1, 2, 3...
... Perguntas a Ricardo Neves-Neves
Abril
2019
Qua
3
Um ano depois da estreia em Lisboa, no São Luiz Teatro Municipal, "Banda sonora" chega agora ao Teatro Rivoli. O processo de criação da peça parte de uma composição musical, que dá mote a ideias de encenação/ ambiente e culmina num texto. O que nos podes dizer sobre o processo de desenvolvimento de “Banda sonora”?
O "Banda sonora" teve um processo criativo um bocadinho diferente dos outros espetáculos. Normalmente, nós começamos com o texto, ou meu ou de outro autor, e a partir daí é que surge uma ideia de encenação e, depois, se há ou não utilização da música, música ao vivo ou música gravada. Mas desta vez partimos com outro pressuposto. O ponto de partida era a música do Filipe Raposo. E depois, foi a partir dessa composição que desenvolvi o texto e a ideia de encenação. Na verdade, aquilo que nós tínhamos logo no primeiro dia de trabalho era informação da colaboração da Orquestra Académica Metropolitana de Lisboa e seis atrizes cantoras. Através de várias conversas com o Filipe e de um processo de ideia-puxa-ideia, fomos construindo um princípio dramatúrgico. A partir daí, o Filipe começou a compor. Entregou-me as músicas e eu fui dando mais ou menos um caminho, ou uma função, para cada música - umas músicas são cantadas e outras músicas são tocadas como fundo de texto.
De que forma os diferentes elementos — cenário, o facto de serem três personagens órfãs interpretadas por seis atrizes e a música — se conjugam para a criação de um ambiente de conto infantil de terror?
Precisamente ainda nas primeiras conversas com o Filipe Raposo, percebemos que o termo “banda sonora” é muito mais utilizado no cinema do que no teatro. Então, começamos esta perseguição pelo que é a ideia de cinema, quais os temas abordados, até chegarmos à questão do terror e do horror. E, a partir daí, fiz uma investigação sobre contos tradicionais portugueses e contos tradicionais europeus que têm uma forte presença do terror, da violência, são contos muito duros. Na verdade, também politicamente incorretos e esse pareceu-nos ser um material muito rico para desenvolver a dramaturgia. Depois, como muitos dos contos são passados em bosques, em florestas, achamos que neste nosso espetáculo seria também importante essa presença da natureza e pedimos ao Henrique Ralheta, que é o cenógrafo, para desenvolver uma floresta que tem tanto de realista como de encantada. Portanto, nós olhamos e numa primeira relação é uma floresta realista, mas temos alguns momentos em que esta floresta dança, paira no ar, etc.. Portanto vemos que tem ali um lado encantado que nós fomos também buscar a estes contos tradicionais.
A peça tem como objetivo alertar para a efemeridade da vida e a relação atual do ser humano com a natureza. Como é que isto se traduz no decorrer da peça e na presença de diferentes elementos cénicos?
Interessou-nos fazer uma reflexão sobre a vida e sobre a sua duração numa primeira camada mais superficial, que é o jogo entre as personagens, as crianças e também o jogo entre as atrizes nesta troca entre a palavra e a música. Num sentido um bocadinho mais profundo, interessou-nos falar sobre a passagem do tempo, sobre a infância, sobre alguma distância que já existe sobre a infância, mas que também existe muita memória. Neste momento, em que há colegas nossos dentro da nossa equipa que já estão a ter filhos e que, portanto, têm um outro contacto com a infância, começamos a perceber aquelas coisas que os nossos pais e os nossos avós nos têm vindo a dizer nestes anos que é “Isto realmente passa muito depressa”. E então fomos pensar estas personagens como se tivessem o tempo de vida de uma borboleta. Porque uma borboleta tem um dia de vida e estas personagens têm todas um dia de vida, fomos pensar como é que será este arco de tempo, de duração de vida. O que é que se faz num dia de vida, o que é que pode acontecer. E, na verdade, acaba por ser uma metáfora sobre a rapidez da nossa vida e o que fazemos com isso. Com o que é que brincamos uns com os outros, discutimos uns com os outros, alimentamo-nos, respiramos, dormimos. Tudo aquilo que acontece na nossa vida, às vezes mais superficial, às vezes mais profundo, às vezes a brincar, outras vezes a chorar. E foi este o mote a traço grosso de escrita de texto.
Fotografia © Alípio Padilha
O "Banda sonora" teve um processo criativo um bocadinho diferente dos outros espetáculos. Normalmente, nós começamos com o texto, ou meu ou de outro autor, e a partir daí é que surge uma ideia de encenação e, depois, se há ou não utilização da música, música ao vivo ou música gravada. Mas desta vez partimos com outro pressuposto. O ponto de partida era a música do Filipe Raposo. E depois, foi a partir dessa composição que desenvolvi o texto e a ideia de encenação. Na verdade, aquilo que nós tínhamos logo no primeiro dia de trabalho era informação da colaboração da Orquestra Académica Metropolitana de Lisboa e seis atrizes cantoras. Através de várias conversas com o Filipe e de um processo de ideia-puxa-ideia, fomos construindo um princípio dramatúrgico. A partir daí, o Filipe começou a compor. Entregou-me as músicas e eu fui dando mais ou menos um caminho, ou uma função, para cada música - umas músicas são cantadas e outras músicas são tocadas como fundo de texto.
De que forma os diferentes elementos — cenário, o facto de serem três personagens órfãs interpretadas por seis atrizes e a música — se conjugam para a criação de um ambiente de conto infantil de terror?
Precisamente ainda nas primeiras conversas com o Filipe Raposo, percebemos que o termo “banda sonora” é muito mais utilizado no cinema do que no teatro. Então, começamos esta perseguição pelo que é a ideia de cinema, quais os temas abordados, até chegarmos à questão do terror e do horror. E, a partir daí, fiz uma investigação sobre contos tradicionais portugueses e contos tradicionais europeus que têm uma forte presença do terror, da violência, são contos muito duros. Na verdade, também politicamente incorretos e esse pareceu-nos ser um material muito rico para desenvolver a dramaturgia. Depois, como muitos dos contos são passados em bosques, em florestas, achamos que neste nosso espetáculo seria também importante essa presença da natureza e pedimos ao Henrique Ralheta, que é o cenógrafo, para desenvolver uma floresta que tem tanto de realista como de encantada. Portanto, nós olhamos e numa primeira relação é uma floresta realista, mas temos alguns momentos em que esta floresta dança, paira no ar, etc.. Portanto vemos que tem ali um lado encantado que nós fomos também buscar a estes contos tradicionais.
A peça tem como objetivo alertar para a efemeridade da vida e a relação atual do ser humano com a natureza. Como é que isto se traduz no decorrer da peça e na presença de diferentes elementos cénicos?
Interessou-nos fazer uma reflexão sobre a vida e sobre a sua duração numa primeira camada mais superficial, que é o jogo entre as personagens, as crianças e também o jogo entre as atrizes nesta troca entre a palavra e a música. Num sentido um bocadinho mais profundo, interessou-nos falar sobre a passagem do tempo, sobre a infância, sobre alguma distância que já existe sobre a infância, mas que também existe muita memória. Neste momento, em que há colegas nossos dentro da nossa equipa que já estão a ter filhos e que, portanto, têm um outro contacto com a infância, começamos a perceber aquelas coisas que os nossos pais e os nossos avós nos têm vindo a dizer nestes anos que é “Isto realmente passa muito depressa”. E então fomos pensar estas personagens como se tivessem o tempo de vida de uma borboleta. Porque uma borboleta tem um dia de vida e estas personagens têm todas um dia de vida, fomos pensar como é que será este arco de tempo, de duração de vida. O que é que se faz num dia de vida, o que é que pode acontecer. E, na verdade, acaba por ser uma metáfora sobre a rapidez da nossa vida e o que fazemos com isso. Com o que é que brincamos uns com os outros, discutimos uns com os outros, alimentamo-nos, respiramos, dormimos. Tudo aquilo que acontece na nossa vida, às vezes mais superficial, às vezes mais profundo, às vezes a brincar, outras vezes a chorar. E foi este o mote a traço grosso de escrita de texto.
Fotografia © Alípio Padilha
"Banda sonora"
