Julho2021

Sáb3

ARK Porto Escola dos Confins e de Nenhures

Crónica das Margens. Lição n.º 2

ARK Porto Escola dos Confins e de Nenhures

© Alexandra Fernandes

ARK Porto Escola dos Confins e de Nenhures
Crónica das Margens*

Lição n.º 2
Visões Úteis. Ana Vitorino e Inês de Carvalho, Mapa de Interrupções de Campanhã
Por Gisela Leal

Como é que as palavras podem definir territórios? E de que modo os obstáculos à circulação interferem com o sentido de pertença a um território? Estas foram as duas ideias que serviram de base a Ana Vitorino e Inês de Carvalho para explorar a freguesia de Campanhã e desenhar o seu mapa. Eram fronteiras invisíveis as que procuravam. Se existiam ou não, as suas investidas no terreno – calcorrear as ruas, falar com as pessoas à porta de casa – iriam ajudá-las a descobri-lo. O trabalho do Visões Úteis é essencialmente performativo, sobre e com a comunidade, e encontra em Campanhã a sua atual residência.
Nesta aula-performance, Ana e Inês partilharam as experiências de outros projetos que iniciaram também em tempo de COVID-19, entre os quais um teria especial destaque pela sua relação com espaços de interseção: um mapeamento de comunidades raianas. A aprendizagem de palavras que resultou desse processo – e que em jeito de exercício letivo partilharam com os alunos desta aula – acabou por marcar uma primeira leitura das suas investidas por Campanhã: que palavras são visíveis nas paredes, na publicidade? Constatação: há diferentes níveis de vocabulário, que se vai alterando conforme se transita da linha limítrofe mais ocidental para oriente, para a zona mais pobre da freguesia e da cidade.
Quanto às interrupções, a constatação foi a de que elas são mesmo bem visíveis. Não são proibições (apenas para os carros), mas obrigam as pessoas a desviar-se do seu caminho ou a ter de fazer esforços acrescidos para chegar de um ponto a outro, numa zona que é a sua de residência ou de trabalho ou de convívio social. As questões que o mapa do Visões Úteis levanta são, pois, questões de pertença e de exclusão, numa relação da comunidade com o território que habita. Este mapa sublinha “o paradoxo entre as ideias que as palavras nos mapas nos passam dos lugares e a sua realidade”.

*Crónica das Margens - Gisela Leal, Cronista das Margens, acompanhará as expedições trans/inter/fronteiriças da ARK Porto Escola dos Confins e de Nenhures, fazendo o levantamento de coordenadas e o reconhecimento dos territórios sensíveis explorados pelos "novos cartógrafos" da cidade nesta sala de aula a céu aberto. Diariamente, em modo grafado e/ou gravado, fará o resumo da matéria dada.
 
© Alexandra Fernandes

© Alexandra Fernandes

 
© Alexandra Fernandes

© Alexandra Fernandes