Junho2021

Ter29

Entrevista

Renata Portas

Entrevista

© José Caldeira / TMP

Encenadora de Dramatículos de Samuel Beckett, apresentado nos dias 8, 9 e 10 de julho, no Teatro Rivoli.

Esta peça é uma adaptação, uma inspiração, uma confrontação ou simplesmente uma encenação dos dramatículos de Samuel Beckett? Algum ou nenhum deles?

É outros. É um diálogo. Beckett é um autor muito especial...aquela frase que dizemos sempre a cada encenação. Encenar é uma arte muito difícil. O Beckett, não era só um grande dramaturgo, era um grandíssimo encenador. Era um homem absolutamente brilhante na forma como trabalhava a matéria teatral, o tempo, a linguagem, os silêncios, etc. Então, quando comecei a pensar fazer o Beckett, quando o propus ao Rivoli há cerca de três anos, pensei: “Não vou alterar nada” – até porque com Beckett há sempre esta questão do que se altera, o que não se altera. Enfim, direitos de autor à parte, há toda uma doxa que nos diz que não devemos mudar, justamente por causa da justeza das coisas, não só do texto, mas da encenação e da musicalidade que ele propõe. Eu lembro-me de comentar com um dos atores, que me perguntava no ano passado: “Como é que vai ser? O que é que vais fazer?”. Ao que respondi que iria cumprir o que está lá e que iria ser um exercício de humildade. É e não é. É um exercício de humildade porque apercebi-me que tinha mesmo de cumprir algumas coisas, quase todas, que dizem respeito ao tempo e ao ritmo, para perceber que ele testou todas as outras hipóteses. Quando nós íamos para uma outra hipótese, percebemos que ele já a tinha testado e que a dele era melhor. É, portanto, um exercício de humildade, no sentido em que te subtrais perante este autor. E depois há um exercício de confrontação, mas que é uma confrontação completamente amorosa, porque eu sou absolutamente enamorada por ele, não é uma provocação de génio. Há cenas inventadas e há alterações, como por exemplo no Not I. Sendo o Beckett o encenador e dramaturgo que era, de uma radicalidade absolutamente insuperável, e eu digo isto porque a sua peça mais contemporânea chama-se Breath, que basicamente é um monte de lixo a respirar durante 25 segundos a 1 minuto. E com isto afirmo que não conheço nenhuma obra de arte contemporânea que seja tão radical quanto esta, a última obra dele. Por isso, pensando em toda a obra do Beckett, decidi que teria que fazer algumas derivas, teria que falhar nalguns pontos e experimentar algumas coisas. Então, acaba por ser um misto de carta amorosa e provocação.


Tendo o Rockaby como exemplo, este texto explora a natureza do envelhecimento na sociedade contemporânea, representa questões de qualidade de vida para os idosos frágeis e solitários em comunidades e instituições de saúde. No fundo, como os idosos se preparam para o fim da vida numa cultura que nega a morte. Este trabalho diz-nos como não devemos envelhecer?

O Beckett gostava de velhos e entendia uma coisa: nós, somos todos velhos, todos. Há células nossas a morrer neste momento e, evidentemente, ter 5, 50 ou 85 anos são coisas diferentes. Mas o Beckett não só reconhecia que, sempre que respiramos, caminhamos para a morte, como percebia que é possível uma espécie de pequena alegria na meia-ruína da vida.
Beckett pega em objetos tão banais e quotidianos como uma cadeira de baloiço, pega numa janela; há vizinhos, olhos... mas ao mesmo tempo isto é um monólogo interior, é sobre envelhecer, como é sempre. Não sei se é para nos ensinar, pois nisso tenho algumas afinidades nihilistas, mas a meio deste pessimismo absoluto, é possível assobiar melhor, falar melhor, ver melhor. Atualmente, o grande tabu da nossa sociedade é a morte. Vivemos uma pandemia e há uma espécie de pandemónio a acompanhar a reação à pandemia porque há muito que deixamos saber lidar com o facto de que envelhecemos. As pessoas querem todas ser absolutamente novas, num modo muito mais piroso que na Grécia [risos] e talvez esta situação que vivemos agora sirva justamente para nos lembrarmos que somos todos matéria morta.


Tomando como ponto central a noção de tempo, porque decidiste explorar esta temática e como se trabalha um objeto tão abstrato e intangível como este?

Há três coisas neste espetáculo e na maior parte dos meus espetáculos: o tempo, a linguagem e a morte/memória. Todos são mais ou menos a mesma coisa. Cada vez que digo “tempo” aniquilo a coisa sobre a qual estou a falar. Falar é adiar o tempo, lembrar é tentar recuperar tempo e, no meio disto tudo, é possível trabalhá-lo. Para mim, o teatro é o sítio mais privilegiado para se trabalhar a questão de tempo e espaço, que podem ou não caminhar juntos. Por isso, o tempo neste espetáculo vem ao encontro destas noções.
Como é que eu trabalho e cruzo um pensamento mais apocalíptico com as indicações do Beckett que são dos 60’s, 70’s? Afinal, não é isto a que se chama contemporâneo hoje, mas a mim interessam-me questões universais e interessam-me questões às quais eu não sei responder. Eu não sei sequer dizer muito bem o que eu considero tempo, a não ser que é uma espécie de memória de retalhos sobre a qual eu tento caminhar.


O que podemos esperar da cenografia, luz, som e caracterização destes Dramatículos? De que forma estes elementos alimentam o texto e encenação?

Vou falar um pouco da equipa. É uma equipa grande e muito colaborativa que se foi formando. Alguns já estavam dentro do projeto, outros foram sendo recomendados, outros foram entrando, outros foram desistindo, etc. Foi um processo de quase oito meses com muitas tropelias pelo meio, mas a equipa que está é absolutamente fantástica, alguns dos membros com pareceres técnicos, mas a equipa é toda artística. A cenografia é do Sérgio Leitão, uma estreia absoluta de um artista plástico de Cascais, mas radicado no Porto já há alguns anos. A cenografia – de fratura, ruína, da exposição da própria visão de Beckett e disposição – nasce da leitura do Sérgio. A música é do St. James Park, que abre ironicamente espaços de silêncio e que consegue modificar a qualidade do tempo. Temos o Diogo Mendes, que começa agora a fazer trabalho próprio, que é já um colaborador regular e não é “só" um desenhador de luz, é alguém que tem um pensamento único sobre o assunto e que dialoga comigo de forma a criar uma unidade. A nível de caracterização, há indicações da Ruby Kruss para o Play, uma das peças, que se passa em urnas contemporâneas. Há ainda o Diogo Machado, que faz dois objetos cénicos e fílmicos, e a sua colaboração com o Edgar Pera, que o ajudou com a montagem. Entre muitos outros, o Jordann Santos, que trabalha há muito tempo comigo nos figurinos.
Vou ser megalómana, é claro que eu espero que o que se veja em palco é o meu pensamento artístico, mas é o meu pensamento artístico a dialogar com a restante equipa, com toda a gente que participa. São uma série de artistas, cada um à sua moda, a tentar criar um espetáculo coeso.
Em suma, este espetáculo aborda cinco dramatículos de Beckett: Ohio Impromptu, Rockaby, Play, Not I, Footfalls. São cinco peças muito breves sobre a condição humana e a ideia de ruína. Um espetáculo colaborativo, desenvolvido com muita gente e é uma estreia absoluta.


Entrevista realizada a 25 de junho de 2021 por Pedro Sousa, elemento do Gabinete de Comunicação do TMP.
 
© José Caldeira / TMP

© José Caldeira / TMP