Understage - © DR

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29 Sex 23.30h

RIVOLI Subpalco

7.00€ • ≈45min • >12

Understage

Sereias

Música
Coprodução com Lovers & Lollypops
No âmbito do Porto/Post/Doc 2019
Understage - © DR

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Enquanto o país arde de tédio, as Sereias mergulham uma vez mais com o seu jazz-punk pós-aquático nas águas turvas do junk-zapping pré-píxelástico de Francisco Laranjeira. Um concerto de Sereias promete um ambiente imersivo e sinestésico. Arquivos de filmes super 8, fitas VHS, ruído analógico, video-feedback e glitch, manipulados ao vivo através de instrumentos virtuais e software dedicado, interagem com a poesia mordaz de A. Pedro Ribeiro e seus mascadores sónicos de barba rija. Durante a performance serão usadas imagens dos filmes "Porto Abril 1975", "O 11 de Março de 1975" e "O 25 de Novembro depois…" de José Alves de Sousa, realizados nas ruas do Porto durante o PREC. O concerto do Understage servirá para apresentar o disco de estreia do coletivo, intitulado “País a Arder”.
Voz António Pedro Ribeiro
Voz Arianna Casellas
Documentação Celestino Monteiro
Vídeo Francisco Laranjeira
Bateria João Pires
Saxofone Julius Gabriel
Sintetizadores Nils Meisel
Guitarra Sérgio Rocha
Baixo Tommy Luther Hughes
1, 2, 3...
O “País a Arder” foi lançado no dia 5 de novembro e é o vosso disco de estreia. Lemos que é uma espécie de música de intervenção. Estando ou não confortáveis com esta designação, a vossa música acaba por ser uma resposta à sociedade atual, ao modelo de governação e ao sistema político. Porquê esta opção e que temáticas abordam neste disco?

António Pedro Ribeiro (APR) Isso tem a ver com a situação mundial e com a situação portuguesa. Penso que se assiste, neste momento, a uma situação em que há uma espécie de máquina global que controla e vigia a consciência das pessoas, o seu pensamento e comportamento via meios informáticos, televisão e outros media. Isto leva as pessoas a enveredarem por determinados comportamentos e a ficarem muitas vezes doentes psicologicamente, com depressões, ou outro tipo de doenças mentais. Sobem cada vez mais as taxas de suicídio e há também uma espécie de esquizofrenia global com todo este caos que se gera a nível mundial com o [Donald] Trump, com o [Jair] Bolsonaro, mesmo com estes líderes supostamente moderados como o [Emanuel] Macron, a [Angela] Merkel, o [António] Costa – que no fundo acabam por ser todos eles capitalistas. E há todo um perigo disto descambar... Ainda por cima com todo um fascismo que cresce cada vez mais e que pode, de facto, destruir o planeta. Felizmente, têm aparecido movimentos contrários a isso como por exemplo a Greta Thunberg... Estes movimentos ecologistas pela salvação do mundo são uma urgência. O mundo está de facto em perigo. A humanidade está de facto em perigo. Depois há outros movimentos de reação em Barcelona e isso não acontece por acaso. Estão também a acontecer em França e mesmo na América Latina. Parece que há um novo movimento à esquerda e tudo isso vem acontecendo. Isto porque há uma clara redução da sociedade à economia – as pessoas são tratadas como coisas, como mercadorias. Tudo é visto como economia. O “Deus-Dinheiro”, o dinheiro e o poder. Depois há também a luta pela vida. “Os macacos que trepam uns para cima dos outros”, como dizia o Nietzsche. Porque as pessoas também não são inocentes, também têm culpas, também se deixam levar e envolvem-se numa luta pela vida e uma luta pela sobrevivência – por isso trepam umas por cima das outras em luta pelo dinheiro, pelo lugar, pela carreira. E isso é quase animalesco.

Consideram então que a música pode ter um papel ativo nestas questões?

APR Eu penso que a música já há muitos anos que tem este papel ativo. Em Portugal, desde o tempo do Zeca Afonso e do Adriano Correia de Oliveira, do José Mário Branco, e depois dos Mão Morta ou dos UHF… Aqui em Portugal, a música sempre teve esse papel importante, e no estrangeiro também. Mesmo os Rolling Stones na sua fase inicial denunciavam o status quo, ou os The Doors. Portanto, a música sempre teve um papel importante na denúncia do capitalismo e dos seus abusos.

Este tema do caos generalizado também acaba por transparecer na vossa música. Vocês utilizam jazz, punk, kraut – há toda uma mistura de sons. Esta utilização de várias texturas sonoras resulta primeiro da palavra e das letras que incluem nas músicas ou surge de improvisação e da experimentação, durante os ensaios?

Tommy Luther Hughes (TLH) É assim, planeado não é! (risos) Nunca é planeado! Mas sim, muitas vezes nasce das letras e nasce do texto – vamos “atrás” da poesia do António Pedro –, mas por vezes acontece o contrário também e nasce primeiro a música através da improvisação. Em termos de estilos, se é jazz ou se é punk, também não é planeado. Nós fazemos barulho – e barulhos muito esquisitos – e é uma coisa de caos e depois… não há regras, quase que não há disciplina musical. Tal como os ensaios, os concertos são totalmente improvisados – não temos músicas, não temos estrutura, não temos setlist. E se tentarmos controlar aquilo, ou manipular demasiado, acaba por não funcionar. Já tivemos ensaios com músicos com muito talento e técnica que diziam “vamos agora repetir esta parte” e “agora tu tenta fazer isto ou aquilo”, ou seja a tentar estruturar e por alguma razão as Sereias não funcionam… é verdade! Já experimentamos criar estrutura, criar regras, mas não funciona mesmo.

Essa liberdade – sem estrutura, sem regras – é também uma resposta a este caos atual.

TLH Sim, completamente! E não digo que a estrutura e as regras sejam más ou que não funcionem. Eu tenho imenso respeito por isso e acho que as regras ajudam em certos aspetos, e que na maioria das vezes as regras estão lá para serem quebradas. Mas para nós aquilo não funciona. Ou então ainda não descobrimos como é que isso resulta! (risos)

Falavam que os vossos concertos nunca são iguais aos ensaios, os ensaios não são iguais aos discos, o que está no disco não é o que se encontra nos concertos. Como é que se conseguem encontrar neste caos aparente? Há pontos de ligação? A voz vai atrás dos instrumentos? O que guia o quê?

APR Acho que é tudo muito espontâneo… é a tal liberdade. Uma liberdade quase absoluta, é passar para o reino mais puro. É um caos, mas ao mesmo tempo passas para um reino mais puro, mais livre.

Quanto tempo demorou o processo de composição/criação do disco? Houve uma vontade de não forçar nada e de deixar respirar as músicas?

TLH A gravação do disco foi feita por nós, no estúdio do Theatro Circo, em Braga, – um sítio fantástico! – e foi da mesma forma: um dia inteiro de improvisação. No fim do dia tínhamos 7 horas de material que tivemos depois de editar. A razão pelo qual demorou imenso tempo a lançar o disco foi porque fomos nós próprios a fazê-lo. Foi o Nils [Meisel], o João [Pires], nós… É um processo que demora muito tempo! Condensar material de 8 horas para menos de 1 hora com 10 músicas, e sem fazer overdub nem nada disso e utilizar mesmo matéria crua… demora algum tempo. Por outro lado, também achamos que há um certo tempo para se fazer as coisas. A própria Lovers & Lollypops também tem uma agenda e depois ainda há a criação da parte visual e do artwork do Francisco Laranjeira – isso tudo demora tempo. Podíamos ter feito antes, mas há muita gente envolvida.

O Francisco Laranjeira vai também participar neste concerto no Understage, no dia 29 de novembro, com uma série de vídeos a partir dos filmes de José Alves de Sousa relacionados com a altura do PREC. Como será a junção destas imagens com o ambiente do Understage e a vossa música?

TLH O espaço é fantástico! É um espaço muito fixe e acho que tudo vai encaixar muito bem. O Laranjeira é um grande maluco e gosta de desafios, de chegar a um sítio e manipulá-lo. E se fosse muito fácil era aborrecido! Ele conhece muito bem e gosta muito da banda e acho que os visuais dele, o estilo de arte e o caos que ele também emite que encaixa mesmo bem com a nossa música e com os textos.


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