes, mas que eu achei que tinham discurso e que vinham de sítios com uma visão tão diferente das coisas que seria bonito fazer esse diálogo.

Podemos então dizer que esta noção do que é o “Limbo” e no que pode aplicar nunca está fechada e que nos deparamos muitas vezes com realidades e situações que mais uma vez nos levam a questionar o que é que isto de fronteira, de espaço, de passagem de um lado para o outro. Como dizias isto é um espetáculo que na realidade vai ter sempre um significado diferente para ti consoante a altura em que é feito ou a altura em que o vês.

SC Isso seria ideal - que o que eu sinto sobre o objeto também seja partilhado por quem o vê. Que possa ter vários significados para várias pessoas. Ou seja, criar um objeto que tem umas aberturas que são as pessoas que ocupam. Outra coisa importante é que pedi também que o texto não fosse mais importante que uma canção ou uma coreografia. Damos várias oportunidades de partilhar textos e imagens que não seja só através da palavra dita. E isso também era importante para mim, construir e também tinha intérpretes muito completos que podiam ir até aí.

Que conhecimentos trouxeram os intérpretes? De alguma forma também são co-criadores, não é?

SC Completamente! O Pierre [Ensergueix] é nitidamente francês em várias coisas. Vinha com um discurso estranhamente patriótico, que não tinham essa bandeira, mas que também não viveram ataques à cidade como ele tinha vivido. Tinha um lado muito europeu nele, uma forma de contar histórias e de registo de imagens que nós não tínhamos. O Marco [Nanetti] é um feliz italiano que fez comedia dell’arte. É um italiano perdido em Londres à espera de poder ter um espaço. A Nádia Yracema é uma atriz fantástica. Nasceu em Angola, vive agora Portugal, mas viveu em vários sítios do mundo. Estava numa situação complicadíssima de ter perdido os papéis na guerra, a família ter fugido e, de repente, não poder viajar muito por ter de estar sempre a dizer que é portuguesa. Misturada com pessoas como o António [Bollaño]. O António, quando começou a fazer o “Limbo”, tinha 18 anos e estava entre não saber se queria ser ator ou bailarino. Portanto, eles traziam histórias que podiam partir deles para se tornarem mais universais. Porque é no pequenino e no pessoal que podemos falar daquilo. A figura da Filomena Cautela era muito importante porque é uma pessoa que é necessariamente encaixada num sítio do que ela é capaz de fazer ou a imagem que nós formamos dela. Mas conheço-a há muitos anos e que sei que tem um espectro de capacidades musicais, coreográficas, de comunicação, que seriam muito importantes neste espetáculo. E depois falta a Carolina Amaral, que é de Guimarães. É uma jovem artista que tinha visto a trabalhar e que achei que era muito completa.

E depois deste projeto, o que se segue? Sabes o que queres fazer a seguir, já tens alguma coisa pensada?

SC Eu aborreço-me com facilidade, então tenho um problema que é inventar sempre imensas coisas e não têm de ser todas sequer na zona das artes de palco. Estou agora a terminar uma dissertação que me obrigou a escrever sobre o que faço. E é interessante esse jogo da escrita sobre a prática, há qualquer coisa que eu acho que pode vir daí ou que vai entrar no que eu fizer. Tenho de fazer outra vez um zoom in, porque às vezes temos de aprender sozinhos algumas coisas para as podermos pedir aos outros. Eu sou muito feliz a ajudar, a dar aulas, a ser assistente. Tudo o que for estar ao lado de, em frente a. Ou, pelo menos, ajudar as pessoas a ficarem mais felizes. Imagino que a maior a parte dos projetos que possa inventar serão assim, nem que seja num sítio mais imprevisível.


Entrevista realizada a 25 de maio de 2019 na Oficina de Manutenção no Teatro Rivoli, por José Reis, Coordenador do Gabinete de Comunicação do TMP.
Fotografia © José Caldeira/TMP 
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