Miguel Loureiro
Entrevista
Janeiro
2019
Seg
28
Miguel Loureiro • 47 anos • Encenador
“A fera na selva” é o espetáculo que apresentas no Teatro Municipal do Porto, em fevereiro de 2019. Uma peça de teatro que parte de um texto clássico, mas sob um prisma mais contemporâneo. Como surgiu a ideia de te debruçares sobre este texto escrito originalmente por um homem, mas retrabalhado por uma mulher alguns anos mais tarde?
Este espetáculo parte de “A fera na selva”, de Marguerite Duras, e surgiu de um convite do Fernando Luís Sampaio para apresentar um espetáculo no CCB. No entanto, depois de ter trabalhado alguns textos, inverti o convite e propus ao Fernando [Luís Sampaio] e à Luísa Taveira que fossem eles a fazerem a proposta. Eu gosto deste formato de encomenda e deram-me dois textos a escolher: um da Carson McCullers ou esta de [Marguerite] Duras, que é uma reconversão de um texto do início do século XX do novelista e romancista Henry James. Eu preferi este porque é menos habitado que o outro. Gosto das coisas mais periféricas, menos centrais, e propus este porque gosto das peças, do cinema e da escrita da autora. O que me agrada neste texto é que é um teatro de câmara, onde um homem e uma mulher debatem ao longo de seis quadros sobre um fantasma. Interessa-me explorar a história do teatro, de onde vem, as questões do texto, quando se estabelece a cena ou não, quando existe teatro ou deixa de existir. Há, no entanto, uma coisa que nunca pode escurecer: o amor pelo texto, porque o teatro é ainda muito ligado à literatura, àquela que é pensada para o palco. Este espetáculo é misterioso. Tem um enigma, sem qualquer linha de projeção do meu pensamento político, económico ou social. Isso não me interessa. Interessa-me lidar com mistérios e enigmas.
Quais as características que te entusiasmam neste texto e de que forma o colocarás em palco?
Este espetáculo tem a excelência do input inicial do Henry James, o maior escritor em língua inglesa do final do século XIX e início do século XX. E tenho interesse numa escritora de final do século [Duras], que filtra tudo isso e a transforma para um sítio especial, que é a cena, um sítio de exceção onde as coisas ressoam de outra forma. Geralmente se diz que de medíocres textos se fazem grandes trabalhos de cena. Esta é uma peça introspetiva, de alguém que se sente assustado porque não tem atividade na vida – profissional ou pessoal. São dois aristocratas, um homem e uma mulher. O homem [interpretado pelo ator Filipe Duarte] está paralisado de medo, porque acha que há uma grande catástrofe à espera dele. Isso impede-o de viver. A personagem feminina [com desempenho da atriz Margarida Marinho] solidariza-se com ele e o tempo passa, entre distrações, ficam velhos e morrem. A fera nunca salta para fora da selva e nada acontece, realmente. É uma peça sobre o impasse e o medo de afirmar as coisas na vida.
Recentemente vimos-te em palco enquanto ator principal [a dar corpo a “Timão de Atenas”, com encenação de Nuno Cardoso/Ao Cabo Teatro, abril 2018, Rivoli] e agora encontramos-te do outro lado da cena, a dirigir os atores. Quando é que o Miguel-ator começou a sentir que também podia ser o Miguel-encenador e o que te interessa nesse papel?
Bem, eu decidi começar a encenar porque quero fazer coisas que nunca vejo feitas. E como nunca as vejo feitas, acho que há um lugar para mim, neste panorama. Foi por isso que comecei a encenar em 1998. Agora, levo já mais de trinta trabalhos de encenação e gosto muito do sentido de gerir, de coordenar, porque, para mim, tudo isto tem sempre uma noção de família. Qualquer colaborador, quer seja por dois dias, por alguns minutos ou vários meses, correspondem a uma nova família. É um conceito artístico muito praticado por nomes como [Rainer Werner] Fassbinder ou pelo [John] Cassavetes, eles iam atrás de quem queriam, constituíam verdadeiras famílias. Acho isso importante. A nível biográfico, eu sou bastante solitário e encontro esse relacionamento social também nas equipas com quem trabalho. É como se fosse a constituição de um jantar longo, de uma família ou de um convívio em férias. Algo que se constrói e marca o momento de uma forma indelével. Irrepetível até.
Enquanto encenador — e até ator —, o que podemos esperar de novos trabalhos em 2019 e nos anos seguintes? Algo semelhante a este novo trabalho ou vais preferir trabalhar outros autores?
Há autores quase desconhecidos que eu gostava de trabalhar. Autores franceses católicos, os autores esquecidos da época das trevas, da idade medieval, do teatro litúrgico francês. Há depois um núcleo do século XIX, que são os tardo-românticos, em que ninguém pega. Textos que foram veículo para grandes atores, em que haviam homens a escrever textos para mulheres. É disso exemplo “A Dama das Camélias”, algo que vou fazer. Ainda não posso dizer quando, mas vou mesmo fazer. Gosto deste repertório mas gosto ainda do teatro do horror, do boulevard do crime. Ui, há dramaturgias sem fim que gostava de explorar (risos).
Entrevista realizada a 26 de abril 2018, no Teatro Rivoli, por José Reis, coordenador de comunicação do TMP
Imagem © José Caldeira / TMP
“A fera na selva” é o espetáculo que apresentas no Teatro Municipal do Porto, em fevereiro de 2019. Uma peça de teatro que parte de um texto clássico, mas sob um prisma mais contemporâneo. Como surgiu a ideia de te debruçares sobre este texto escrito originalmente por um homem, mas retrabalhado por uma mulher alguns anos mais tarde?
Este espetáculo parte de “A fera na selva”, de Marguerite Duras, e surgiu de um convite do Fernando Luís Sampaio para apresentar um espetáculo no CCB. No entanto, depois de ter trabalhado alguns textos, inverti o convite e propus ao Fernando [Luís Sampaio] e à Luísa Taveira que fossem eles a fazerem a proposta. Eu gosto deste formato de encomenda e deram-me dois textos a escolher: um da Carson McCullers ou esta de [Marguerite] Duras, que é uma reconversão de um texto do início do século XX do novelista e romancista Henry James. Eu preferi este porque é menos habitado que o outro. Gosto das coisas mais periféricas, menos centrais, e propus este porque gosto das peças, do cinema e da escrita da autora. O que me agrada neste texto é que é um teatro de câmara, onde um homem e uma mulher debatem ao longo de seis quadros sobre um fantasma. Interessa-me explorar a história do teatro, de onde vem, as questões do texto, quando se estabelece a cena ou não, quando existe teatro ou deixa de existir. Há, no entanto, uma coisa que nunca pode escurecer: o amor pelo texto, porque o teatro é ainda muito ligado à literatura, àquela que é pensada para o palco. Este espetáculo é misterioso. Tem um enigma, sem qualquer linha de projeção do meu pensamento político, económico ou social. Isso não me interessa. Interessa-me lidar com mistérios e enigmas.
Quais as características que te entusiasmam neste texto e de que forma o colocarás em palco?
Este espetáculo tem a excelência do input inicial do Henry James, o maior escritor em língua inglesa do final do século XIX e início do século XX. E tenho interesse numa escritora de final do século [Duras], que filtra tudo isso e a transforma para um sítio especial, que é a cena, um sítio de exceção onde as coisas ressoam de outra forma. Geralmente se diz que de medíocres textos se fazem grandes trabalhos de cena. Esta é uma peça introspetiva, de alguém que se sente assustado porque não tem atividade na vida – profissional ou pessoal. São dois aristocratas, um homem e uma mulher. O homem [interpretado pelo ator Filipe Duarte] está paralisado de medo, porque acha que há uma grande catástrofe à espera dele. Isso impede-o de viver. A personagem feminina [com desempenho da atriz Margarida Marinho] solidariza-se com ele e o tempo passa, entre distrações, ficam velhos e morrem. A fera nunca salta para fora da selva e nada acontece, realmente. É uma peça sobre o impasse e o medo de afirmar as coisas na vida.
Recentemente vimos-te em palco enquanto ator principal [a dar corpo a “Timão de Atenas”, com encenação de Nuno Cardoso/Ao Cabo Teatro, abril 2018, Rivoli] e agora encontramos-te do outro lado da cena, a dirigir os atores. Quando é que o Miguel-ator começou a sentir que também podia ser o Miguel-encenador e o que te interessa nesse papel?
Bem, eu decidi começar a encenar porque quero fazer coisas que nunca vejo feitas. E como nunca as vejo feitas, acho que há um lugar para mim, neste panorama. Foi por isso que comecei a encenar em 1998. Agora, levo já mais de trinta trabalhos de encenação e gosto muito do sentido de gerir, de coordenar, porque, para mim, tudo isto tem sempre uma noção de família. Qualquer colaborador, quer seja por dois dias, por alguns minutos ou vários meses, correspondem a uma nova família. É um conceito artístico muito praticado por nomes como [Rainer Werner] Fassbinder ou pelo [John] Cassavetes, eles iam atrás de quem queriam, constituíam verdadeiras famílias. Acho isso importante. A nível biográfico, eu sou bastante solitário e encontro esse relacionamento social também nas equipas com quem trabalho. É como se fosse a constituição de um jantar longo, de uma família ou de um convívio em férias. Algo que se constrói e marca o momento de uma forma indelével. Irrepetível até.
Enquanto encenador — e até ator —, o que podemos esperar de novos trabalhos em 2019 e nos anos seguintes? Algo semelhante a este novo trabalho ou vais preferir trabalhar outros autores?
Há autores quase desconhecidos que eu gostava de trabalhar. Autores franceses católicos, os autores esquecidos da época das trevas, da idade medieval, do teatro litúrgico francês. Há depois um núcleo do século XIX, que são os tardo-românticos, em que ninguém pega. Textos que foram veículo para grandes atores, em que haviam homens a escrever textos para mulheres. É disso exemplo “A Dama das Camélias”, algo que vou fazer. Ainda não posso dizer quando, mas vou mesmo fazer. Gosto deste repertório mas gosto ainda do teatro do horror, do boulevard do crime. Ui, há dramaturgias sem fim que gostava de explorar (risos).
Entrevista realizada a 26 de abril 2018, no Teatro Rivoli, por José Reis, coordenador de comunicação do TMP
Imagem © José Caldeira / TMP
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