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Alguma coisa ruiu
Sobre Late Night
Outubro
2018
Sex
12
Por Raquel S.
Alguma coisa ruiu, não se sabe bem o quê. Foi uma ideia? Um edifício?
Que coisas foram este pó aí, esta forma sensível do tempo passado? Como é que se chega a este tempo, a este agora, cortado por outros tempos, mais ou menos perfurado, ou talvez não isso. Talvez este agora seja um entre vários agoras que acontecem lado a lado: a cada um corresponde um passado –passado um, dois, três, quatro – ou uma ruína – ruína um, ruína dois, ruína três – ou um futuro possível que, mal se concebe, se esfuma e desaparece. Como num truque de magia.
– ruína 1 –
Acho que me lembro de que o Severino Boécio, para defender o livre arbítrio e a omnipotência de Deus, dizia que Deus percebe tudo num eterno presente: tudo lhe chega ao mesmo tempo. A temporalidade de deus não é sucessiva.
Agora há seis melancólicos, parecem os últimos, a dançar nesta pista. Deus já foi há muito tempo. O anjo da História, projetado para trás na direção do futuro enquanto via como se acumulavam ruínas atrás de ruínas, séculos atrás de séculos, bateu contra o futuro com estrondo e morreu. Aqui dança-se.
– ruína 2 –
Numa danceteria, num Domingo, uma senhora dança. Ouve-se a música Ciao Ciao Bye Bye. Ela fica fraca, nervosa, desmaia. Rui. Tiram-na da pista. Perguntamos se está tudo bem e dizem que sim-sim, que ela desmaia sempre nesta música. E a música continua.
Os melancólicos podem sempre chutar para o lado os escombros, afastá-los com os pezinhos calçados com tacões pequeninos, tirar senhoras da pista, sacudir o pó de um casaco.
O que fazer com o tempo que já passou? Lembrá-lo?
O que fazer dos futuros abortados?
– ruína 64 –
Paris a colapsar, a ruir, bombas. Memórias de guerra e de passar fome.
Seis melancólicos – serão os últimos? – dançam à volta do trauma. Ou dançam dentro do trauma. Onde dançam os melancólicos?
Os seis melancólicos dançam, observam, correm para gritar ao microfone, para se lembrar, para narrar o que pensam, o que sentem, o que se lembram, o que imaginam.
Enumeram futuros possíveis.
– ruína 328 –
O cérebro usa o mesmo processo para lembrar o passado e imaginar o futuro. Isto chama-se Mental Time Travel, Viagem no Tempo Mental.
Se a memória não os engana, isto já correu mal antes.
Já é depois mas, ao mesmo tempo, é ainda. Lembram-se de pequenas e grandes imagens, saem como fantasmas do seu corpo. Tudo continua para sempre. Vêem-se a existir.
Será igual dançar, ficar parado, gritar ao microfone contra a música, fazer ilusionismo, lembrar, desistir, morrer? As palavras que não se ouvem são menos urgentes?
– ruína 345 –
Seis melancólicos dançam entre as ruínas do velho mundo que ainda não acabou, ao som de velhas músicas, valsas antigas, com roupa de festa, mas não especial. Uma televisão traz os mortos de volta.
Enquanto dançam, o fantasma dos melancólicos vai ao microfone e narra: o que pensam, o que sentem, onde estavam quando Paris ruiu, Antuérpia, Berlim.
Apesar disto, através disto, enquanto isto, os melancólicos continuam, bebem de vez em quando, colam na televisão.
Os melancólicos não desistem facilmente ou desistem de corpo presente. Recitam o tempo que já passou, relembram o futuro, como se quisessem fixar, guardar o tempo, inventariá-lo. Ao mesmo tempo gastam o tempo, deitam-no fora como milho a pombos.
– ruína 162 –
Uma imagem de neve dentro de uma sala, a cair sobre ombros, narizes, cabelos, a cair sobre o chão, uma ruína meteorológica sobre escombros de outra ordem. Imagina-se neve sobre as ruínas do que construímos sobre outras ruínas.
Seis melancólicos – serão os últimos? – continuam a continuar.
Que mais podem fazer disto tudo que lhes caiu no colo?
Fotografia © José Caldeira / TMP
Alguma coisa ruiu, não se sabe bem o quê. Foi uma ideia? Um edifício?
Que coisas foram este pó aí, esta forma sensível do tempo passado? Como é que se chega a este tempo, a este agora, cortado por outros tempos, mais ou menos perfurado, ou talvez não isso. Talvez este agora seja um entre vários agoras que acontecem lado a lado: a cada um corresponde um passado –passado um, dois, três, quatro – ou uma ruína – ruína um, ruína dois, ruína três – ou um futuro possível que, mal se concebe, se esfuma e desaparece. Como num truque de magia.
– ruína 1 –
Acho que me lembro de que o Severino Boécio, para defender o livre arbítrio e a omnipotência de Deus, dizia que Deus percebe tudo num eterno presente: tudo lhe chega ao mesmo tempo. A temporalidade de deus não é sucessiva.
Agora há seis melancólicos, parecem os últimos, a dançar nesta pista. Deus já foi há muito tempo. O anjo da História, projetado para trás na direção do futuro enquanto via como se acumulavam ruínas atrás de ruínas, séculos atrás de séculos, bateu contra o futuro com estrondo e morreu. Aqui dança-se.
– ruína 2 –
Numa danceteria, num Domingo, uma senhora dança. Ouve-se a música Ciao Ciao Bye Bye. Ela fica fraca, nervosa, desmaia. Rui. Tiram-na da pista. Perguntamos se está tudo bem e dizem que sim-sim, que ela desmaia sempre nesta música. E a música continua.
Os melancólicos podem sempre chutar para o lado os escombros, afastá-los com os pezinhos calçados com tacões pequeninos, tirar senhoras da pista, sacudir o pó de um casaco.
O que fazer com o tempo que já passou? Lembrá-lo?
O que fazer dos futuros abortados?
– ruína 64 –
Paris a colapsar, a ruir, bombas. Memórias de guerra e de passar fome.
Seis melancólicos – serão os últimos? – dançam à volta do trauma. Ou dançam dentro do trauma. Onde dançam os melancólicos?
Os seis melancólicos dançam, observam, correm para gritar ao microfone, para se lembrar, para narrar o que pensam, o que sentem, o que se lembram, o que imaginam.
Enumeram futuros possíveis.
– ruína 328 –
O cérebro usa o mesmo processo para lembrar o passado e imaginar o futuro. Isto chama-se Mental Time Travel, Viagem no Tempo Mental.
Se a memória não os engana, isto já correu mal antes.
Já é depois mas, ao mesmo tempo, é ainda. Lembram-se de pequenas e grandes imagens, saem como fantasmas do seu corpo. Tudo continua para sempre. Vêem-se a existir.
Será igual dançar, ficar parado, gritar ao microfone contra a música, fazer ilusionismo, lembrar, desistir, morrer? As palavras que não se ouvem são menos urgentes?
– ruína 345 –
Seis melancólicos dançam entre as ruínas do velho mundo que ainda não acabou, ao som de velhas músicas, valsas antigas, com roupa de festa, mas não especial. Uma televisão traz os mortos de volta.
Enquanto dançam, o fantasma dos melancólicos vai ao microfone e narra: o que pensam, o que sentem, onde estavam quando Paris ruiu, Antuérpia, Berlim.
Apesar disto, através disto, enquanto isto, os melancólicos continuam, bebem de vez em quando, colam na televisão.
Os melancólicos não desistem facilmente ou desistem de corpo presente. Recitam o tempo que já passou, relembram o futuro, como se quisessem fixar, guardar o tempo, inventariá-lo. Ao mesmo tempo gastam o tempo, deitam-no fora como milho a pombos.
– ruína 162 –
Uma imagem de neve dentro de uma sala, a cair sobre ombros, narizes, cabelos, a cair sobre o chão, uma ruína meteorológica sobre escombros de outra ordem. Imagina-se neve sobre as ruínas do que construímos sobre outras ruínas.
Seis melancólicos – serão os últimos? – continuam a continuar.
Que mais podem fazer disto tudo que lhes caiu no colo?
Fotografia © José Caldeira / TMP
Um registo livre a partir dos espetáculos da temporada para reativar o discurso das conversas pós-espetáculo e repensar o nosso tempo.
