Entrevista
Paulo Mota
Novembro
2021
Qua
3
Encenador e ator de Buffalo Bill – o primeiro espetáculo da sua recém-criada estrutura Devagar –, a ser apresentado nos dias 5 e 6 de novembro, no palco do Grande Auditório do Teatro Rivoli
Buffalo Bill é um ícone da cultura norte-americana. O que te levou a criar este espetáculo?
Há cerca de três anos, em conversa com o meu pai, ele comentou que o meu avô lhe dizia algo como: “Não é para ler histórias aos quadradinhos, é para trabalhar”. Perguntei-lhe que histórias eram essas e ele falou-me do Buffalo Bill. Fui pesquisar e descobri que tinha existido realmente uma pessoa por detrás do Buffalo Bill. Chamava-se William Cody e teve uma vida bastante particular. Foi atirador da cavalaria americana, homem de negócios e acabou por criar um circo com indígenas, já depois de os ter espantado do território. Aliás, esta questão do conflito indígena nos Estados Unidos da América saltou-me imediatamente aos olhos.
Por outro lado, há muito tempo que me interessava trabalhar a linguagem da banda desenhada e dos desenhos animados.
Então, começaram a multiplicar-se ideias na minha cabeça e decidi criar este espetáculo.
Estamos perante uma biografia do homem para além da lenda?
Não é, de todo, um trabalho documental. A figura do Buffalo Bill é um pretexto para falar sobre temas mais atuais. Tal como dizia Walter Benjamin, a História é um girassol que se volta sempre para o tempo presente. Olhamos para Buffalo Bill para podermos olhar para nós. Há vários aspetos que me interessavam; entre eles tentar entender o que herdámos da época da revolução industrial, em que Buffalo Bill viveu, e pensar como podemos posicionarmos nesta época, em que vivemos a revolução digital.
Há um paralelismo possível entre as bandas desenhadas e o mundo digital em que vivemos: ambas são, ou podem ser, formas de ficção.
A ficção é uma arma poderosíssima. O perigo do digital, o José Gil relembra-o, é que, de repente, se torna o sítio onde escolhemos viver. Há zonas abstratas que, subitamente, ganham um espaço dentro de nós e deixamos de existir no concreto. A banda desenhada, por outro lado, tem o cheiro do papel, tem marcas da passagem do tempo, tem história, tem a impressão, mantem-nos num contacto físico.
O que me perturba não é a ficção – que é uma ótima arma para atuar sobre a realidade. O que me perturba é passarmos a existir 90% do dia nesses lugares digitais. Corremos o risco do nosso mapa mental poder transformar-se e passarmos a ser mais manipuláveis.
De que forma é que a banda desenhada e o universo circense influenciaram o processo criativo?
Gosto de trabalhar com algum distanciamento da realidade, no sentido do código de linguagem. Não me revejo no realismo. Quanto mais me distancio do real, mais prazer me dá. Na Devagar, fizemos um filme intitulado Um Jogo Bastante Perigoso em que esse distanciamento já acontecia. Acho que o mesmo ocorre neste espetáculo. A linguagem do desenho animado acaba por aligeirar um pouco aquilo que está a ser dito. Há momentos, até, em que parece que estamos a ver um espetáculo para a infância. Há uma espécie de ideia de filme de terror, mas cómico e, às vezes, meio infantil.
Há, simultaneamente, a linguagem do western e o arquétipo do cowboy com a qual estou a brincar. Tentamos aproximar a imagem do Buffalo Bill à banda desenhada dos anos 50 e 60. Quando falamos deste projeto a pessoas mais velhas, com mais de 60 anos, elas riem-se com uma boa memória de infância.
A cenografia e o trabalho de luz têm também como referências o western, o desenho animado e o circo. Isto porque, estranhamente, Buffalo Bill, acabou por criar um circo com indígenas – o Buffalo Bill's Wild West Show –, que viajou pelo mundo todo e que mostrou os confrontos entre indígenas e americanos numa espécie de reality show. De certa maneira, marcou o nascimento da cultura Pop americana.
Buffalo Bill é um ícone da cultura norte-americana. O que te levou a criar este espetáculo?
Há cerca de três anos, em conversa com o meu pai, ele comentou que o meu avô lhe dizia algo como: “Não é para ler histórias aos quadradinhos, é para trabalhar”. Perguntei-lhe que histórias eram essas e ele falou-me do Buffalo Bill. Fui pesquisar e descobri que tinha existido realmente uma pessoa por detrás do Buffalo Bill. Chamava-se William Cody e teve uma vida bastante particular. Foi atirador da cavalaria americana, homem de negócios e acabou por criar um circo com indígenas, já depois de os ter espantado do território. Aliás, esta questão do conflito indígena nos Estados Unidos da América saltou-me imediatamente aos olhos.
Por outro lado, há muito tempo que me interessava trabalhar a linguagem da banda desenhada e dos desenhos animados.
Então, começaram a multiplicar-se ideias na minha cabeça e decidi criar este espetáculo.
Estamos perante uma biografia do homem para além da lenda?
Não é, de todo, um trabalho documental. A figura do Buffalo Bill é um pretexto para falar sobre temas mais atuais. Tal como dizia Walter Benjamin, a História é um girassol que se volta sempre para o tempo presente. Olhamos para Buffalo Bill para podermos olhar para nós. Há vários aspetos que me interessavam; entre eles tentar entender o que herdámos da época da revolução industrial, em que Buffalo Bill viveu, e pensar como podemos posicionarmos nesta época, em que vivemos a revolução digital.
Há um paralelismo possível entre as bandas desenhadas e o mundo digital em que vivemos: ambas são, ou podem ser, formas de ficção.
A ficção é uma arma poderosíssima. O perigo do digital, o José Gil relembra-o, é que, de repente, se torna o sítio onde escolhemos viver. Há zonas abstratas que, subitamente, ganham um espaço dentro de nós e deixamos de existir no concreto. A banda desenhada, por outro lado, tem o cheiro do papel, tem marcas da passagem do tempo, tem história, tem a impressão, mantem-nos num contacto físico.
O que me perturba não é a ficção – que é uma ótima arma para atuar sobre a realidade. O que me perturba é passarmos a existir 90% do dia nesses lugares digitais. Corremos o risco do nosso mapa mental poder transformar-se e passarmos a ser mais manipuláveis.
De que forma é que a banda desenhada e o universo circense influenciaram o processo criativo?
Gosto de trabalhar com algum distanciamento da realidade, no sentido do código de linguagem. Não me revejo no realismo. Quanto mais me distancio do real, mais prazer me dá. Na Devagar, fizemos um filme intitulado Um Jogo Bastante Perigoso em que esse distanciamento já acontecia. Acho que o mesmo ocorre neste espetáculo. A linguagem do desenho animado acaba por aligeirar um pouco aquilo que está a ser dito. Há momentos, até, em que parece que estamos a ver um espetáculo para a infância. Há uma espécie de ideia de filme de terror, mas cómico e, às vezes, meio infantil.
Há, simultaneamente, a linguagem do western e o arquétipo do cowboy com a qual estou a brincar. Tentamos aproximar a imagem do Buffalo Bill à banda desenhada dos anos 50 e 60. Quando falamos deste projeto a pessoas mais velhas, com mais de 60 anos, elas riem-se com uma boa memória de infância.
A cenografia e o trabalho de luz têm também como referências o western, o desenho animado e o circo. Isto porque, estranhamente, Buffalo Bill, acabou por criar um circo com indígenas – o Buffalo Bill's Wild West Show –, que viajou pelo mundo todo e que mostrou os confrontos entre indígenas e americanos numa espécie de reality show. De certa maneira, marcou o nascimento da cultura Pop americana.

