Renata Portas
Entrevista
Setembro
2018
Seg
10
Renata Portas • 41 anos • Encenadora
Quase um ano após a estreia de “Medeia” no Teatro Campo Alegre [outubro de 2017], regressas ao Teatro Municipal do Porto com um novo projeto, bastante diferente do anterior.
Sem dúvida. [“Estava em Casa e Es- perava que a Chuva Viesse”] É uma peça do Jean-Luc Lagarce, um autor absolutamente extraordinário, uma figura nuclear dos anos 90. Faleceu muito novo, tendo deixado um legado importantíssimo. Era editor, encenador, ator, ativista. Para este texto, gosto de pensar que ele estava em casa, a ler “A Casa da Bernarda Alba” [de Federico García Lorca], e pensou: “como é que eu posso fazer este trabalho sem as janelas entapaidas?” (risos). Mesmo não o sendo, parece-me uma releitura que faz da obra de Lorca. Um universo absolutamente feminino mas devotado ao homem. É uma coisa que tenho andado a pensar, fruto das minhas experiências: como é que podemos ser militantemente feministas mas acabamos sempre numa submissão. Como temos esta apetência para nos curvarmos à figura masculina, no melhor e no pior dos sentidos. E o texto é isto: cinco mulheres, cinco figuras definidas pelo seu papel em relação ao homem. A mãe, a avó e as irmãs, quando ele volta a casa para morrer. Ando sempre à volta da morte, mas esta é uma morte diferen-e. É uma morte que se esgotou na vida. Que bebeu a vida inteira.
É isso que pesa quando decides trabalhar determinado autor, esta sua ligação com a morte, a relação existente entre a finitude e a vida? Ou há outros elementos que te aproximam de um dado trabalho?
Em primeiro lugar, pesa muito esta relação com a escrita. Preciso de os ouvir aqui [aponta para a orelha], preciso de os ouvir e ser capaz de os ouvir várias vezes, de forma a poder levá-los a cena. Preciso de estabelecer uma relação. Como encenadora sou profundamente egoísta e preciso de sentir aquilo tudo, sentir que quero ouvir (e ver) tudo aquilo em palco.
Neste processo egoísta, solitário, como pensas o todo? Como se constrói aquilo que o ouvido ouve e a ca- beça idealiza, como se vai de dentro para fora no processo de levar a cena um texto como este?
Li este texto há muitos anos. Gosto deste processo, aliás. Deixar que os textos adormeçam em mim para voltar a resgatá-los alguns anos depois. E na minha cabeça eu sei que quero que ele se passe no palco. As pessoas devem sentir que assistir ao teatro é um ato de obscenidade maravilhosa. Nenhum de nós devia lá estar, nenhum de nós devia ouvir aquilo, tudo é profundamente íntimo. Há muitos anos, a minha encenação para este texto passava por confessionários de igreja, com as pessoas a espreitarem para algo desconhecido. Agora imagino dois lados: o lado A, representado por uma estrutura de casa, em que o público entra, não tem um sítio para sentar, existem apenas algumas camas-beliche, está tudo na mais perfeita escuridão, e ouvem uma voz, a voz da mãe. Sabemos que ela lá está mas não sabemos de onde ela nos chega; no lado B, as pessoas regressam ao palco, está tudo iluminado, as atrizes estão lá a fazer alguma coisa que não descortinamos. No fundo, um retrato do que fazemos quando esperamos alguém. Como se enche o tempo de pequenos nadas. O que é isso de apenas estar e isso bastar. É outra dimensão deste objeto que o torna noutra coisa.
Depois de tudo isto, o que se segue? Uma nova incursão por um autor já visitado por ti anteriormente, uma nova aventura com um novo texto ainda por explorar?
Tenho muita vontade em trabalhar o “Morte em Tebas”, do Jon Fosse, que é o mais anti-Fosse possível. Tenho uma relação tão forte com os clássicos que as pessoas me tratam como uma “encenadora de clássicos” e, na verdade, nunca fiz um único clássico. Tenho feito contemporâneos classicizantes, autores contemporâneos que têm um diálogo com a literatura clássica, seja o [Heiner] Müller ou o Novarina, e como não faço qualquer atualização, há este pendor clássico no próprio estilo. Nunca fiz um clássico mas, atenção, tenho muita vontade de fazer. Algo que está para breve, espero. Quero voltar ao Novarina em 2020 com o “Opereta Imaginária”, um grande festim musical. No meio disto tudo, há ovni’s que vão surgindo, nalguns casos como resposta a open calls a que vou concorrendo, porque descobri que gosto de fazer algumas coisas ligeiramente ao lado. Ir a um território diferente, onde posso brincar um bocadinho mais, como fiz recentemente, com godzillas que dançavam (risos), sendo possível ir até à cena mais trash. Estou muito tentada a fazer, no próximo ano, um objeto assim – tudo aquilo que jurei não fazer: um objeto autobiográfico, mais íntimo, com uma escrita minha. Estou disposta a quebrar uma série de regras ao mesmo tempo (risos). Será algo mais curto, uma coisa pensada com um ator muito próximo, para trabalhar o pequeno formato, que já não faço há alguns anos. É sobre um casal que é um “não-casal”, em que o personagem masculino está sempre a ir embora e a personagem feminina está a dizer para ele não partir. E quero fazer isto num quarto. Num quarto de hotel, num motel ou numa pensão nos Aliados, com recursos muito mínimos, simplesmente com uma luz de candeeiro de mesa de cabeceira. Com isto quero recuperar o meu lugar da atriz, o local onde a atriz e a dramaturga encontram a encenadora. Elas precisam de encontrar este sítio, este local. E isso irá acontecer, certamente.
Entrevista realizada a 26 de abril 2018, no Café Rivoli, por José Reis, coordenador de comunicação do TMP
Fotografia © José Caldeira / TMP
Quase um ano após a estreia de “Medeia” no Teatro Campo Alegre [outubro de 2017], regressas ao Teatro Municipal do Porto com um novo projeto, bastante diferente do anterior.
Sem dúvida. [“Estava em Casa e Es- perava que a Chuva Viesse”] É uma peça do Jean-Luc Lagarce, um autor absolutamente extraordinário, uma figura nuclear dos anos 90. Faleceu muito novo, tendo deixado um legado importantíssimo. Era editor, encenador, ator, ativista. Para este texto, gosto de pensar que ele estava em casa, a ler “A Casa da Bernarda Alba” [de Federico García Lorca], e pensou: “como é que eu posso fazer este trabalho sem as janelas entapaidas?” (risos). Mesmo não o sendo, parece-me uma releitura que faz da obra de Lorca. Um universo absolutamente feminino mas devotado ao homem. É uma coisa que tenho andado a pensar, fruto das minhas experiências: como é que podemos ser militantemente feministas mas acabamos sempre numa submissão. Como temos esta apetência para nos curvarmos à figura masculina, no melhor e no pior dos sentidos. E o texto é isto: cinco mulheres, cinco figuras definidas pelo seu papel em relação ao homem. A mãe, a avó e as irmãs, quando ele volta a casa para morrer. Ando sempre à volta da morte, mas esta é uma morte diferen-e. É uma morte que se esgotou na vida. Que bebeu a vida inteira.
É isso que pesa quando decides trabalhar determinado autor, esta sua ligação com a morte, a relação existente entre a finitude e a vida? Ou há outros elementos que te aproximam de um dado trabalho?
Em primeiro lugar, pesa muito esta relação com a escrita. Preciso de os ouvir aqui [aponta para a orelha], preciso de os ouvir e ser capaz de os ouvir várias vezes, de forma a poder levá-los a cena. Preciso de estabelecer uma relação. Como encenadora sou profundamente egoísta e preciso de sentir aquilo tudo, sentir que quero ouvir (e ver) tudo aquilo em palco.
Neste processo egoísta, solitário, como pensas o todo? Como se constrói aquilo que o ouvido ouve e a ca- beça idealiza, como se vai de dentro para fora no processo de levar a cena um texto como este?
Li este texto há muitos anos. Gosto deste processo, aliás. Deixar que os textos adormeçam em mim para voltar a resgatá-los alguns anos depois. E na minha cabeça eu sei que quero que ele se passe no palco. As pessoas devem sentir que assistir ao teatro é um ato de obscenidade maravilhosa. Nenhum de nós devia lá estar, nenhum de nós devia ouvir aquilo, tudo é profundamente íntimo. Há muitos anos, a minha encenação para este texto passava por confessionários de igreja, com as pessoas a espreitarem para algo desconhecido. Agora imagino dois lados: o lado A, representado por uma estrutura de casa, em que o público entra, não tem um sítio para sentar, existem apenas algumas camas-beliche, está tudo na mais perfeita escuridão, e ouvem uma voz, a voz da mãe. Sabemos que ela lá está mas não sabemos de onde ela nos chega; no lado B, as pessoas regressam ao palco, está tudo iluminado, as atrizes estão lá a fazer alguma coisa que não descortinamos. No fundo, um retrato do que fazemos quando esperamos alguém. Como se enche o tempo de pequenos nadas. O que é isso de apenas estar e isso bastar. É outra dimensão deste objeto que o torna noutra coisa.
Depois de tudo isto, o que se segue? Uma nova incursão por um autor já visitado por ti anteriormente, uma nova aventura com um novo texto ainda por explorar?
Tenho muita vontade em trabalhar o “Morte em Tebas”, do Jon Fosse, que é o mais anti-Fosse possível. Tenho uma relação tão forte com os clássicos que as pessoas me tratam como uma “encenadora de clássicos” e, na verdade, nunca fiz um único clássico. Tenho feito contemporâneos classicizantes, autores contemporâneos que têm um diálogo com a literatura clássica, seja o [Heiner] Müller ou o Novarina, e como não faço qualquer atualização, há este pendor clássico no próprio estilo. Nunca fiz um clássico mas, atenção, tenho muita vontade de fazer. Algo que está para breve, espero. Quero voltar ao Novarina em 2020 com o “Opereta Imaginária”, um grande festim musical. No meio disto tudo, há ovni’s que vão surgindo, nalguns casos como resposta a open calls a que vou concorrendo, porque descobri que gosto de fazer algumas coisas ligeiramente ao lado. Ir a um território diferente, onde posso brincar um bocadinho mais, como fiz recentemente, com godzillas que dançavam (risos), sendo possível ir até à cena mais trash. Estou muito tentada a fazer, no próximo ano, um objeto assim – tudo aquilo que jurei não fazer: um objeto autobiográfico, mais íntimo, com uma escrita minha. Estou disposta a quebrar uma série de regras ao mesmo tempo (risos). Será algo mais curto, uma coisa pensada com um ator muito próximo, para trabalhar o pequeno formato, que já não faço há alguns anos. É sobre um casal que é um “não-casal”, em que o personagem masculino está sempre a ir embora e a personagem feminina está a dizer para ele não partir. E quero fazer isto num quarto. Num quarto de hotel, num motel ou numa pensão nos Aliados, com recursos muito mínimos, simplesmente com uma luz de candeeiro de mesa de cabeceira. Com isto quero recuperar o meu lugar da atriz, o local onde a atriz e a dramaturga encontram a encenadora. Elas precisam de encontrar este sítio, este local. E isso irá acontecer, certamente.
Entrevista realizada a 26 de abril 2018, no Café Rivoli, por José Reis, coordenador de comunicação do TMP
Fotografia © José Caldeira / TMP
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