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Entrevista

François Chaignaud

Setembro

2022

Sex
30
Da evocação dos blasons do século XVI por François Chaignaud ao jogo de movimentos – ora escondidos ora revelados – de Tânia Carvalho: nos dias 1 e 2 de outubro, a Dançando com a Diferença sobe ao palco do Rivoli, pela primeira vez. Falamos com o coreógrafo francês sobre a criação de Blasons, uma das duas peças que integra o programa.

Como tem sido o processo de trabalho com uma companhia de dança portuguesa?

Foi muito especial trabalhar com esta companhia. Desde o primeiro momento, senti que podia fazer parte da família. Vi a companhia trabalhar como uma família. Ajudavam-se, verdadeiramente, entre si, e havia muita auto-organização. Isso foi impressionante. Por um lado, senti que podia mesmo fazer parte da família. Por outro lado, senti-me como um convidado, provavelmente, por causa da língua. Esta é uma companhia portuguesa, e muitos dos intérpretes e das pessoas envolvidas não falam inglês ou outra língua. Isso fez com que a minha posição fosse muito especial, de certa forma, bastante conectada pela troca de danças e partilha de emoções. Mas, ao mesmo tempo, senti-me muito isolado por não falar a língua, porque era a primeira vez que colaborava, não com uma companhia internacional ou não francesa, mas com uma companhia inclusiva. Há vários desafios e questões sobre como conseguir conectar, quando não partilhamos a mesma língua e, obviamente, a mesma história corporal. Foi um grande desafio, confesso.

Encontrou novas oportunidades para criar novas linguagens, novas ideias?

O Henrique [Amoedo], a Claire [Verlet] e a Tânia [Carvalho] convidaram-me porque sabiam que a minha abordagem à dança e ao movimento poderia ser muito formal ou, pelo menos, tentaria alcançar algum formato através da prática. Senti que a companhia estava habituada a trabalhar com coreógrafos que exploravam mais a fisicalidade dos intérpretes. Quando comecei os workshops, tentei partilhar algumas rotinas e, inclusive, algumas coreografias pré-existentes. E a eles, interessou uma abordagem, na qual eu não só chegaria, assistiria a improvisações e escolheria um movimento que me parecesse relevante. Em vez disso, eu sugeriria diferentes movimentos e, mesmo, sequências de movimento. Ficaram felizes com esta perspetiva que foi, possivelmente, mais desafiadora para eles, do que para mim. À medida que o processo evoluiu, encontramos uma metodologia que era nova para eles, mas também para mim. Foi um grande desafio; mas, obviamente, a peça que estávamos a fazer era minha e também deles, no sentido em que não poderia ter acontecido com outra companhia. E, de alguma forma, eu sinto mesmo que a assinatura é partilhada com os intérpretes, com a própria companhia. As oportunidades e os desafios que surgem de uma colaboração com a Dançando com a Diferença tem uma forte influência na proposta final.

A peça evoca Clément Marot e os blasons do século XVI que enalteciam e satirizavam os corpos femininos numa relação com a virilidade simbólica da heráldica europeia medieval. De que forma a sua peça pode trazer novas formas de relação e de expressão do/com o corpo?

Muito cedo neste processo, enquanto estava a ler bastante sobre história de arte para outro projeto, descobri um género de poesia francesa do século XVI, os blasons. Chamam-se blasons do corpo feminino. Fiquei surpreendido ao descobrir um género que me era totalmente desconhecido. Fiquei interessado por várias razões; uma delas é que estes poemas olham para um corpo e decidem dividi-lo em partes para lhes dedicar um poema. Por exemplo, uma mão, o nariz, um olho. Era algo novo na Europa: a visão de que o corpo podia ser dividido para ser observado, descrito, elogiado, cantado. Achei que era algo interessante porque, enquanto bailarinos, todos temos uma relação global com os nossos corpos, mas também, estamos habituados a trabalhar com uma perna, com uma mão. Por outro lado, através deste género de poesia, ficou muito claro de que forma a mentalidade ocidental evoluiu para que algumas pessoas pudessem olhar para o resto do mundo e para os restantes seres humanos, como objetos. Eram, de tal maneira, objetivados que podiam ser divididos em partes. Isso chamou-me à atenção ao trabalhar com uma companhia, em que os intérpretes são pessoas com deficiência, muitas vezes, objetificadas pela ciência, pelo público, por diferentes tipos de olhares.
Foi um processo conceptual. Normalmente, vem-se ver a Dançando com a Diferença para se ficar surpreendido, espantado com o que os intérpretes podem ser. Pagamos um bilhete para ver bailarinos com deficiência. É tão fora do comum e tão arrebatador, que é verdade. Mas queria reverter isso e dizer-lhes como pode ser: “Vocês, intérpretes, usam o palco não apenas para serem vistos, mas como um lugar onde podem olhar para o mundo, para o público. Onde vocês estão, no palco, também é um lugar de conhecimento. O que aprendem? O que é que sabem? Para onde olham quando as pessoas vos observam? A relação não pode ser unilateral. Pode ser que nem todos os públicos do Porto fiquem encantados em ver-vos. Também tem a ver convosco. Que tipo de poder vos dá observar as pessoas a observar-vos?”    
De certa maneira, usamos os blasons para alimentar este processo de reversão do olhar.

Sente-se também um poeta neste projeto, em particular?

Acho que os poetas são os intérpretes. Mas eu não concordo com a ideologia subjacente aos blasons. Discordo do facto de eles [os poetas] se sentirem tão confiantes ao ponto de objetivarem tudo. O lado interessante é conectar-se com o sentido de poder (talvez, um poder abusivo) que esses poetas tinham. Agora, são os intérpretes que observam e tentam conectar-se com o mundo envolvente, de forma a poderem produzir poemas breves com os próprios corpos (se assim quiserem).

© José Caldeira

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