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10 Janeiro 2020

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... Perguntas a Ana Vitorino e Mário Moutinho (Visões Úteis)

“Little B” – em cena no Teatro Rivoli entre os dias 15 e 19 de janeiro – é uma peça inspirada pela biografia profissional e pessoal do Mário Moutinho. No entanto, não tem como objetivo apresentar uma retrospetiva histórica ou arquivista da vida do Mário apenas. Que caminhos e ideias procuraram explorar para falar sobre os anseios, certezas ou experiências por que todos nós passamos nas nossas vidas?

Ana Vitorino (AV) O “Little B” partiu de um desejo que andava na cabeça do Mário de fazer um espetáculo que fosse, de alguma maneira, inspirado pelas histórias da sua vida – não só pessoal como profissional. Mas uma coisa que o Mário recusava desde o início – e que lhe metia um bocado de medo – era precisamente não fazer um espetáculo documental por si, um espetáculo de balanço da vida ou fosse o que fosse. E, nós (Visões Úteis), entramos um bocado neste processo apenas para o ajudar – porque o Mário era o nosso Artista Associado em 2018 e 2019 – e dar um apoio para ele encontrar o caminho do próprio espetáculo. E, depois, fascinamo-nos tanto com a vida dele e com as histórias que ele ia contando que percebemos que era um material que nos interessava enquanto criadores. E foi isso que nós lhe propusemos: porque é que não fazemos isto juntos? Fazendo juntos, obviamente nunca seria… Nós não somos arquivistas nem documentadores propriamente, somos criadores também. E, portanto, o que nos interessava eram essas pontes que o Mário criou ao longo da vida: não só com uma série de áreas como com uma série de pessoas e outros aspetos que estão na vida do Mário – e que acabam por estar também nas nossas vidas e na nossa maneira de ver a vida. Este espetáculo acaba por ser muito mais sobre isso do que sobre os factos históricos concretos. A vida do Mário é uma desculpa para se falar de outras coisas. Não nos interessa apenas questionar o que é essa ideia de biografia e como é que se documenta a vida de uma pessoa. Fugimos disso e percebemos ao longo do processo que diz muito mais sobre uma pessoa aquilo que não se concretizou do que fazer um balanço ou uma documentação daquilo que foi feito, em que datas foi feito, em que circunstâncias foi feito. Isso não interessa tanto… Por outro lado, interessa-nos muito mais a nós – e penso que ao Mário também – a ideia de que a nossa vida não se completa no nosso percurso de vida. A nossa vida está espelhada na vida dos que vieram antes e na vida dos que vêm a seguir. É quase cíclico e o espetáculo sendo em loop representa um bocado isso. Percebemos que o Mário está nas nossas vidas e nós estamos na vida dele, não tanto no sítio onde historicamente estivemos juntos ou onde nos encontramos, mas porque nós passamos pelas mesmas experiências, anseios, dúvidas e saltos na continuidade da vida. E é muito interessante perceber como é que uma pessoa que nasceu umas décadas antes – como é o caso do Mário – e umas décadas depois – como é o caso da atriz mais nova que integra o elenco –, como é que estas três gerações passam pelas mesmas coisas. Esta ideia de continuidade na nossa vida e na vida dos outros tornou-se muito mais interessante e mais importante para o espetáculo do que fazer uma biografia histórica.

O Visões Úteis trabalha, geralmente, de uma forma colaborativa. Nesse sentido, como foi trabalhar com o Mário, como foi o processo criativo, como foi relacionar todos os episódios e as perspetivas da vida do Mário e de todo o elenco do "Little B"?

AV No “Little B” tomamos um risco – que tomamos muitas vezes porque gostamos de trabalhar assim e de nos desafiar continuamente –, que foi partilhar a direção e a escrita do espetáculo com o próprio Mário, os dois diretores do Visões e depois convidamos a Sara Barros Leitão para também ser diretora e coautora do texto. E, foi um trabalho a quatro, completamente, desde o início até ao fim! Nós partimos do material “Mário”… (risos). O Mário tornou-se material para nós em bruto, levantamos imensas histórias. A certa altura do projeto tivemos que fazer uma cronologia da vida dele, porque estávamos completamente perdidos. Foi só mesmo para nos orientar porque sabíamos que não era isso que queríamos para o espetáculo mas precisávamos mesmo de nos orientar (risos). O Mário fez muitas coisas, em muitos momentos. Parece que viveu imensas vidas ao mesmo tempo. E depois escrevemos a partir daí, desse material levantado. E foram muito importantes estas três perspetivas: a minha e do Carlos Costa, que estamos habituados a trabalhar juntos no Visões e a escrever em conjunto; a do Mário, que vem com outra perspetiva e também porque está a falar da sua própria vida (estando num lugar especial enquanto criador e diretor); e a da Sara Barros Leitão, que vem também de uma experiência prévia de fazer um trabalho sobre o património e o espólio do TEP [Teatro Experimental do Porto], e que é uma pessoa bastante arquivista na sua maneira de abordar as vidas dos outros. Foi desta mistura de perspetivas que se escreveu este guião, que é um guião que fazia sentido para os quatro.

Estando o Mário envolvido em todas as fases e papéis deste projeto – desde a criação, escrita e direção até ao facto de ser o próprio “material” de análise – como foi este processo criativo e de reflexão/recordação de episódios, pessoas e projetos da sua vida?

Mário Moutinho (MM) O processo resultou muito de conversas informais. O projeto nasce de conversas onde referi que não cria um espetáculo biográfico, mas que queria abordar algumas coisas, principalmente, sobre o teatro que se fazia quando comecei. E, portanto, o trabalho começa a desenvolver-se quando eu começo a falar como é que eu cheguei ao teatro e, depois quando cá cheguei, como é que desenvolvi a minha carreira no teatro, no cinema e noutras áreas. No meio desta descrição da minha vida foram também aparecendo histórias: umas mais dramáticas, outras mais curiosas. E os meus colegas foram apanhando essas coisas, foram somando e juntando tudo isso. E, numa altura em que estava um grande bolo de coisas, foi preciso fazer uma cronologia desses acontecimentos. E depois o trabalho de construção final partiu de algumas coisas que estavam ali, juntamente com algumas das histórias da minha vida. Mas também se cruza com histórias deles próprios… A Ana referiu há pouco que há momentos em que nós efetivamente nos cruzamos – quer profissionalmente quer pessoalmente – mas há também anseios, momentos, viagens, trabalhos de criação, angústias, sucessos, ideias de fazer coisas, que são comuns a todos nós e às três gerações que trabalharam em conjunto. Portanto, foi um processo muito harmonioso e nascido de conversas que começaram, primeiro, de uma vez por mês, para depois uma por semana, até serem todos os dias, na parte final do processo.
AV É preciso sublinhar a extrema generosidade do Mário, que pôs a sua vida ao nosso dispor, literalmente, e compreendeu uma coisa que não deve ser fácil para muita gente: a sua biografia era material. E, portanto, foi preciso traçar alguns limites – sempre na base do respeito absoluto. Fomos muito cuidadosos desde o início, nas questões do que se leva para a cena, do que se diz, das pessoas e acontecimentos que se referem. Estabelecemos uma série de regras para definir como é que esse material é transportado para a cena. Porque a história do Mário, é a história de muitas pessoas (muitas delas irão ver esse espetáculo e outras já não cá estão) e a própria história do teatro, das artes, da comunicação no Porto e no país. Mais uma vez, quando falamos da história da vida de uma pessoa não estamos só a falar da sua vida. Estamos a falar da vida de muitas outras e é preciso essa ideia de respeito. E o Mário teve também essa capacidade de falar da sua vida e de contar as suas histórias (contando-as por dentro porque é o sujeito principal). Ao mesmo tempo dava um passo atrás enquanto criador, observava, ficava, às vezes, num limbo, e dizia: “Mas isto não interessa para nada”. E nós respondíamos: “Interessa interessa, essa é a parte que exatamente interessa” (risos). E ele não percebia muito bem porquê. Nós estávamos de fora e essa viagem constante de limbo durante o processo também foi muito interessante de observar.

À partida não definiram então que determinados episódios e pessoas tinham que ser ou não representados em cena. A dramaturgia foi resultando das conversas informais.

MM À partida não tínhamos nada pensado! O que aconteceu é que no conjunto das histórias e das conversas que fomos tendo, a Ana, o Carlos e a Sara encontravam cenas ou histórias ou partes da minha vida que achavam significativas. Às vezes, tal como a Ana referiu, eram cenas que eu não dei grande importância mas eles por outro motivo e pela visão exterior conseguiam perceber que eram interessantes.
AV A ideia do “Little B”, por exemplo, que é o que dá título à peça, esteve muito no início do processo e foi daquelas coisas que nós agarramos logo. A ideia de que o Mário foi baterista na sua juventude e há um solo de bateria que ele nunca tocou. Um solo que ele gostava muito de ter tocado quando era jovem. Hoje talvez não gostava ou gostava e não tocaria. E esta ideia de que as coisas que nós não concretizamos tornam-se quase sonhos ou símbolos espetaculares na nossa mente… Na verdade, não têm tanto interesse quanto isso. Nós é que ficamos a pensar naquela coisa que ficou por fazer. Para nós ficou claro também, logo no início, que este não era um espetáculo de acerto de contas com a vida nem com o passado, nem de vinganças nem de concretizar desejos ocultos. É mesmo sobre aquilo que nós somos. É um balanço do que nós fizemos, mas também sobre todas as outras coisas que ficaram por fazer e a projeção que nós fazemos sobre essas coisas. Na verdade, se formos olhar bem para elas, não são assim grandes desejos. Mas gostamos de guardar estas ideias românticas na cabeça. É o tipo de coisa que quando o Mário nos contou (a história do solo da bateria), ficou logo! Outras não, foram surgindo ao longo do processo.
MM É curioso que nem sequer contei a história do “Little B” (risos). Estava escrito numa das crónicas que eu escrevi uma vez, eles leram e disseram: “Isto é fantástico, tem que ser por aqui”. E partiu-se de algo a que eu não dei muita importância… Não daria se calhar, durante as nossas conversas, grande importância ao facto de nunca ter tocado o “Little B”. E daria com certeza mais importância a outras coisas que quis fazer e estive em projeto de fazer ou que desejei fazer e que não concretizei.

O “Little B” já estreou em Ponte de Lima e foi apresentado em Setúbal. Como é que correram estas apresentações e como antecipam estes dias em cena no Teatro Rivoli?

AV Nós vemos um bocado esta apresentação como a estreia (risos). Não podemos deixar de pensar assim desde o início, não só porque o Teatro Municipal do Porto foi coprodutor deste espetáculo desde o início mas porque a vida do Mário, de facto, também se confunde com a vida do Porto. E pensamos muito como é que isto seria acolhido pela própria cidade e pelas pessoas da cidade. Foi muito interessante ter estas mini-estreias ou antestreias especiais antes porque nos permitiu testar aquilo que tínhamos escrito e construído fora deste contexto. Em Ponte de Lima (no início de novembro), fizemos o espetáculo tal como ele vai ser feito no Rivoli e foi interessante. Mas não deu para perceber porque muitas pessoas do Porto foram assistir a esse primeiro espetáculo e confundiu-se um bocado. Já em Setúbal estávamos realmente muito longe de casa, digamos assim, e deu para perceber que foi um espetáculo que interessou muito às pessoas. Se calhar nem conheciam bem as referências, mesmo a própria ideia do Mário. Conheciam-no vagamente, qual a sua importância, aquilo que ele fez e o percurso dele. Mas gostaram muito do espetáculo. Acho que perceberam essas outras camadas de densidade sobre a ideia do que é uma vida, o que é essa ideia de começo e de fim – que na verdade é falsa, somos nós que desenhamos essa narrativa linear – e depois isto abre muitas referências sobre Portugal em geral e sobre diferentes tempos, e estas três gerações em Portugal. E, portanto, acabou por ser um pouco indiferente se as pessoas eram do Porto ou não. Aqui [no Rivoli], vai ganhar dimensões extremamente interessantes, pelo próprio público que virá ver e que se vai reconhecer na história do Mário.
MM Espero que pelo menos algum deles reconheça. A Ana disse tudo, quase que não vale a pena acrescentar nada. Diria apenas que um dos receios que eu tive quando começamos a fazer este trabalho, foi de que este espetáculo ficasse muito centrado em aspetos da minha vida e que fosse reconhecido apenas pelas pessoas que me conhecem ou que conhecem o meu percurso. As experiências, principalmente a de Setúbal, dão-me a noção de que realmente o espetáculo pode chegar a um conjunto de pessoas. Até a forma como no final as pessoas vieram ter connosco e fizeram perguntas sobre quem eu era, o que aconteceu antes e o que aconteceu depois, porque é que falamos daquilo… Foi muito curioso, isso alivou-me um bocado desse medo inicial que tinha.