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The Waves: Sob o desenrolar contínuo do gesto
Outubro
2018
Qui
11
Por Rossana Mendes Fonseca
No escuro, ouvimos passos: seis bailarinos e dois músicos entram em cena. O palco despido, de contornos escuros; a luz directa, alta. “The Waves” começa. A cadência sonora anima o movimento dos seis bailarinos que, com os dois músicos, ritmam o espaço cénico. Cada movimento, cada acção — quer na dança, quer no som — partem de gestos, cuja intencionalidade nos parece bem definida, rigorosamente estimada, na procura de uma estrutura formal compositiva, mas na qual esses gestos parecem derivar, numa construção compositiva de camadas que se intersectam, se acumulam, se subtraem. O plano coreográfico, ainda que descentralizado — ou seja, que permite a experimentação do movimento, a actualização de cada gesto, a resolução de cada ação, na decisão singular de cada corpo que dança —, no seu desenho e na sua repetição faz evocar o aspeto formal de uma canção, que talvez se torne para nós quase familiar justamente pelo repetição até insistente dos gestos quotidianos e movimentos habituais ao nosso corpo e à nossa ação diária. A presença dos músicos em palco, sem uma composição sonora previamente gravada e acabada, faz deles intérpretes da dança que vemos fazer-se. A música percussionada que, na ausência de melodia parece acentuar a cadência da passagem dos corpos no tempo, reverbera em tempo real com esses corpos; e com eles, que se movem, estendem, alongam, recuam, mergulham, contraem, participa na mesma experimentação física, corporal, no entreacto dos gestos comuns, reconhecíveis, quotidianos: atirar, esquivar e embater, como três modos de relação com o mundo.
À medida que a peça se desenrola, percebemos um vaivém no equilibrar e desequilibrar do comando escrito, do guião, da partitura, do desenho, e a organicidade, a corporeidade, o palpitante. O corpo singular de cada bailarino, na sua excentricidade formal que é, sobretudo, sensível, observa e (re)formula em si cada gesto, cada movimento, cada ação, trabalhados no corpo comum do grupo. A mecanicidade sensório motora deste movimento convulsionado do interior para o exterior sugere-nos imagens, desenhos, evidências que se manifestam como se activassem continuamente uma memória do corpo. Como ondas, que sabemos crescerem e diminuírem, rebentarem e conterem-se, no limiar da massa colectiva em que se formam, que é o mar.
“The Waves” aparece-nos como um ensaio experimental, auto-reflexivo, mas estruturado, estudado, bem desenhado, de nos apresentar aquilo que o gesto se pode tornar. Em palco, perante nós, é assumida uma visibilidade, um mostrar-se, perante aquele que observa, que é espectador, um dar a ver a procura da extensão do movimento até ao limite dos gestos, como se a cada instante se procurassem mais e mais elementos do vocabulário que é próprio ao pensamento do corpo que dança, ao médium da dança. Os movimentos que nos parecem inacabados, suspensos, que parecem capturados nas extremidades do corpo até onde viajam, parecem aludir à virtualidade do gesto que fica ainda a reverberar no corpo, e que o impele, por vezes, à atualização do gesto num movimento de contrariar a sua memória. Trata-se de uma complexidade compositiva que não advém apenas de cada corpo individual, ainda que se jogue na singularidade sensível de cada um, mas das decisões múltiplas desses corpos em relação.
“The Waves" explora três fragmentos, extratos, passagens do discurso de duas das seis personagens, como se de ações, movimentos e gestos se tratasse, da obra homónima de Virginia Woolf, proferidos (mais do que uma vez) por duas bailarinas sob uma luz pontual que, ao mesmo tempo, executam aquilo que parecem signos de uma linguagem gestual. Estas três passagens correspondem na obra a três passagens que evocam diferentes posições do sol no horizonte marítimo e que correspondem a três fases distintas da idade das seis personagens. Estas personagens, como ondas, vão-se nos mostrando em ato; como afectos, invocam breves descrições circunstanciais das suas vidas e o desenrolar da relação com o mundo. Destas passagens, perguntamos a Noé, sobre a decisão desta escolha na sua obra, ao que ele nos convida a descobrir nelas uma impossibilidade que atravessa qualquer forma de expressão, começando na palavra, que não dá conta de dizer absolutamente e de dar sentido a tudo aquilo que vivemos. E que, ainda que a dança não se furte também a isso, parece lançar-nos para a essa asserção, parecendo dizer-nos que talvez essa (im)possibilidade esteja nos entreactos, nos intervalos liminares entre os ângulos rectos, nas distâncias atonais; continuamente perseguida, e que por qualquer cristalização processual, paragem para respiração ou ideia exemplarmente discorrida, não se esgota no problemático, na perseguição da sua ideia, nem esgota a própria vida.
Fotografia © José Caldeira / TMP
No escuro, ouvimos passos: seis bailarinos e dois músicos entram em cena. O palco despido, de contornos escuros; a luz directa, alta. “The Waves” começa. A cadência sonora anima o movimento dos seis bailarinos que, com os dois músicos, ritmam o espaço cénico. Cada movimento, cada acção — quer na dança, quer no som — partem de gestos, cuja intencionalidade nos parece bem definida, rigorosamente estimada, na procura de uma estrutura formal compositiva, mas na qual esses gestos parecem derivar, numa construção compositiva de camadas que se intersectam, se acumulam, se subtraem. O plano coreográfico, ainda que descentralizado — ou seja, que permite a experimentação do movimento, a actualização de cada gesto, a resolução de cada ação, na decisão singular de cada corpo que dança —, no seu desenho e na sua repetição faz evocar o aspeto formal de uma canção, que talvez se torne para nós quase familiar justamente pelo repetição até insistente dos gestos quotidianos e movimentos habituais ao nosso corpo e à nossa ação diária. A presença dos músicos em palco, sem uma composição sonora previamente gravada e acabada, faz deles intérpretes da dança que vemos fazer-se. A música percussionada que, na ausência de melodia parece acentuar a cadência da passagem dos corpos no tempo, reverbera em tempo real com esses corpos; e com eles, que se movem, estendem, alongam, recuam, mergulham, contraem, participa na mesma experimentação física, corporal, no entreacto dos gestos comuns, reconhecíveis, quotidianos: atirar, esquivar e embater, como três modos de relação com o mundo.
À medida que a peça se desenrola, percebemos um vaivém no equilibrar e desequilibrar do comando escrito, do guião, da partitura, do desenho, e a organicidade, a corporeidade, o palpitante. O corpo singular de cada bailarino, na sua excentricidade formal que é, sobretudo, sensível, observa e (re)formula em si cada gesto, cada movimento, cada ação, trabalhados no corpo comum do grupo. A mecanicidade sensório motora deste movimento convulsionado do interior para o exterior sugere-nos imagens, desenhos, evidências que se manifestam como se activassem continuamente uma memória do corpo. Como ondas, que sabemos crescerem e diminuírem, rebentarem e conterem-se, no limiar da massa colectiva em que se formam, que é o mar.
“The Waves” aparece-nos como um ensaio experimental, auto-reflexivo, mas estruturado, estudado, bem desenhado, de nos apresentar aquilo que o gesto se pode tornar. Em palco, perante nós, é assumida uma visibilidade, um mostrar-se, perante aquele que observa, que é espectador, um dar a ver a procura da extensão do movimento até ao limite dos gestos, como se a cada instante se procurassem mais e mais elementos do vocabulário que é próprio ao pensamento do corpo que dança, ao médium da dança. Os movimentos que nos parecem inacabados, suspensos, que parecem capturados nas extremidades do corpo até onde viajam, parecem aludir à virtualidade do gesto que fica ainda a reverberar no corpo, e que o impele, por vezes, à atualização do gesto num movimento de contrariar a sua memória. Trata-se de uma complexidade compositiva que não advém apenas de cada corpo individual, ainda que se jogue na singularidade sensível de cada um, mas das decisões múltiplas desses corpos em relação.
“The Waves" explora três fragmentos, extratos, passagens do discurso de duas das seis personagens, como se de ações, movimentos e gestos se tratasse, da obra homónima de Virginia Woolf, proferidos (mais do que uma vez) por duas bailarinas sob uma luz pontual que, ao mesmo tempo, executam aquilo que parecem signos de uma linguagem gestual. Estas três passagens correspondem na obra a três passagens que evocam diferentes posições do sol no horizonte marítimo e que correspondem a três fases distintas da idade das seis personagens. Estas personagens, como ondas, vão-se nos mostrando em ato; como afectos, invocam breves descrições circunstanciais das suas vidas e o desenrolar da relação com o mundo. Destas passagens, perguntamos a Noé, sobre a decisão desta escolha na sua obra, ao que ele nos convida a descobrir nelas uma impossibilidade que atravessa qualquer forma de expressão, começando na palavra, que não dá conta de dizer absolutamente e de dar sentido a tudo aquilo que vivemos. E que, ainda que a dança não se furte também a isso, parece lançar-nos para a essa asserção, parecendo dizer-nos que talvez essa (im)possibilidade esteja nos entreactos, nos intervalos liminares entre os ângulos rectos, nas distâncias atonais; continuamente perseguida, e que por qualquer cristalização processual, paragem para respiração ou ideia exemplarmente discorrida, não se esgota no problemático, na perseguição da sua ideia, nem esgota a própria vida.
Fotografia © José Caldeira / TMP
Um registo livre a partir dos espetáculos da temporada para reativar o discurso das conversas pós-espetáculo e repensar o nosso tempo.
