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Anarquivo

A Love Supreme

Novembro

2018

Ter
20
Por Raquel S.

ACKNOWLEDGMENT
John Coltrane. 1957. Depois de drogas, depois de alcool, depois de ser despedido da banda do Miles Davis, o músico experimenta o que chama de “despertar espiritual”. Data desconhecida. Fecha-se no quarto vários dias. Compõe, escreve. A Love Supreme. Dezembro de 1964. Num estúdio, com as luzes baixas, junta-se a McCoy Tyner, ao piano, Jimmy Garrison, no contrabaixo e Elvin Jones na bateria. No saxofone tenor, John Coltrane. Gravam os 33 minutos de A Love Supreme.
Divide-se em quatro movimentos. No fim do primeiro, “Acknowledgement”, ouvimos a voz de Coltrane: A love supreme, A love supreme, A love supreme, A love supreme. Dezanove vezes.
A sua música passará a estar irremediavelmente ligada à sua devoção a Deus.


RESOLUTION
2005. Anna Teresa de Keersmaeker e Salva Sanchis coreografam o espectáculo que se chama A Love Supreme, e que parte da obra-prima de Coltrane. Pela primeira vez, há improvisação no trabalho de Keersmaeker. Pela primeira vez, colabora com outro coreógrafo. Quatro Intérpretes. Dois homens e duas mulheres. Vestem de branco, num cenário branco, e dançam ao som da música gravada.


1964. Gravam também uma versão do primeiro movimento sem a voz de Coltrane. 1965. O álbum é lançado e ouvimos Coltrane cantar.


PURSUANCE
Perseguir uma melodia, um conjunto pequeno de notas repetidas e retocadas obsessivamente, espanta os ouvidos. 9 de Agosto de 1965. Ian Breach, crítico do The Guardian, acha que o álbum é um “exercício de monotonia”. “Há boas ideias para ser ouvidas que flutuam livremente, mas só as mais pobres são perseguidas para além dos limites do razoável”.

2017. A Love Supreme, Anna Teresa de Keersmaeker e Salva Sanchis. Refazem, reescrevem, transformam a primeira peça. Agora, com quatro jovens bailarinos, todos homens, todos foram alunos da escola que Keersmaeker fundou e onde Sanchis também tinha estudado. Vestem de preto no palco despido. Se não atentar-mos no linóleo, poderemos até achar que não há cenário.
O espectáculo começa agora com movimentos em silêncio, como se nos preparasse para o que vamos ouvir, como se precisássemos de um momento em que só vemos a coreografia e só ouvimos o corpo dos bailarinos. Quatro bailarinos jovens dançam. Quando a música começa, percebemos que a cada um é atribuído um dos instrumentos da música. Composição e improvisação conjugam-se conforme a liberdade dos instrumentos na música: o saxofone pode improvisar mais do que o contrabaixo, por exemplo.
As regras da música são as regras da dança.


PSALM
Salva Sanchis: "Quando estás preso a uma regra tão rígida tens de encontrar soluções para tornar a tua coreografia mais interessante, para ter contraste e diferença, porque não podes interpretar livremente com aquela quantidade de pessoas em palco.”. Como os instrumentistas, os bailarinos ouvem. Cada um se relaciona com um instrumento e, de acordo com ele, improvisa mais ou menos. Como os músicos, dançam segundo a sua qualidade de movimento, mas sempre num grupo: têm de ouvir-se uns aos outros, de estar juntos, e só no conjunto dos quatro está o sentido da peça.

Keersmaeker diz que, no seu encontro com Coltrane, “descobriu o virtuosismo brilhante, a obsessão extrema, [...] a descoberta do saxofone como uma voz”. Talvez por isso os bailarinos sejam agora corpo daqueles instrumentos, como se pudéssemos ver de que forma a música se espalha no espaço, como se acedêssemos à música também através de um outro sentido: a visão.

Coltrane, através da música, procurava chegar a Deus. Como num salmo, um poema que se canta e que se dedica, mas que aqui se diz através do saxofone. Coltrane escreveu um poema, mas não é pelas palavras que o ouvimos.
No poema escrito pelo músico, “todos os caminhos levam a Deus”.
Nesta versão dançada, onde é que os caminhos nos levam?



citações
https://www.theguardian.com/music/2017/aug/09/john-coltrane-love-supreme-review-1965
https://www.nytimes.com/2017/09/26/arts/dance/anne-teresa-de-keersmaeker-a-love-supreme.html
https://fdleone.com/2015/12/20/a-love-supreme-john-coltranes-statement-of-faith/



Fotografia © Anne Van Aerschot
Um registo livre a partir dos espetáculos da temporada para reativar o discurso das conversas pós-espetáculo e repensar o nosso tempo.

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