História(s)
2ª Parte — Tiago Guedes
Janeiro
2019
Qui
10
Quando, no século XVIII, o Marquês de Sade escreveu “Os 120 Dias de Sodoma”, aprisionado na Bastilha, longe estaria de imaginar que esse seu manuscrito se viesse a tornar, simultaneamente, uma das mais odiadas e amadas obras literárias, suscitando interesse alargado na comunidade artística. Pasolini mergulhou nesta obra e realizou “Saló ou Os 120 dias de Sodoma” (1976), numa adaptação que resultou naquele que para muitos é ainda o filme mais perturbador da história do cinema do séc. XX, numa mordaz crítica ao fascismo de Mussolini.
Em 2017, MILO RAU, encenador suíço e Diretor do NT GENT, nome maior da encenação do terror e dos crimes da humanidade, juntou-se à Schauspielhaus Zürich e à companhia Teatro Hora (composta em exclusivo por atores portadores de trissomia 21) para criar um espetáculo no qual convivem em palco histórias de sadismo e de horror, os universos literário e cinematográfico das obras de Sade e Pasolini, e a mestria de uma encenação. “Os 120 Dias de Sodoma” conduz-nos assim a uma viagem histórica pela mão de Milo Rau, através de Sade e Pasolini, naquela que é uma crítica constante aos poderes instalados e aos seus abusos.
Do teatro para a dança, ponto de paragem obrigatória em Pina Bausch, ícone da dança mundial, que sempre trabalhou de perto com os seus bailarinos e atores. Pina Bausch, defendendo que as suas peças nunca viriam a existir sem o contributo dos seus insubstituíveis interpretes, foi a responsável pela instituição do conceito de cocriação, extensível a muitas práticas artísticas dos nossos dias.
CRISTIANA MORGANTI, uma das suas bailarinas mais emblemáticas, criou “Moving With Pina”, espetáculo construído a partir de excertos do extenso repertório que dançou e onde conta a sua experiência de colaboração para a construção dessas obras, num vai e vem feito de histórias, movimentos e emoções. Este espetáculo-conferência leva-nos a percorrer a história da dança-teatro, que tanto influenciou artistas de todo o mundo, através do olhar cúmplice de quem a ajudou a escrever.
WILLIAM FORSYTHE, norte-americano que se estabeleceu na Alemanha, país a partir do qual desenvolveu o seu trabalho, é sem dúvida um dos maiores coreógrafos vivos da atualidade. Para além da direção de várias companhias, nomeadamente o Ballet de Frankfurt e a sua companhia homônima, tem-se dedicado a projetos que cruzam a dança, as artes visuais, a instalação e o vídeo.
Pese embora esta deambulação disciplinar, falar de Forsythe significa mergulharmos nos fundamentos da dança, da técnica e da sua constante mutação e reinterpretação.
“A Quiet Evening Of Dance” sublima todo o trabalho de Forsythe num só espetáculo, ao som dos pássaros e da música barroca de Rameaux, destacando o essencial do que pode ser a dança de hoje, sem artifícios, sem adornos, com o foco no corpo e na inventividade da escrita coreográfica. Incomensuravelmente contemporâneo por tanto dialogar com o clássico, este espetáculo relembra-nos que a história da arte em geral - e da dança, em particular - é circular, desde a corte de Luís XIV à dança dos nossos dias, poliédrica e disforme.
Os cinco meses presentes nesta agenda-livro, segundo volume da temporada 2018/2019 do Teatro Municipal do Porto, continuam a falar-nos destas e de muitas outras histórias, num constante e frutífero diálogo entre presente e passado. São cinco meses de descoberta de artistas nacionais e internacionais – uns de regresso, outros que se apresentam nos palcos do Rivoli e do Campo Alegre pela primeira vez -, e de muitas atividades paralelas que permitem compreender mais a fundo, através da prática ou da teoria, o universo de cada um deles.
Será também nos próximos meses, entre 24 de abril e 26 de maio, que acolhere mos o DDD – Festival Dias da Dança e o FITEI – Festival Internacional de Teatro
de Expressão Ibérica, festivais que este ano se apresentam com força redobrada, fruto de uma profícua parceria programática e de comunicação. O Teatro
Municipal, ao coproduzir estes dois festivais, contribui assim para que nessas cinco semanas as artes performativas se apresentem no Porto à escala europeia, inscritas no circuito internacional de programadores.
Venham, muitas vezes!
TIAGO GUEDES
Diretor Artístico
Em 2017, MILO RAU, encenador suíço e Diretor do NT GENT, nome maior da encenação do terror e dos crimes da humanidade, juntou-se à Schauspielhaus Zürich e à companhia Teatro Hora (composta em exclusivo por atores portadores de trissomia 21) para criar um espetáculo no qual convivem em palco histórias de sadismo e de horror, os universos literário e cinematográfico das obras de Sade e Pasolini, e a mestria de uma encenação. “Os 120 Dias de Sodoma” conduz-nos assim a uma viagem histórica pela mão de Milo Rau, através de Sade e Pasolini, naquela que é uma crítica constante aos poderes instalados e aos seus abusos.
Do teatro para a dança, ponto de paragem obrigatória em Pina Bausch, ícone da dança mundial, que sempre trabalhou de perto com os seus bailarinos e atores. Pina Bausch, defendendo que as suas peças nunca viriam a existir sem o contributo dos seus insubstituíveis interpretes, foi a responsável pela instituição do conceito de cocriação, extensível a muitas práticas artísticas dos nossos dias.
CRISTIANA MORGANTI, uma das suas bailarinas mais emblemáticas, criou “Moving With Pina”, espetáculo construído a partir de excertos do extenso repertório que dançou e onde conta a sua experiência de colaboração para a construção dessas obras, num vai e vem feito de histórias, movimentos e emoções. Este espetáculo-conferência leva-nos a percorrer a história da dança-teatro, que tanto influenciou artistas de todo o mundo, através do olhar cúmplice de quem a ajudou a escrever.
WILLIAM FORSYTHE, norte-americano que se estabeleceu na Alemanha, país a partir do qual desenvolveu o seu trabalho, é sem dúvida um dos maiores coreógrafos vivos da atualidade. Para além da direção de várias companhias, nomeadamente o Ballet de Frankfurt e a sua companhia homônima, tem-se dedicado a projetos que cruzam a dança, as artes visuais, a instalação e o vídeo.
Pese embora esta deambulação disciplinar, falar de Forsythe significa mergulharmos nos fundamentos da dança, da técnica e da sua constante mutação e reinterpretação.
“A Quiet Evening Of Dance” sublima todo o trabalho de Forsythe num só espetáculo, ao som dos pássaros e da música barroca de Rameaux, destacando o essencial do que pode ser a dança de hoje, sem artifícios, sem adornos, com o foco no corpo e na inventividade da escrita coreográfica. Incomensuravelmente contemporâneo por tanto dialogar com o clássico, este espetáculo relembra-nos que a história da arte em geral - e da dança, em particular - é circular, desde a corte de Luís XIV à dança dos nossos dias, poliédrica e disforme.
Os cinco meses presentes nesta agenda-livro, segundo volume da temporada 2018/2019 do Teatro Municipal do Porto, continuam a falar-nos destas e de muitas outras histórias, num constante e frutífero diálogo entre presente e passado. São cinco meses de descoberta de artistas nacionais e internacionais – uns de regresso, outros que se apresentam nos palcos do Rivoli e do Campo Alegre pela primeira vez -, e de muitas atividades paralelas que permitem compreender mais a fundo, através da prática ou da teoria, o universo de cada um deles.
Será também nos próximos meses, entre 24 de abril e 26 de maio, que acolhere mos o DDD – Festival Dias da Dança e o FITEI – Festival Internacional de Teatro
de Expressão Ibérica, festivais que este ano se apresentam com força redobrada, fruto de uma profícua parceria programática e de comunicação. O Teatro
Municipal, ao coproduzir estes dois festivais, contribui assim para que nessas cinco semanas as artes performativas se apresentem no Porto à escala europeia, inscritas no circuito internacional de programadores.
Venham, muitas vezes!
TIAGO GUEDES
Diretor Artístico
