Entrevista
Tânia Dinis / TEP
Junho
2023
Ter
13
Nos dias 16 e 17 de junho, Tânia Dinis estreia Elas entram e ficam! no Teatro Rivoli, um espetáculo que celebra os 70 anos do Teatro Experimental do Porto. Falámos com a artista sobre o espetáculo, que reflete sobre o papel, as histórias e micro-histórias das personagens femininas, representadas ao longo da história da companhia.
Há diferenças nas políticas culturais numa companhia como o Teatro Experimental do Porto (TEP) nos dias de hoje e no início dos 70 anos?
Há muitas diferenças... Dentro da pesquisa que fomos fazendo, e estou a falar no plural, claro que tenho uma equipa muito participativa na criação do "Elas entram e ficam". Mas quando falo no plural, falo de mim e do Pedro Bastos, que fez comigo a pesquisa e que escreveu o texto. Todo o meu trabalho é feito a partir de memória e de arquivo. Decidi então trabalhar a partir do arquivo fotográfico e não só, das peças e de outros elementos visuais, mas tentar perceber então que personagens femininas foram interpretadas ao longo destes 70 anos. Por isso, debruçamo-nos mais sobre o papel da mulher, destas atrizes e que papéis eram atribuídos a estas mulheres. Claro que existem diferenças... No início dos anos 1970, estávamos a passar por uma censura, Portugal e todos os cidadãos. Os artistas também... E é muito interessante analisar este arquivo. O TEP tem um arquivo belíssimo e extremamente organizado. Aliás, esta criação parte muito da organização da pessoa que organizou este arquivo, através de listas e mais listas e, dentro destas listas, existem listas das peças que foram censuradas, das peças que foram proibidas. Então, é aí que também percebemos, por exemplo, estas políticas culturais no início dos anos 1970. Mas, ao longo destes 70 anos, essas políticas também mudam, porque existem diferentes direções artísticas. Claro que se eu quisesse falar nestes últimos espetáculos, ou dos temas que são apresentados nestes últimos anos, cada vez mais existem temas que são bem diferentes dos temas que estamos a abordar nesta criação. Assim, como mais mulheres estão a dirigir espetáculos, mais mulheres estão a interpretar espetáculos. Essa também é a grande diferença... De uma forma geral, existe uma diferença muito grande dos anos 70 até hoje. Há muitos anos, estes espetáculos ficavam muito tempo em cena e hoje em dia ficam apenas 2, 3 ou 4 dias. Ou seja, também acaba por não existir muito espaço para um espetáculo crescer. Mas, o "Elas entram e ficam" também está relacionado com estas políticas culturais ou, pelo menos, com o tema que nós quisemos trabalhar sobre os papéis femininos. "Elas entram e ficam" é também isso de elas entrarem: elas, mulheres, entram e ficam, ou seja, estamos aqui e estamos para ficar, mas também ficam os papéis e os temas destas mulheres, dos direitos delas. Pegámos em alguns papéis de algumas mulheres em algumas peças que foram representadas nos anos 50, 60 e 70 e tentámos tirar as datas desta criação. Porque estes temas, ou estas criações, que foram feitas nesta altura, permanecem hoje: os direitos da mulher, o papel da mulher, o lugar que ela ocupa, que estereótipo é colocado, o que é exigido. Então, essa também é a nossa forma de ver esta política cultural. Neste momento, aqui sou eu e esta equipa no Teatro Experimental do Porto.
Às vezes esquecemo-nos ou passam despercebidas estas micro-histórias. De que forma é que elas são importantes para a história "principal"?
Uma grande parte, se não todo o meu trabalho, está baseado na memória como um espaço, como uma ferramenta de transformação e de criação. A memória não é certa, não é fiável, assim como o arquivo. A sua análise é subjetiva, e essa é a sua função e tem imensos espaços. O arquivo fotográfico é a base deste trabalho e aqui se estivermos a ver um álbum de fotografias ou um álbum que é criado sobre a peça... Por exemplo, o álbum que é criado sobre a peça da Bernarda Alba. Essa sequência conta-nos uma história, vamos percebendo através da fotografia a história da peça. Mas depois cada fotografia tem uma micro-história, ou seja, ela sozinha consegue construir uma história, uma narrativa. Nós fomos tendo algumas conversas... Porque o TEP tem muitos sócios e muitos artistas que ainda estão vivos, e estas histórias que eles contam, as suas memórias são fundamentais para a construção de uma narrativa. Apesar de não usarmos a história que estamos a contar, ou os fragmentos de histórias que estamos a contar, apesar de não falarmos diretamente destas micro-histórias que fomos recolhendo ou micro-memórias que fomos recolhendo, elas são fundamentais para unir toda esta narrativa. Unir não só a história destas personagens femininas, mas a história destas mulheres... Que também são as minhas questões, hoje, como mulher e como mulher-artista nesta sociedade.
Há coisas que nem um arquivo consegue guardar. O que encontra em arquivo é sempre incompleto? Que falta o relato na 1.ª pessoa? Ou existe uma certa liberdade em poder preencher alguns buracos com a imaginação?
Para mim, o arquivo nunca está fechado, há imensos espaços em aberto. E essas lacunas, estes espaços em aberto, são fontes incríveis para se poder criar. O que me interessa muitas vezes na fotografia ou no arquivo é aquilo que eu não estou a ver, é aquilo que pode aparecer. E muitas vezes, é essa micro-história que me vai dar aquilo que não estou a ver, e aquilo que tu não vês é aquilo que é contado na primeira pessoa. O lado imagético de alguém que passou por aquele momento, aquilo que ela observa na fotografia, o relato da pessoa que está representada é fundamental. É fundamental não só porque ela esteve lá, mas também porque vai contar o que não estamos a ver. Uma grande parte destas histórias que fomos construíndo... Não é uma história linear, é construída através de vários fragmentos, não só visuais. A pessoa ao contar na primeira pessoa dá-nos informação que não temos, e, a partir daí, podes começar a construir. Muitas das histórias que contamos, muitos dos relatos de que eu falo como se carregasse estas mulheres, como se me fosse vestindo destas histórias, das suas personalidades, vêm também destes relatos que fomos ouvindo. Nesta altura, esta peça foi censurada, esta mulher atriz enquanto personagem foi censurada porque estava a usar calças, estas falas foram censuradas... E porque é que foram censuradas? Foram censuradas naquela época. E hoje, são censuradas também? Talvez nesta sociedade não, mas num sítio bem perto também podem ser censuradas. As histórias destas personagens são também as histórias de várias mulheres da altura e de hoje. Por isso, espaços em aberto, para mim enquanto artista no arquivo, que existem sempre, são fundamentais para poderes construir, para poderes transformar e, acima de tudo poderes rever o teu papel.
Sentes alguma responsabilidade em estares a trazer à vida estas histórias que estavam esquecidas?
Não, porque eu acho que estas histórias não estão esquecidas. Talvez as personagens estejam esquecidas, mas as histórias delas representam muitas mulheres hoje. Esta criação também fala muito de mim, das minhas questões, por isso elas não estão esquecidas. São histórias ficcionais, há histórias que foram contadas a partir de histórias reais e muitas não foram assim há tanto tempo. E há histórias que podemos ver há 1 ou 2 anos atrás, que acontecem agora, não estando esquecidas. Estas histórias sobre nós, mulheres, continuam a acontecer... Por isso, acho que não, acho que não estão esquecidas, estão vivas.
Há diferenças nas políticas culturais numa companhia como o Teatro Experimental do Porto (TEP) nos dias de hoje e no início dos 70 anos?
Há muitas diferenças... Dentro da pesquisa que fomos fazendo, e estou a falar no plural, claro que tenho uma equipa muito participativa na criação do "Elas entram e ficam". Mas quando falo no plural, falo de mim e do Pedro Bastos, que fez comigo a pesquisa e que escreveu o texto. Todo o meu trabalho é feito a partir de memória e de arquivo. Decidi então trabalhar a partir do arquivo fotográfico e não só, das peças e de outros elementos visuais, mas tentar perceber então que personagens femininas foram interpretadas ao longo destes 70 anos. Por isso, debruçamo-nos mais sobre o papel da mulher, destas atrizes e que papéis eram atribuídos a estas mulheres. Claro que existem diferenças... No início dos anos 1970, estávamos a passar por uma censura, Portugal e todos os cidadãos. Os artistas também... E é muito interessante analisar este arquivo. O TEP tem um arquivo belíssimo e extremamente organizado. Aliás, esta criação parte muito da organização da pessoa que organizou este arquivo, através de listas e mais listas e, dentro destas listas, existem listas das peças que foram censuradas, das peças que foram proibidas. Então, é aí que também percebemos, por exemplo, estas políticas culturais no início dos anos 1970. Mas, ao longo destes 70 anos, essas políticas também mudam, porque existem diferentes direções artísticas. Claro que se eu quisesse falar nestes últimos espetáculos, ou dos temas que são apresentados nestes últimos anos, cada vez mais existem temas que são bem diferentes dos temas que estamos a abordar nesta criação. Assim, como mais mulheres estão a dirigir espetáculos, mais mulheres estão a interpretar espetáculos. Essa também é a grande diferença... De uma forma geral, existe uma diferença muito grande dos anos 70 até hoje. Há muitos anos, estes espetáculos ficavam muito tempo em cena e hoje em dia ficam apenas 2, 3 ou 4 dias. Ou seja, também acaba por não existir muito espaço para um espetáculo crescer. Mas, o "Elas entram e ficam" também está relacionado com estas políticas culturais ou, pelo menos, com o tema que nós quisemos trabalhar sobre os papéis femininos. "Elas entram e ficam" é também isso de elas entrarem: elas, mulheres, entram e ficam, ou seja, estamos aqui e estamos para ficar, mas também ficam os papéis e os temas destas mulheres, dos direitos delas. Pegámos em alguns papéis de algumas mulheres em algumas peças que foram representadas nos anos 50, 60 e 70 e tentámos tirar as datas desta criação. Porque estes temas, ou estas criações, que foram feitas nesta altura, permanecem hoje: os direitos da mulher, o papel da mulher, o lugar que ela ocupa, que estereótipo é colocado, o que é exigido. Então, essa também é a nossa forma de ver esta política cultural. Neste momento, aqui sou eu e esta equipa no Teatro Experimental do Porto.
Às vezes esquecemo-nos ou passam despercebidas estas micro-histórias. De que forma é que elas são importantes para a história "principal"?
Uma grande parte, se não todo o meu trabalho, está baseado na memória como um espaço, como uma ferramenta de transformação e de criação. A memória não é certa, não é fiável, assim como o arquivo. A sua análise é subjetiva, e essa é a sua função e tem imensos espaços. O arquivo fotográfico é a base deste trabalho e aqui se estivermos a ver um álbum de fotografias ou um álbum que é criado sobre a peça... Por exemplo, o álbum que é criado sobre a peça da Bernarda Alba. Essa sequência conta-nos uma história, vamos percebendo através da fotografia a história da peça. Mas depois cada fotografia tem uma micro-história, ou seja, ela sozinha consegue construir uma história, uma narrativa. Nós fomos tendo algumas conversas... Porque o TEP tem muitos sócios e muitos artistas que ainda estão vivos, e estas histórias que eles contam, as suas memórias são fundamentais para a construção de uma narrativa. Apesar de não usarmos a história que estamos a contar, ou os fragmentos de histórias que estamos a contar, apesar de não falarmos diretamente destas micro-histórias que fomos recolhendo ou micro-memórias que fomos recolhendo, elas são fundamentais para unir toda esta narrativa. Unir não só a história destas personagens femininas, mas a história destas mulheres... Que também são as minhas questões, hoje, como mulher e como mulher-artista nesta sociedade.
Há coisas que nem um arquivo consegue guardar. O que encontra em arquivo é sempre incompleto? Que falta o relato na 1.ª pessoa? Ou existe uma certa liberdade em poder preencher alguns buracos com a imaginação?
Para mim, o arquivo nunca está fechado, há imensos espaços em aberto. E essas lacunas, estes espaços em aberto, são fontes incríveis para se poder criar. O que me interessa muitas vezes na fotografia ou no arquivo é aquilo que eu não estou a ver, é aquilo que pode aparecer. E muitas vezes, é essa micro-história que me vai dar aquilo que não estou a ver, e aquilo que tu não vês é aquilo que é contado na primeira pessoa. O lado imagético de alguém que passou por aquele momento, aquilo que ela observa na fotografia, o relato da pessoa que está representada é fundamental. É fundamental não só porque ela esteve lá, mas também porque vai contar o que não estamos a ver. Uma grande parte destas histórias que fomos construíndo... Não é uma história linear, é construída através de vários fragmentos, não só visuais. A pessoa ao contar na primeira pessoa dá-nos informação que não temos, e, a partir daí, podes começar a construir. Muitas das histórias que contamos, muitos dos relatos de que eu falo como se carregasse estas mulheres, como se me fosse vestindo destas histórias, das suas personalidades, vêm também destes relatos que fomos ouvindo. Nesta altura, esta peça foi censurada, esta mulher atriz enquanto personagem foi censurada porque estava a usar calças, estas falas foram censuradas... E porque é que foram censuradas? Foram censuradas naquela época. E hoje, são censuradas também? Talvez nesta sociedade não, mas num sítio bem perto também podem ser censuradas. As histórias destas personagens são também as histórias de várias mulheres da altura e de hoje. Por isso, espaços em aberto, para mim enquanto artista no arquivo, que existem sempre, são fundamentais para poderes construir, para poderes transformar e, acima de tudo poderes rever o teu papel.
Sentes alguma responsabilidade em estares a trazer à vida estas histórias que estavam esquecidas?
Não, porque eu acho que estas histórias não estão esquecidas. Talvez as personagens estejam esquecidas, mas as histórias delas representam muitas mulheres hoje. Esta criação também fala muito de mim, das minhas questões, por isso elas não estão esquecidas. São histórias ficcionais, há histórias que foram contadas a partir de histórias reais e muitas não foram assim há tanto tempo. E há histórias que podemos ver há 1 ou 2 anos atrás, que acontecem agora, não estando esquecidas. Estas histórias sobre nós, mulheres, continuam a acontecer... Por isso, acho que não, acho que não estão esquecidas, estão vivas.

