Victor Hugo Pontes

2 Dezembro 2019

Victor Hugo Pontes

Entrevista

Coreógrafo

Em dezembro, é apresentado “Drama”, no Teatro Rivoli [coprodução do Teatro Municipal do Porto]. Este espetáculo parte da obra dramatúrgica “Seis Personagens à Procura de um Autor” (1921), de Luigi Pirandello. No entanto, aqui, a palavra foi substituída pelo movimento, certo?


Victor Hugo Pontes (VHP) “Drama” é uma peça que tem como ponto de partida “Seis Personagens em Busca de um Autor”, do Luigi Pirandello. O que acontece é que faço um exercício conceptual, em que pego exatamente no texto do Pirandello e nas suas personagens e faço exatamente a peça que o autor se propõe fazer, mas sem palavras. Portanto, o que fica são as ações, são os gestos, são as emoções das personagens, são os conflitos, mas não existe palavra. Torna-se, assim, um objeto muito mais abstrato para quem está a ver, mas ao mesmo tempo há esta perceção de que é um jogo que está a ser jogado em cena e o espectador é convocado para completar esse jogo. O que se passa na peça do Pirandello é que está a decorrer um ensaio e esse ensaio é interrompido por seis personagens que vêm reclamar a sua vida. Vêm pedir que a sua vida seja posta em cena porque acham que a sua vida tem interesse dramático. E depois a própria companhia de teatro que estava a ensaiar para de ensaiar porque realmente é muito interessante aquilo que eles propõem. E a proposta acaba por ser o próprio espetáculo. É um jogo do teatro dentro do teatro; é um lado de observação que me interessa muito. Tanto é que, numa certa altura, já não temos um público, temos dois públicos; depois não temos um encenador, temos dois ou três ou nem sabemos quantos é que temos… As coisas vão-se desmultiplicando, acabando por criar um sistema de mise en abyme e com uma cena dentro de uma cena dentro de um cena.

Relativamente ao processo de trabalho, como se converte um texto escrito em movimento? Como se silencia a palavra e se dá voz ao corpo?

VHP Primeiro, passa-se por uma análise muito exaustiva do próprio texto do Pirandello. Ou seja, faz-se uma análise dramatúrgica e um estudo aprofundadíssimo sobre o tempo, qual a ação, quais os conflitos, quais as personagens que estão em cada cena - exatamente como o Pirandello nos propõe fazer. Há uma fase em que os intérpretes memorizam também o texto por aí se começa. É como se eu estivesse a fazer uma peça de teatro, sendo que depois esse texto é substituído por movimentos, por ação, por frases coreográficas, tentando respeitar esta dinâmica, estes conflitos e estas questões que o autor levanta na própria peça.

Este esbatimento de fronteiras entre o teatro e a dança é, de certa forma, um reflexo do teu próprio percurso?

VHP Eu mantenho-me nos dois. Acho que o meu trabalho é mais visível na área da dança do que no teatro, mas eu dou aulas de teatro desde sempre e fui assistente de encenação durante 10 anos – portanto, o teatro está lá desde o início. Sem dúvida que esta é uma peça onde eu aglutino duas áreas que me são muito próximas e nas quais eu tenho estado a trabalhar exaustivamente. Este projeto é, no fundo, a continuação de um outro. Ou seja, comecei esta pesquisa com um outro projeto que se chamava “Se alguma vez precisares da minha vida, vem e toma-a” e aí o ponto de partida era “A Gaivota” de Tchekhov. Agora, no “Drama”, tenho outras questões que não são tão fáceis de transcrever. E se n’“A Gaivota”, de certa forma, foi mais facilitado porque as cenas eram construídas em duetos, aqui não. Aqui, tenho 20 pessoas em cena, praticamente o tempo todo. E temos de perceber onde está o foco, onde está a ação, para onde devemos olhar, onde está o conflito e também condicionar, de certa forma, o olhar do espectador. Como não existe a palavra, todos têm a mesma presença e portanto temos de ter em conta a forma como depois essa presença é conquistada e nós conseguimos ir seguindo uma narrativa, sendo que há pessoas que seguem mais um personagem que outro e cada um acaba por ir fazendo a sua própria história.

E esse sistema de mise en abyme de que falas, essa duplicação de personagens e as diferentes camadas da narrativa, tornou-se confuso na sala de ensaios?

VHP Foi muito confuso! Brincamos muito com isso também! A confusão está lá e o equívoco também está lá desde o início. Nós não sabemos quem está a dirigir quem, quem são as personagens e quem são os personagens, quem são os atores que interpretam os personagens… ou agora faz de personagem ou agora faz de ator, quem é quem? Quem copia quem? Quem imita quem? E por isso é que eu fiquei com esta palavra - “Drama” - que quer dizer imitar o outro. Portanto parte sempre deste início básico que é o lado da imitação.

Qual o papel do espectador aqui?

VHP Gosto que as minhas peças sejam abstratas, incompletas. Digo sempre que são puzzles incompletos em que faltam peças, e essas peças têm de ser completas pelo próprio espectador, pelo público. E sem dúvida que neste espetáculo isso acontece imenso. O facto de eu retirar as palavras - que é o início de tudo - faz com que deixe muito espaço ao espectador para construir a sua própria narrativa, sendo que não precisa de ser uma narrativa linear. Ninguém vai perceber a nossa história ou a história do Pirandello, a não ser que a tenha lido, porque seguimos tudo o que está no texto cronologicamente. E o exercício era exatamente esse. Não era saltar ou eliminar umas partes em detrimento de outras. Interessava-me fazer exatamente o que estava no texto, esse é o desafio: não existe o “ah, aqui não sei como resolver por isso passo a frente”, tem de ser o “aqui não sei como resolver, mas vou ter de inventar uma forma de resolver isto”. E provavelmente algumas coisas têm de ser potenciadas, outras têm de ser exageradas – isto para darmos visibilidade a umas em detrimento das outras e não eliminar nada.


Entrevista realizada a 28 de maio de 2019 no Grande Auditório do Teatro Rivoli, por Leonor Tudela, do Gabinete de Comunicação do TMP.
Fotografia © José Caldeira/TMP 
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