Do Acontecimento

Manuel Bogalheiro

Do Acontecimento

© Carlos Lança

Dezembro

21/12 ter 18:30

RIVOLIPequeno Auditório

Conferência
Universidade Lusófona do Porto
Sobre A Estética do Acidente
Preço Entrada gratuita
Classificação etária 6+
A Estética do Acidente

No reverso do desejo de superação de cada solução técnica parece residir um fascínio obsessivo pela falha e pelo acidente, como se entre os efeitos traumáticos de uma desgraça ou os destroços materiais de uma catástrofe se pudesse reconhecer um cenário de revelação e de verdade, expondo o que sempre estave latente, o que não fora contemplado pelo plano ou o excesso do mundo que, como o sublime, deslumbra por, justamente, apavorar. Paul Virilio, que planeou um vasto arquivo visual da catástrofe a que deu o nome de Museu dos Acidentes, projectou na Modernidade o momento culminante desta tendência histórica: “A invenção da ‘substância’ é igualmente a invenção do ‘acidente’. O naufrágio é, consequentemente, a invenção em potência do navio, e o acidente aéreo a invenção do avião, assim como o derretimento de Chernobyl é a invenção da energia nuclear.” Confirmando ou questionando este determinismo, figurando variações de um acidente original – ou, inversamente, escatológico – em torno do qual a História se estrutura, inúmeras imagens, da mitologia ao cinema, foram sedimentando um imaginário estetizante do acidente que, se por um lado, procura o choque e o desconcerto, por outro, e porventura de modo mais decisivo, procura a instalação de um perímetro de segurança. Como o espectador de naufrágios que, de Lucrécio a Hans Blumenberg, foi sendo metaforizado como aquele que, espectacularizando ou ficcionando, permanece à distância da vaga contingente que irrompe e tudo leva, podendo contemplá-la, sem que, no entanto, não possa não se posicionar como alguém que também, em parte, constitui essa mesma vaga.


Do Acontecimento

Numa época do cálculo, da regra e da prevenção surge, repentinamente, o inesperado, algo que interrompe o curso das coisas e ameaça o discorrer da vida. Numa espécie de paradoxo, quanto mais se antecipa o acidente mais este, ao surgir, se apresenta como catastrófico e intratável. Entende-se que, neste contexto, a ideia de Acontecimento, contingente e imprevisível, se tenha vindo a impor para dar conta de forças que excedem as formas históricas, venham elas da natureza, como uma catástrofe, ou do interior da história que fazemos, disseminadas como um incêndio ou uma epidemia. Existe um certo pânico perante esse excesso de força e a debilidade das formas, ainda que boa parte da cultura humana se tenha baseado na espera por um acontecimento decisivo, uma revolução, através da qual a paz ou a justiça possam vencer definitivamente. Disso, uns são testemunhas, outros anunciam, outros, cansados de esperar, perdem toda a esperança. Mas é apenas pela arte, pelo pensamento e pela técnica que se responde ao Acontecimento e se cria o labirinto onde, como com o antigo Minotauro, podemos estar próximos dele e da sua potência, sem a ilusão de o anular ou controlar. 


Manuel Bogalheiro é professor na Faculdade de Comunicação, Artes, Arquitectura e Tecnologias da Informação da Universidade Lusófona do Porto (ULP) e professor auxiliar convidado na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. É doutorado em Ciências da Comunicação, especialidade de Cultura Contemporânea e Novas Tecnologias (FCSH-UNL), com uma tese intitulada “Materialidade e Tecnicidade: investigação sobre a objectualidade técnica”, tendo sido bolseiro FCT. É investigador integrado do Centro de Investigação em Comunicação Aplicada, Cultura e Novas Tecnologias (CICANT), membro do comité científico do projecto europeu financiado “CA2RE+ Collective Evaluation of Design Driven Doctoral Training” e é o representante dos jovens investigadores da secção de Filosofia da Comunicação da European Communication Research and Education Association (ECREA). É diretor do Mestrado em Comunicação, Redes e Tecnologias da ULP e integrou, entre 2017 e 2021, a direção do doutoramento em Arte dos Media (ULP/ULHT). Investiga e publica nas áreas da filosofia da técnica, das materialidades dos media e da teoria da cultura. Recentemente, editou e coordenou os volumes Crítica das Mediações Totais – Perspectivas Expandidas dos Media (Documenta, 2021) e, com Isabel Babo e João Sousa Cardoso, Expressões Visuais Disruptivas no Espaço Público (Edições Lusófonas/CICANT, 2021).

Dezembro

21/12 ter 18:30

RIVOLIPequeno Auditório

Conferência
Universidade Lusófona do Porto
Sobre A Estética do Acidente
Preço Entrada gratuita
Classificação etária 6+